A análise do texto a seguir, usa os critérios usados na análise do texto anterior. Salientamos que é um prefácio ou louvação, e um Santo, para a festa do Natal. Numa proposta de inculturação da liturgia, o texto possui uma melodia em ritmo típico da música popular de raiz, presente no interior do Brasil, geralmente usando a viola caipira como instrumento principal.
Muitas graças e louvores Nós te damos,
Ó Pai Santo do universo Criador! Tu que és o Deus da vida
Rei dos tempos e da história, Da beleza doador!
Por Jesus teu Filho amado No teu amor consagrado Que por nós se encarnou.
Do poder do Espírito Santo Por Maria que é um encanto, Entre os pobres acampou. (bis)
Todo o texto traz uma linguagem simples, carinhosa e de uma beleza ímpar. Esta primeira parte deixa transparecer o reconhecimento da beleza doada pelo Criador. Ressalta a presença do criador que “acampou” entre os pobres, se encarnou pelo Espírito, através de Maria que é um “encanto”, explicitando o mistério da encarnação e do nascimento de Jesus numa realidade de pobreza.
Os profetas predisseram As promessas se cumpriram O Messias já chegou!
Oprimidos libertados, Os doentes são curados Toda a terra se alegrou! O seu santo nascimento Só nos traz contentamento Nova esperança raiou!
Com teu povo redimido Numa voz ao céu unidos, Proclamamos teu amor.
Esta segunda parte do prefácio começa fazendo referência à realidade profética que prepara e realiza a vinda do Messias. Mostra a característica revolucionária desta vinda: “oprimidos libertados”, doentes curados, e um contentamento que gera esperança renovada. E encerra chamando os redimidos a proclamar o “amor” do Pai por todas e todos ao enviar seu Filho ao mundo, proclamando-o três vezes, Santo.
Santo, Santo, Santo Senhor do universo Terra, céus e mares Cantam teu louvor! Bendito e louvado Em nome do Senhor Glória no mais alto Reino de Esplendor! Ao que vem salvar O povo sofredor Glória no mais alto Reino de Esplendor! Terra, céus e mares Cantam teu louvor! Glória no mais alto Reino de Esplendor
A parte do Santo é muito fiel ao texto bíblico em que a eucologia se inspira, (Is 3,6), com acréscimos que dão beleza e originalidade ao texto, fazendo referência ao Cristo que nasceu. É Ele que “vem salvar o povo sofredor”. A ele seja o louvor, “no mais alto reino de esplendor”, o reino de luz que ilumina o mundo.
O texto traz uma linguagem libertadora no sentido dado por uma reflexão teológica a partir da realidade dos empobrecidos que lutam pela sua libertação. E quando se
louva, é porque existe esperança, característica cristã dos que foram salvos em Cristo e esperam a sua libertação.
Concluindo este terceiro capítulo, podemos reafirmar a importância do Concílio Vaticano II para a Igreja. Do ponto de vista da liturgia, ele foi o cume de um processo inovador, difícil, e bem sucedido que teve suas origens no início do século XX, com o movimento litúrgico. Mas a partir de suas conclusões ele torna-se o início de um processo ainda em andamento. A renovação litúrgica vai acontecendo na medida em que nos empenharmos em colocar em prática o Concílio.
No âmbito da liturgia e dos textos eucológicos, ainda se tem muito a caminhar no sentido de adaptar, aculturar e inculturar. Iniciativas novas existem, como as apresentadas neste trabalho dissertativo, levando em conta as possibilidades de flexibilidade existentes. Partindo de onde o Concílio nos enviou, estamos neste caminho e não podemos parar.
Ao nos dispormos realizar este trabalho dissertativo, tínhamos como ponto de partida a realidade dos textos litúrgicos e o desejo de conhecê-los mais e consequentemente torná-los mais conhecidos. Conhecer uma realidade científica necessita entrar nela, investigá- la, torná-la conhecida, dando razões para tal.
Conhecer a eucologia, suas leis, suas fórmulas, foi um dos resultados deste trabalho. Tivemos a oportunidade de, através da história, entrar no universo eucológico, saber o porquê das características da eucologia romana com suas marcas, sobretudo de simplicidade e sobriedade.
Foi possível conhecer também o processo pelo qual a liturgia romana foi se desfigurando, tentando assimilar processos históricos, culturais e políticos através dos tempos. O Concílio de Trento foi um ponto alto deste processo e suas decisões se cristalizaram na liturgia romana de tal forma a perdurar por quatrocentos anos, criando um ambiente insuportável, do ponto de vista do peso das regras e de uma liturgia ininteligível que excluía a participação.
O Movimento Litúrgico, em sua grande empreitada de dissecar a liturgia em suas entranhas, foi uma luta que tinha como princípio inovar a partir das fontes, mas não tinha consciência do desfecho que seu trabalho ia ter. No entanto estava aberto ao diálogo, com o suporte teórico de muitos teólogos apaixonados pela liturgia. A ciência litúrgica se estruturou e com ela a liturgia.
Descortina-se o novo e aparecem os ventos conciliares do Vaticano II como um dos maiores acontecimentos dos tempos modernos na Igreja. Sua renovação litúrgica, expressa no documento Sacrosanctum Concilium sobre a liturgia é o ponto de partida para
termos sempre mais uma liturgia adaptada e inculturada.
Ilustrando essas possibilidades, apresentamos dois exemplares de texto litúrgico eucológico, adaptados para a celebração eucarística, usados numa Igreja particular do nosso País, a Diocese de Goiás. Fizemos algumas análises desses textos para entender melhor sua elaboração, estrutura e origem. Nisso constatamos que quanto mais identidade tem um grupo cultural ou pastoral naquilo que lhe é específico, mais necessidade tem de celebrar uma liturgia acomodada às suas características culturais. Também recordamos exemplos de iniciativas de textos litúrgicos adaptados no campo do ofício divino, da celebração eucarística e da celebração em torno da Palavra Deus, estes dois últimos, de iniciativa da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.
A Intenção deste estudo também é que nos assuntos tratados, tendo como principal foco a questão dos textos litúrgicos, se avance sempre, sendo fiel às normas da Igreja e fazendo uso de suas leis que possibilitam flexibilidade, sem ferir a integridade do rito romano naquilo que lhe é mais autêntico e fiel ao Evangelho. Isso não impede, todavia, de se inovar, tendo bem claras duas idéias bastante insistentes nesta dissertação: não perder o conteúdo litúrgico, e como insiste o concílio Vaticano II, facilitar e aumentar a participação ativa, consciente e frutuosa na liturgia (SC 11), característica renovadora e revolucionária da liturgia moderna.
Como perspectivas e desafios, algo que toda reflexão científica é chamada a produzir, esperamos que esta pesquisa provoque outras, mais aprofundadas, mais específicas, pois a ciência nos possibilita abrir sempre mais o leque da questão em foco. Ela não está fechada.
acomode e nem entre num estado de letargia com relação à criatividade na celebração.
E no campo dos textos litúrgicos eucológicos, que se pesquise mais, que se proponham câmbios de abertura, de propostas, para que a liturgia, como o próprio Deus encarnado, esteja em contínuo processo de adaptação para se inculturar na diversidade das culturas.
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