3. INTEGRATION OUTCOMES AND PROCESSES FOR FAMILY MIGRANTS
3.2. I NTERMARRIAGE AND INTEGRATION
3.2.2. United Kingdom (UK) – Integration along various dimensions
A palavra grega καθολικόρ (katholikós) significa universal. A Igreja Católica pretende-se universal, afirmando o acolhimento de várias tradições numa Igreja. No entanto, as Igrejas Católicas Orientais possuem a denominação de sui juris, têm jurisdição própria, ou seja, possuem certos particularismos. A prerrogativa de sui juris não é dada à Igreja Latina.
150 MOOSA, Matti. The Maronites in History. Piscataway: Georgias Press, 2005. 151
Nesse mundo universal e, ao mesmo tempo, particular é que se dá a existência das Igrejas Católicas Orientais na cidade, com a manutenção de certos particularismos dentro do que seria uma Igreja Universal. Mas a prática se mostra distinta das denominações eclesiásticas. Como já discutido152, não existe uma renovação dos fluxos migratórios das regiões de origem das Igrejas Orientais na cidade. Assim sendo, ocorre a diminuição numérica dos fiéis. Diferentemente das Igrejas Ortodoxas na cidade, as Igrejas Católicas Orientais talvez possuam menos autonomia na busca de sua manutenção, pois estariam mais expostas à influência da Igreja Latina. A preocupação dos membros do clero é grande, diante das circunstâncias; eles temem perder seus particularismos e a sua forma de catolicismo:
Porque a quantidade, ela vai, digamos, sobrepondo aos poucos. Então a gente também corre esse risco, devido à questão proporcional. Mas se... Em questão de perseverança, é algo assim que vai se prevalecer, e também se não houver, digamos, uma divulgação da nossa parte quando vem a questão cultura ucraniana católica, se a gente não fizer um trabalho em cima disso, eu creio que em pouco tempo, no máximo um século, a questão latina, ela vai prevalecer.153
UC teme a concorrência da Igreja Latina em sua paróquia. Nesse trecho do depoimento pode-se entender o “peso” da Igreja majoritária no horizonte do membro do clero. UC aponta para a questão numérica, proporcional.
152 Ver Capítulo 2.
153 Depoimento de membro do clero da Igreja Católica Ucraniana da cidade de São Paulo, em entrevista concedida ao autor em 16/6/2010.
Figura 14 - Igreja Católica Ucraniana na Vila Prudente.154
Essa situação de minoria na cidade preocupa muitos católicos orientais paulistanos. Porém, não é somente o fato de ser minoria que causaria o fim dos particularismos dessas Igrejas. Como mencionado155, os casamentos mistos, muitas vezes, impedem a renovação dos fiéis. Muitos católicos orientais tornam-se latinos pelo casamento:
Diminuíram porque muitos casamentos são feitos na Igreja, mas só o casamento, depois vão pelo mundo. Batizados, poucos batizados, quero dizer, o futuro da comunidade não é ter uma comunidade de russos porque eles vão se integrando. Aqueles que estão batizados ali... Eu mesmo tenho um afilhado que foi batizado aqui, mas vai casar na Igreja Católica [Latina].156
154 Autor: Felipe Beltran Katz. Data: 7/9/2011. 155 Ver Capítulo 2.
No depoimento de RC a questão geracional também é retomada. O próprio afilhado do membro do clero resolveu casar-se na Igreja Latina. Mesmo que RC tenha tentado manter a comunidade, batizando seu afilhado na Igreja Católica Russa, o poder da Igreja Latina desfez o projeto de RC. Para ele, o futuro seria uma integração completa dos russos católicos, entendida como a absorção desse grupo na Igreja Latina. A universalidade do catolicismo russo, a sua integração acarretaria o fim de suas particularidades.
O papel da integração, a questão geracional e os casamentos mistos são retomados no depoimento de AC:
Prevalece sempre a religião do noivo. Mas tenho constatado nesses meus 30 anos [...] de que a cada geração que passa, descemos ao menos um degrau na armenidade. Aumenta o número dos matrimônios mistos entre católicos latinos. [...] E recentemente surgiu já um caso de noivo armênio católico casando com a noiva católica latina na Igreja da noiva. Isso é porque diminui, como disse, essa sensibilidade oriental.157
A relação entre sua Igreja e a Igreja Latina na cidade está no horizonte de AC. Ele parece intrigado com a existência de casamentos em que o noivo aceita realizar o matrimônio na Igreja Latina da noiva. Isso talvez sugira o poder e a influência que a Igreja Latina tem sobre os católicos orientais na cidade.
AC ressalta a questão do particularismo, sua armenidade, a sensibilidade oriental dentro da Igreja Universal. Parece que para o depoente é preferível o casamento misto entre Igrejas armênias:
157 Depoimento de membro do clero da Igreja Católica Armênia da cidade de São Paulo, em entrevista concedida ao autor em 9/3/2010.
Então, se uma católica armênia casa com um armênio apostólico, certamente a liturgia é feita na Igreja Armênia Apostólica, na Igreja do noivo. Precisa autorização do bispo, da parte Católica “tudo bem”, é mista a religião, mas se faz, nem se discute; e se também uma moça apostólica casa um jovem armênio católico, é certo que se faz, nem se discute.158
Mesmo sendo membro da Igreja Católica, AC valoriza mais os casamentos de noivos de origem armênia feitos na Igreja Apostólica Armênia do que aqueles realizados na Igreja Latina. A questão da manutenção da armenidade aparece. Essa atitude não é discutível. Diferentemente do que ocorre entre Igrejas Católicas quando o assunto é casamento.
Em última instância, o casamento de armênios católicos na Igreja Apostólica Armênia contribui para a manutenção da própria comunidade católica armênia. A Igreja Latina, com substancial influência na cidade, está decompondo os particularismos, o sui juris, da Igreja Católica Armênia. Integração e latinização cruzam-se no catolicismo oriental paulistano.
A possível perda dos particularismos preocupa muitos dos membros das Igrejas Católicas Orientais paulistanas. Contudo, são Igrejas Católicas, institucionalmente, em pé de igualdade com a Igreja Latina. Portanto, têm prerrogativas similares, como a divulgação de sua fé. Mas, num espaço dominado pela influência da Igreja Latina, em que muitas Igrejas Católicas Orientais estão submetidas à hierarquia da Igreja predominante, essa tarefa torna-se complicada. Segundo um fiel da Igreja Católica Melquita, a Igreja Latina, de forma sutil, não é muito condescendente:
A sensação que se passa é que as Igrejas Orientais, é como se elas tivessem direito de existir só para o seu redio [sic], só para quem já é oriental. É como se o trabalho de evangelização, ele fosse apenas da Igreja Latina, da Igreja Romana. Então, às vezes você vai numa favela, você vai em determinada região, é muito comum, às vezes, um bispo e um padre perguntar: "O que vocês estão fazendo aqui?" Porque é como fosse assim, "Olha, vocês têm os seus fiéis, então vocês têm direito de existir para quem já é fiel melquita". Então é como se a Igreja Melquita não tivesse o direito de anunciar o Evangelho.159
Segundo sugere F-MK, a Igreja Latina apresenta-se como a única Igreja verdadeiramente universal (katholikós) na cidade. Enquanto as Orientais são verdadeiramente
sui juris; com uma jurisdição especial, atenderiam somente fiéis orientais. A divisão parece
patente. Além disso, esse processo está marcado pela questão da assimilação das comunidades católicas orientais por meio da latinização. Assim, a Igreja Latina atua e se expande livremente, muitas vezes em detrimento dos próprios católicos orientais.
O que ocorre é a formulação de um discurso orientalista160. Esse discurso tem por projeto a valorização dos elementos da Igreja Latina, que sugerem um verdadeiro cristianismo, mais elevado e possível a todos. Assim sendo, as Igrejas Católicas Orientais são tratadas como um estágio anterior ao cristianismo latino, pois estão associadas a comunidades particulares. Para deixar de ser um cristianismo subterrâneo, as Igrejas Católicas Orientais devem abandonar suas peculiaridades, para tornarem-se verdadeiramente universais. No entanto, a Igreja Latina possui tradições e ritos próprios de sua experiência histórica. A hierarquização de tradições no interior da Igreja Católica é produto do discurso orientalista.
159 Depoimento de fiel de Igreja Católica Melquita da cidade de São Paulo, em entrevista concedida ao autor em 28/3/2011. O código para designar essa fiel será F-MK.
160 SAID, Edward. Orientalismo: O Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p.30.
Todavia, a análise das relações entre Igrejas Católicas deve ser prudente. As Igrejas Católicas Orientais possuem um espaço de autonomia. Tratar essas Igrejas como vítimas de uma Igreja Latina mais poderosa e dominante é retirar do catolicismo oriental paulistano a capacidade de elaborar estratégias para sua existência na cidade. Fazer isso é não compreender a experiência dessas Igrejas e, principalmente, o caráter de intermediação que elas possuem.
As Igrejas Católicas Orientais na cidade de São Paulo têm de contemporizar o poder da Igreja Latina para a sua manutenção e existência. Esse poder pode ser o agente de manutenção dessas comunidades. Muitas situações são apontadas pelos membros do clero que sugerem esse tipo de estratégia. O caso mais exemplar é o da Igreja Católica Russa. Essa Igreja é a menor de todas as Igrejas Católicas Orientais na cidade (também é menor no conjunto total das Igrejas Orientais paulistanas), sua manutenção ocorre principalmente pela maneira prudente de lidar com as condições impostas a ela. Como já apontado161, essa Igreja não possui pároco próprio, portanto, é auxiliada pela Igreja Católica Melquita:
Ah, sim, temos um padre que atualmente ele está celebrando uma vez por mês, porque, como você acabou de colocar, a Igreja é muito pequena, a comunidade tem quinze famílias, então até quando não sei vai continuar essa tradição, porque em geral quando essas famílias antigas de origem não brasileira, eles tentam conservar algum cheiro do seu próprio país. Então, por essa razão, eles estão aqui e a Igreja sempre, como todas as Igrejas, nós somos abertos a todas as Igrejas, seja a Igreja Latina Romana, Latina de Rito Romano, ou seja, Igreja Oriental Católica em comunhão com a Santa Sé. Somos no final irmãos, e quando tem uma necessidade, a Igreja cobre a falta de qualquer Igreja, seja qual for.162
161 Ver Capítulo 2.
MK permite perceber que há uma irmandade entre as Igrejas Católicas Orientais na cidade. Em última instância, a manutenção da Igreja Católica Russa na cidade ocorre pelo apoio recebido dentro da Igreja Católica. Suas irmãs Católicas Orientais vêm ao seu auxílio nesse momento de necessidade. Nesse caso, o pertencimento e a associação com a Igreja Católica tornam-se elementos de suporte básico para a existência dessa Igreja na cidade.
Retomando o estabelecimento da Igreja Católica Russa na cidade, é de se destacar o auxílio dos padres latinos. Foi graças a esses indivíduos que a maior parte dos russos da China pôde emigrar para o Brasil. A atuação junto ao governo brasileiro foi fundamental. Chegando aqui, a Igreja Latina (principalmente por meio dos jesuítas) ajudou a estruturação desses grupos na cidade, como relata RC:
E os padres jesuítas que estavam mais à frente desse trabalho vieram para São Paulo. Conseguiram o colégio em Itu, na igreja de Itu, para as meninas, conseguiram em Resende. Depois aqui, adquiriram aqui em São Paulo, na Rua Progresso, lá em Santo Amaro, casinha pequena, uma pobreza muito grande, mas o Vaticano ajudava. Dali se mudaram para o Ipiranga, na Rua Pouso Alegre, aqui perto. E os padres adquiriram essa igreja, doação. [...] Quinta-feira dava audiência para os russos, tinham advogados, médicos, especialistas e os padres que orientavam.163
A orientação da Igreja Latina parece ter sido fundamental para que esses grupos de russos vindos da China pudessem se fixar na cidade. Além disso, cabe notar que a Igreja Latina contribuiu para o estabelecimento de uma Igreja Católica Oriental de rito russo. Anteriormente, foi destacado o caráter de proselitismo da influência que a Igreja Latina exerceu sobre esse grupo de russos vindos da China. Ela foi responsável pelo estabelecimento
163 Depoimento de membro do clero da Igreja Católica Russa da cidade de São Paulo, em entrevista concedida ao autor em 14/2/2010.
de uma Igreja Russa desagregada dos grupos ortodoxos que já viviam na cidade. Contudo, as peculiaridades do rito russo foram preservadas e, como denotam os depoimentos, o auxílio recebido foi essencial para esses imigrantes.
Posteriormente, muitos membros da comunidade russa católica emigraram para os EUA, o Canadá e para a Austrália, onde também se fixaram comunidades russas católicas:
Hoje tem um igreja em Nova York, que funciona, atende a população russa desse grupo, católicos orientais, se chamam greco-católicos como os ucranianos. Outra igreja na Austrália, que tem um grupo bom, foram muitos do Brasil, outros da China, e tem essa aqui. Outras maiores que essa, mais importantes que essa, já fecharam. [...] Os russos ficavam aqui, muitos se integravam na comunidade brasileira, diferente dos Estados Unidos, que não ficam juntos. Muitos iam para os Estados Unidos, e esses padres tinham bastante aceitação junto aos consulados, e conseguiram. Canadá, muitos foram para o Canadá, muitos para os Estados Unidos, muitos lá para São Francisco, outros para Nova York, outros para lugares onde havia comunidades russas.164
Muitos imigrantes russos que primeiramente vieram para São Paulo acabaram por reforçar comunidades imigrantes no estrangeiro. A atuação da Igreja Latina parece ter sido primordial para criar uma rede entre esses grupos. A aceitação de muitos jesuítas nos consulados norte-americanos, segundo RC, foi fundamental para a “reimigração” desses russos.
Nesse sentido, o caráter intermediador das Igrejas Católicas Orientais, associando as tradições dos cristianismos latino e ortodoxo, faz com que elas elaborem estratégias originais e, portanto, distintas das antigas tradições. Nas brechas deixadas pelos católicos latinos é que a autonomia dessas Igrejas ocorre na cidade, mesmo com o auxílio da Igreja Latina.
A questão da intermediação atravessa o cristianismo oriental paulistano de várias maneiras. Retomando a metáfora do Iconostasis Paulistano, a questão da atuação do membro do clero já foi abordada. No entanto, para que a metáfora seja completada, é necessário deslocar-se em direção à nave e observar alguns apontamentos dos fiéis orientais paulistanos.
CAPÍTULO IV – PARA ALÉM DOS BELOS PORTÕES: