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N ATIONAL CASE STUDIES

4. THE EFFECTS OF FAMILY MIGRATION REGULATIONS

4.2. N ATIONAL CASE STUDIES

Para que esta experiência fosse completada, cinco fiéis de diferentes Igrejas e com trajetórias distintas foram chamados a participar deste estudo. A seleção dos entrevistados procurou comtemplar de forma resumida vários aspectos do cristianismo oriental paulistano. Foram escolhidos dois fiéis membros de Igrejas Ortodoxas e três de Igrejas Católicas Orientais. Entre os fiéis ortodoxos, um frequenta a Igreja desde jovem e o outro passou a frequentá-la depois da maturidade. O mesmo ocorre em relação aos fiéis católicos orientais: dois são membros da Igreja desde a infância e um se “converteu” na idade adulta. Como os entrevistados não quiseram se identificar durante as entrevistas, seus nomes estão codificados.

Assim sendo, explicitamente, os fiéis entrevistados são: um fiel nascido na Igreja Apostólica Armênia, cujo código será F-AO; um fiel convertido para a Igreja Ortodoxa Sirian (F-SO); dois fiéis nascidos na Igreja Católica Ucraniana (F-UC1 e F-UC2); e um fiel convertido para a Igreja Católica Melquita (F-MK). O diálogo nos depoimentos irá pautar o estudo.

Identificados os fiéis, torna-se necessário fazer alguns apontamentos acerca das origens desses indivíduos. F-SO apresenta-se como brasileiro: “Eu não sou de origem síria. Eu sou brasileiro mesmo, brasileiro puro, arretado.”166 Este trecho do depoimento do fiel remete à distinção muitas vezes feita pelos membros do clero entre os fiéis brasileiros e os

originários. A afirmação de F-SO denota que ele percebe esse tipo de distinção no interior da

Igreja. Posteriormente, no seu depoimento, o fiel apresenta as questões que o fizeram aproximar-se da Igreja Ortodoxa Sirian:

Foi o seguinte: eu vim da Igreja Católica, entretanto, lá na Igreja Católica eu sempre aprendi desde pequeno que padre não pode casar. De repente eu vi o padre lá... Quem que é aquele lá? Aquele é o filho do padre. Mas pô, padre não pode casar! Que história do filho do padre... Aí eu fui verificar que história é essa. 167

F-SO era membro da Igreja Católica Latina. O contato com o cristianismo oriental deu-se pelo conhecimento das diferenças entre certos preceitos latinos e orientais. Talvez essa situação sugira o “peso” da Igreja Latina na cidade e no país, já que há um desconhecimento de outras vertentes do cristianismo (salvo a vertente protestante, amplamente divulgada no país). Esse certo ineditismo das Igrejas Orientais, para muitos fiéis, torna-se elemento favorável à conversão:

Aí comecei a conversar e tudo mais, e descobri que é uma Igreja Cristã onde o padre pode casar. Assim como também depois eu verifiquei que os Maronitas também podem casar. Eu não sabia desse detalhe. Aí eu me interessei, fui conversando e eu frequento a Igreja aqui. O gozado é que todas as simbologias são as mesmas, de Jesus Cristo, tudo igual, são respeitosos, é uma maravilha.168

Em contato com a Igreja Sirian, F-SO conheceu o cristianismo oriental. Parece que a questão do casamento dos sacerdotes foi algo fundamental para a empatia desse fiel com sua Igreja. F-SO também afirma que as simbologias da Igreja Latina são muito próximas daquelas da Igreja Sirian, o que para ele é uma maravilha. Conforme indica o fiel, há uma relação

167 Depoimento de fiel da Igreja Ortodoxa Sirian da cidade de São Paulo, em entrevista concedida ao autor em 30/1/2011.

168 Depoimento de fiel da Igreja Ortodoxa Sirian da cidade de São Paulo, em entrevista concedida ao autor em 30/1/2011.

profunda entre sua opção pela Igreja Sirian e a questão do casamento dos padres, bem como a proximidade entre os ritos latinos e da Igreja Sirian.

Outro fiel convertido entrevistado foi F-MK. A trajetória desse fiel da Igreja Católica Melquita no que se refere à conversão mostra certa similaridade com a experiência de F-SO:

No meu caso faz mais ou menos dez, onze anos que eu participo da Igreja Greco-Melquita. No momento eu participava da Igreja Católica de Rito Latino, depois, por problemas pessoais, questões pessoais, eu resolvi mudar de Rito na medida que eu fui conhecendo a Igreja Oriental. Eu conhecia as Igrejas chamadas Ortodoxas, mas desconhecia um pouco a existência de católicos de Rito Oriental, como Melquitas, Maronitas, Ucranianos, enfim... Armênios.169

As questões que fizeram F-MK aproximar-se da Igreja Melquita parecem ser bem íntimas, uma vez que ele procura preservá-las e não identificá-las. F-MK era membro da Igreja Católica Latina e seu conhecimento acerca do cristianismo oriental se restringia às Igrejas Ortodoxas. Ele possuía pouco conhecimento das Igrejas Católicas Orientais. Isso pode denotar, como o próprio F-MK sugeriu anteriormente (ver capítulo 3), a dificuldade que as Igrejas Católicas Orientais encontram na divulgação de sua fé e cultura. A Igreja Católica Latina parece impor-se na cidade como única vertente do catolicismo romano.

Diferentemente de F-SO, que adentrou o cristianismo oriental por intermédio de uma Igreja Ortodoxa, F-MK optou por uma Igreja Católica Oriental:

Então, na medida em que eu fui descobrindo esse mundo, essa tradição, digamos assim, esse cristianismo oriental, isso foi me

ajudando por vários motivos no meu processo pessoal humano, enfim, descoberta de Deus, e me ajudou muito. E aí eu fui participando no primeiro momento, uma coisa muito prática, ou seja, o fato de simplesmente ir na missa, que é a Santa Divina Liturgia, como os orientais chamam, e na medida que eu fui participando, fui conhecendo pessoas, conhecendo a tradição oriental cristã, fui estudando cada vez mais isso e me aprofundando e me encantando, até que eu decidi mudar de Rito pedindo autorização etc.170

Conforme se depreende do depoimento, F-MK parece tocado profundamente pelo cristianismo oriental, ficou encantado com esse contato. A conversão do fiel sugere algo mais oficioso: F-MK pediu a autorização das autoridades eclesiásticas para que pudesse mudar de Rito. Diferentemente do que ocorreu com F-SO, que passou a frequentar sua Igreja de modo informal.

As migrações entre Igrejas permitem vislumbrar que, por vezes, o indivíduo vê sua fé como um projeto pessoal, uma vez que antigas instituições que buscam abarcar a totalidade estão se fragmentando. Mudar de fé, muitas vezes, significa tentar reconstruir, individualmente, recuperar essa antiga vivência coletiva171. Aparentemente, existe uma liberdade maior nas relações dos fiéis cristãos orientais do que nas dos membros do clero. Estes estão, de certa forma, atados a uma necessidade de suas Igrejas. No entanto, há questões específicas desse cristianismo oriental:

Essa inserção, essa inclusão, eu acho que em alguns lugares é um pouquinho delicado, porque são Igrejas muito ligadas à cultura. Por outro lado, aqueles que resolvem participar, você tem que ter ciência

170 Depoimento de fiel da Igreja Católica Melquita da cidade de São Paulo, em entrevista concedida ao autor em 28/3/2011.

171 MONTES, Maria Lucia. As Figuras do Sagrado: entre o público e o privado. In: SCHWARCZ, Lilia Moritz (Org.). História da Vida Privada no Brasil. Vol.4: Contrastes da intimidade contemporânea. São Paulo: Cia. das Letras, 2000. p.141-142.

também de que você vai celebrar uma missa que é greco-árabe, e aí as pessoas não são obrigadas a mudar a língua por causa de você. Então isso para mim foi muito bom, porque fez com que eu estudasse mais grego e mais árabe.172

O fiel aponta para o fato de que a inserção no cristianismo melquita perpassa a incorporação de certas características, o entendimento de que existe uma relação entre o cristianismo praticado e uma cultura greco-árabe. No entanto, F-MK parece satisfeito com esse processo de inclusão na sua vivência, pois teve mais contato com o grego e o árabe.

Outro tipo de experiência que pode ser contemplada dentro do cristianismo paulistano é a dos fiéis nascidos na Igreja. Estes partilham com o clero a origem comum. Estão associados àquelas imigrações que trouxeram essas Igrejas para a cidade. Muitas vezes, são assíduos frequentadores dos templos e tomam parte na Divina Liturgia, como é o caso de F-AO:

Eu sou um fiel, frequento desde criança, fui batizado nessa Igreja, tenho muito orgulho dela, por ela ser a Igreja mais antiga que abraçou o cristianismo no mundo, a Igreja Armênia. Eu tenho orgulho de fazer parte e cantar no coral dessa Igreja.173

Esse fiel parece reproduzir elementos da construção da memória do cristianismo armênio, como a referência ao fato de a Armênia ter sido a primeira região a aceitar o cristianismo como religião oficial174. Além disso, F-AO evidencia o orgulho que possui por

172 Depoimento de fiel da Igreja Católica Melquita da cidade de São Paulo, em entrevista concedida ao autor em 28/3/2011.

173 Depoimento de fiel da Igreja Apostólica Armênia da cidade de São Paulo, em entrevista concedida ao autor em 13/3/2011.

integrar o coral da Igreja Apostólica Armênia. Como já mencionado175, o coro promove a relação entre os dois lados do Iconostasis. Participar do coro faz com que F-AO esteja numa situação semelhante à do membro do clero. Cantar no coro significa conhecer o Rito, significa conhecer a língua sagrada.

Todavia, F-AO é um fiel, seu lugar metafórico é a nave, é a contingência. Mas ele mantém o orgulho às tradições supostamente necessárias à sua Igreja. F-AO, como os demais fiéis, estão numa região de hibridismo, de múltiplas possibilidades. Não há na figura do fiel uma sobreposição entre sua fé e suas aspirações e a fé e as aspirações do membro do clero. Ocorre com o fiel um processo de apropriação do discurso e da fé oriental, que se incorporaram como uma liga metálica176 na sua experiência. Não há pressupostos.

Os fiéis entrevistados da Igreja Católica Ucraniana são indivíduos associados aos grupos imigrantes estabelecidos na Vila Prudente e no município de São Caetano do Sul. Assim como F-AO, são membros de sua Igreja desde o nascimento. Ambos os fiéis são membros da associação ucraniana de São Caetano do Sul.

Bom, isto já não é do meu tempo. Mas a gente sabe um pouco da história que os velhos contavam pra gente e fotos antigas também que a gente vê e pergunta, e gosta. E então aí em 60, 61, muitos desses imigrantes reemigraram para os Estados Unidos e para o Canadá. Aí aqui caiu o número de ucranianos, por uns 40% só do que era antes. E esse pessoal que foi pra lá, muitos eram compadres. Os compadres ficaram aqui e tudo. [...] A Sociedade nossa é de 69. E estamos firmes aí até hoje, tanto a Sociedade quanto a Igreja. Infelizmente hoje em

de uma memória oficial desse grupo. MAGLIORINO, Nicola. (Re)Constructing Armenia in Lebanon and

Syria: Ethno-Cultural Diversity and the State in the Aftermath of a Refugee Crisis. Nova York: Berghahn

Books, 2008. p.8-9. 175 Ver Capítulo 2.

176 CHARTIER, Roger. A História Cultural: Entre Práticas e Representações. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1990. p.56-57.

dia... Há uns seis anos atrás ainda tinha bastante desses velhos, hoje em dia a maioria foi embora.177

Por sua proximidade com a comunidade por meio da associação, F-UC1 conhece bem a trajetória dos imigrantes na cidade, mesmo sendo de uma geração nascida no Brasil. Ele relembra o fato de que muitos ucranianos vindos após a Segunda Guerra Mundial178 reemigraram para a América do Norte, o que causou uma diminuição no número de ucranianos na cidade de São Paulo. F-UC1 ressente-se ainda do falecimento de antigos membros da comunidade. Ambos os fiéis da Igreja Católica Ucraniana relembram o estabelecimento da associação:

E que na Segunda Guerra foi proibido. O governo brasileiro também proibiu de ter organizações estrangeiras aqui no país. Quem conseguiu a licença para criar essa organização, que é a mesma aqui hoje, porque teve três antes dessa, que era desses primeiros imigrantes, tudo, que se reuniam na casa deles, tal... E na Segunda Guerra, quem conseguiu a licença do presidente Eurico Gaspar Dutra foi o padre Youssef Skursky, porque, se não me engano, a sogra desse presidente, ela era de origem eslava, também ortodoxa. E o padre Skursky foi lá na orelhinha e conseguiu uma... (F-UC1)

Sendo o primeiro pároco da comunidade ucraniana. O primeiro pároco.179 (F-UC2)

Para os entrevistados, a construção da associação perpassa o entendimento de sua comunidade e de sua fé. O padre Skursky parece responsável pela sustentação dessa

177 Depoimento de fiel da Igreja Católica Ucraniana da cidade de São Paulo, em entrevista concedida ao autor em 21/8/2011.

178 Ver Capítulo 3.

comunidade na cidade de São Paulo. Ocorre, assim, uma relação entre a religião e a manutenção da comunidade.

Isso sugere que não necessariamente há uma dicotomia entre membro do clero e fiel. Aqui há uma apropriação do discurso, inclusive invocando a própria prerrogativa do membro do clero como guardião da comunidade. Ela ocorre à maneira do fiel, como integrante do cristianismo oriental paulistano.