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Olhando para trás 25 anos, recordando as ideias, os sonhos e o caminho feito, sinto-me orgulhosa. Grande parte do que nos propúnhamos construir está de pé e muito mais coisas que não podíamos sequer imaginar surgiram.

Em 1988, optou-se por criar uma universidade que cobrisse as várias áreas do saber e não um instituto universitário, de âmbito de atuação limitado a uma ou várias áreas do saber, que desenvolvessem apenas trabalhos de investigação nesse âmbito e que viessem a lecionar apenas pós-graduação. Assim, desde logo, foram acrescentados à dificuldade de criar e pôr a funcionar uma Universidade a gestão do conflito de interesses que resultaria de terminar o trabalho, muito útil e relevante, das Extensões da Universidade de Lisboa e a organização da transição de Instituições de ensino pós-universitário, sem doutorados nos seus quadros docentes, existentes na Região Autónoma da Madeira.

Pensar uma Universidade – por definição, como as demais, universal, mas limi- tada a uma ilha pequena e condicionada pela existência de colaborações e práticas institucionalizadas que teriam de mudar para poder ser criada – era uma tarefa complexa:

−Uma universidade tem de ser um local de excelência de formação de recursos altamente qualificados. A nossa, funcionando num território isolado geogra- ficamente e estando a iniciar a sua atividade, teria mais dificuldade de atrair docentes e alunos de fora que facilitassem, pela troca de outras experiências de contextos de vida, essa excelência. Na região não havia doutorados que

Ana Isabel Portugal

Primeira Administradora da Universidade da Madeira

permitissem um arranque dos cursos com garantias de qualidade. Os alunos que podiam, pela sua situação económica, preferiam matricular-se em Universidades acreditadas fora da Madeira. Dos outros, os que eram alunos distintos, saíam porque conseguiam bolsas de estudo.

−A universidade é a instituição responsável pela formação e qualificação dos futuros profissionais com intervenção nas áreas técnicas, científicas culturais e artísticas essenciais ao desenvolvimento da Região. Como definir a sua estratégia para os recém-formados se afirmarem na realidade de uma região que em geral não valorizava o conhecimento científico? Como promover a articulação entre a criação do saber e a sua concretização numa região pequena, sem indústria e culturalmente pouco virada para o exterior?

−Pelo menos na fase inicial, os seus estudantes seriam maioritariamente de estratos sociais com dificuldades económicas, como tal, seria grave defraudar as expectativas deles e das suas famílias, nomeadamente na obtenção de um emprego imediato no fim do curso. Esta situação, na minha opinião, era tanto mais difícil quanto acreditava que a universidade não podia formar para o emprego existente, mas sim para que os seus alunos fossem capazes de concretizar, em iniciativas de desenvolvimento, com o que tinham aprendido. Caso contrário, rapidamente um qualquer curso forneceria nos três primeiros anos de fim de licenciatura o número suficiente de técnicos para preencher os postos de trabalho existentes na região e os alunos, a quem não fosse dada a hipótese de estudarem o que pretendiam localmente, iriam com certeza procurar outras universidades.

Tínhamos, pois, a certeza que nunca iríamos exceder os 3000 alunos e a nossa maior dificuldade seria justificar e encontrar um corpo docente com o tamanho que permitisse a criação de massa crítica nas áreas científicas muito diferentes que nos propúnhamos lecionar. Não tínhamos a sorte do Minho e de Aveiro que se criaram absorvendo os docentes regressados das Universidades de Luanda e de Lourenço Marques e que optaram por não ficar depois da descolonização. Tivemos, pois, de apostar fortemente no doutoramento de assistentes locais por um número dimi-

nuto de docentes doutorados que, por razões muito diferentes, quiseram vir para a Madeira. A missão de difusão do saber teria de ter uma estratégia que atenuasse estas dificuldades. Em paralelo com o ensino, a investigação, o acrescentamento do saber, outro dos pilares de uma universidade era ainda um desafio maior. Faz-se essencialmente apoiada em cursos de mestrados e doutoramento e em doutorados trabalhando em grupos de investigação que requerem condições de apoio ao seu trabalho e de infraestruturas completamente inexistentes no início. Note-se que não existiam sequer infraestruturas computacionais.

A valorização e a acreditação dos cursos dependiam grandemente do trabalho de investigação que a universidade fosse capaz de realizar. Igualmente serviria para obter financiamento e ligações a outras Instituições congéneres que, nesta fase, nos poderiam auxiliar.

Pensávamos, ainda, que a prestação de serviços à comunidade, a terceira missão da universidade, seria baseada no trabalho destes grupos. Sabíamos que – embora fundamental para a nossa inserção na comunidade – seria muito difícil de ser orga- nizada com eficiência nesta fase inicial.

A este cenário de partida tínhamos de acrescentar os custos da ultraperiferia e a inexistência de serviços regionais a desenvolver investigação que pudesse ser valori- zada e financiada pelas fontes de financiamento da investigação científica nacionais ou internacionais. Acrescia ainda que alguns grupos de trabalho de desenvolvimento experimental que existiam nos laboratórios públicos olhavam para a Universidade como um concorrente e não se disponibilizavam para trabalho conjunto.

Foi neste cenário que se iniciou a fase de instalação da Universidade.

A estratégia definida assentou no seguinte: no pressuposto que nenhuma universi- dade deve orientar exclusivamente o seu desenvolvimento na perspetiva da resposta ao emprego disponível; no entanto, esta preocupação era um dos requisitos que nos orientava. A Região necessitava de docentes licenciados nas áreas de Línguas e Litera- turas, Matemática, Física, Química, Biologia e Geologia. Foram criados cursos nessas áreas, porque a sua existência ia permitir dar essa resposta e criar localmente um corpo docente doutorado que fosse o embrião do desenvolvimento da Universidade. Também poderíamos contar – como contámos – com a colaboração de docentes das

Extensões da Universidade de Lisboa que se transferiram para a Madeira.

Não existia, nem se considerava a possibilidade de existência na Região de indús- trias, uma vez que o mercado regional não tinha economia de escala que as pudesse suportar e a condição de ilha tornava a exportação pouco competitiva. Esta cons- tatação levou a que se investisse na área da computação e engenharia informática, porque a existência da zona franca potenciava a exportação de produtos imateriais que não tinham as condicionantes de transporte e podiam utilizar o ótimo sistema de telecomunicações existente. Como localmente não havia doutorados nessa área e os escassos existentes no País não estavam interessados em fixarem-se na Região onde os salários não eram comparáveis com os que lá vigoravam, optou-se pela formação pós- graduada com um curso de mestrado em Engenharia Eletrónica e de Computadores, organizado com a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), e sua rede de Instituições de colaboração Europeia. Posteriormente, e uma vez que os dois anos do curso de Engenharias são essencialmente Matemática e Física, podiam ser ministrados pelos docentes que lecionavam as licenciaturas das outras áreas das chamadas Ciências Básicas.

Mais duas áreas foram consideradas passíveis de se desenvolveram localmente: a Motricidade Humana e a Música. Estas seriam o primeiro passo para um agrupa- mento que poderia incluir a Fisioterapia e a Dança. Na lógica deste agrupamento, estava a forte tradição artística existente na Região e na hipótese de, devido ao clima ameno, poder ter viabilidade o desenvolvimento de Turismo de saúde e de entrete- nimento. O curso de Motricidade Humana foi criado, mas não foi dado seguimento aos restantes.

Em relação à investigação, sabíamos que era necessário uma investigação básica ou também chamada de fundamental, virada à produção do conhecimento e de suporte à investigação aplicada, esta vocacionada à resolução de problemas do mundo real com valor no mercado. Sabíamos que uma estava ligada à outra e teriam de existir esforços na implementação das duas para podermos ter eficiência. Também neste assunto havia que conseguir passar a ideia que a investigação fundamental não é um exercício inútil de mero gozo pessoal de pessoas esquisitas que o praticam.

Considerámos, desde o princípio, que tinham de ser incentivadas. Tivemos a sorte

de, por circunstâncias da vida, termos sido procurados, entre outros, pelo Professor Doutor Ludwig Streit que aqui fundou o Centro de Ciências Matemáticas e canalizou para a Universidade da Madeira muitas e profícuas colaborações. O trabalho de doutoramento dos vários docentes – acreditávamos – construiria a base de investi- gação que todas as universidades têm de desenvolver.

Teríamos ainda de dar corpo à instituição pela aprovação de um estatuto. Este foi o trabalho inicial em que participei como membro das duas primeiras comissões instaladoras.

Hoje a Universidade tem duzentos e vinte docentes, dos quais apenas quinze ainda não são doutorados, embora estejam muito perto disso. Cobre áreas do conhecimento que vão das Ciências Exatas, às Engenharias, às Artes e Humanidades. Leciona dezoito cursos do primeiro ciclo, dezoito do segundo ciclo e seis de doutoramento. Fornece dois diplomas de estudos avançados, três pós-graduações e nove cursos de especialização tecnológica. Oferece ainda cursos livres. Diria que é um esforço enorme pela dispersão das áreas que cobre.

Tem em funcionamento dez unidades de investigação com vinte e cinco projetos de investigação em curso. Os seus docentes e alunos do 3.º ciclo fazem parte das redes nacionais e internacionais da investigação científica. Tem um Instituto de Investi- gação criado com o Tecnopolo Madeira e a Carnegie Mellon University. Este instituto veio consolidar a internacionalização necessária que esta Universidade tem de fazer, na minha opinião, para sobreviver, crescendo em qualidade e eficácia nesta conjun- tura difícil. Note-se que este instituto focou o seu trabalho inteligentemente numa área do imaterial, a Ciência da Computação, mas não descurando a contribuição necessária da Psicologia e do Design. São instituições como esta que juntam várias áreas do saber que considero serem as mais adequadas, porque mais ricas pela sua aproximação global para dar resposta aos problemas do mundo real.

Fez a transição para Bolonha, mais ou menos pacificamente. Consagrou a sua abertura à Comunidade onde foi criada, aprovando um novo estatuto que instituiu um Conselho Geral com responsabilidades importantes na definição da estratégia de desenvolvimento da Universidade e no controle da sua implementação onde incluiu elementos da sociedade madeirense que não pertencem à Universidade.

Da colaboração com o CEIM já existem Startups de alunos a funcionar e a gerar lucros.

Teve um ciclo imprescindível de criação de organização interna e escrita de regu- lamentos e montagem de sistemas automatizados de controle que, na minha opinião, aliás como acontece sempre, agora tem de ser adaptados na sua aplicação. Este é um esforço importante para a ordem e, principalmente, a burocracia necessárias não afogarem o trabalho criativo que a docência e a investigação têm de fazer.

Criou condições para um novo paradigma de vivência da Universidade, para muitos dos estudantes e, na minha opinião, alguns docentes. Refiro-me à abordagem cultural e de intervenção na discussão e crítica dos problemas do mundo de hoje, onde se incluem obviamente os da Região. Acho que esta preocupação está dramaticamente afastada das suas preocupações. Atrevo-me até a dizer que, quer a implementação, quer a procura das disciplinas de educação geral, muito o refletem.

Nestas condições incluo o incentivo à AAUma, à Pastoral Universitária, ao Club Rotaract e aos grupos de Tuna e de Fados. Sendo que as etapas ainda mais importantes para a implementação desta nova vivência foram a criação do Conselho Cultural, igualmente com membros da sociedade madeirense não pertencentes à Universidade, e a inclusão nos estatutos da Universidade, na sua missão, da crítica e difusão da cultura e da formação cultural, a par com a formação científica, artística, técnica e profissional.

Fazer com que a Universidade seja um lugar onde, além do conhecimento, se procura sabedoria, se promove a “curiosidade inútil”, o desenvolvimento global de cada um e a sua inserção na sociedade, o seu sentido crítico informado e reformador, é o que considero o desafio permanente que temos nesta sua história sem princípio, porque está sempre a começar, e sem fim à vista, porque terá inúmeros caminhos a trilhar.

Como disse no início deste trabalho: olhando para trás 25 anos, recordando as ideias, os sonhos e o caminho feito, sinto-me orgulhosa de ser docente da Universi- dade da Madeira.

Miguel Ângelo A . Pinheiro de Carvalho Centro de Ciências da Vida da Universidade da Madeira Banco de Germoplasma ISOPlexis – Germobanco, Universidade da Madeira, Campus da Penteada, 9050-290 Funchal, Portugal; Grupo de Recursos Genéticos e Marcadores Funcionais – Instituto de Ciências Agrárias e Ambientais, Universidade de Évora, Campus da Mitra, 7006-554 Évora .