Entrei como assistente convidada na Universidade da Madeira no dia 20 de dezembro de 1989. Iniciei a minha carreira de docente universitária aos vinte e dois anos no Departamento de Matemática do Instituto Superior de Agronomia em Lisboa e, seis anos depois, vim para a Madeira para o Centro de Apoio da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, onde já se encontrava a Lurdes Cunha e Silva a dar aulas no Curso de Biologia.
Nesta altura, comecei a aperceber-me de uma discussão sobre a criação de uma Universidade na Madeira. Diversas opiniões, nos órgãos de comunicação social, mostravam que existiam vozes absolutamente contra (algumas que até fazem parte, atualmente, dos quadros desta Universidade!) e outras opiniões eram fortemente a favor da instalação de uma Universidade na Madeira.
O modo de funcionamento dos cursos nos Centros de Apoio das Faculdades de Ciências e de Letras da Universidade de Lisboa, que recorriam aos docentes destas Faculdades para a lecionação da quase totalidade das disciplinas, permitiu admitir que era possível arrancar com o projeto, apesar da dificuldade em contratar pessoal docente qualificado para as áreas científicas dos diversos cursos. E a Universidade da Madeira abriu as suas portas a 1 de outubro de 1988 nas instalações do Colégio dos Jesuítas, onde já funcionava a Escola Superior de Educação. Eu e a Lurdes Cunha e Silva assinámos o nosso contrato e sentimo-nos um pouco perdidas naquela recém- criada instituição. A partir daquele momento éramos docentes da Universidade da Madeira, mas éramos as únicas e o nosso gabinete continuava a ser nas instalações do Centro de Apoio da Faculdade de Ciências, na Rua Bela de Santiago. Os outros docentes, que naquele momento já estavam instalados no edifício do Colégio dos Jesuítas, eram da Escola Superior de Educação. Mais tarde, vieram a ser integrados
Rita Vasconcelos
Centro de Ciências Exatas e da Engenharia da Universidade da Madeira
na Universidade da Madeira com data do início da Universidade.
O primeiro curso a funcionar e no qual dei aulas de Estatística, foi o de Educação Física. As aulas eram dadas numa ótima sala que a Escola Secundária Gonçalves Zarco, nos Barreiros, tinha cedido à Universidade da Madeira para o efeito.
Algum tempo depois, começaram a ser lecionadas aulas no Edifício do Colégio dos Jesuítas e eu e a Lurdes Cunha e Silva passámos para um gabinete neste edifício, juntamente com o Casimiro Silva, que era docente na Escola Jaime Moniz e que estava destacado no Centro de Apoio, e com a Otília Pimenta de França, que também lecionava no curso de Biologia no Centro de Apoio. Entretanto foram contratados novos docentes para as áreas de Química, de Matemática, de Biologia, de Física, da Engenharia de Telecomunicações e Redes, da Engenharia Informática, de Letras e de Educação Física. Nas catacumbas do edifício, como nós chamávamos ao “comboio” de três salas todas seguidas e em que para chegar à última tínhamos de atravessar as duas primeiras, situadas entre o piso térreo e o piso principal, ficavam os gabinetes de todos os docentes contratados pela Universidade da Madeira. A exceção era para os docentes das áreas das Ciências da Educação e da Educação Física que já vinham da Escola Superior de Educação, cujos gabinetes se mantinham no piso principal. Poste- riormente, ganhámos mais um gabinete, também nas catacumbas, mas separado dos restantes. Aí ficaram os docentes da área de Física. Dávamo-nos bem, a recordação que guardo era de uma alegria quase permanente que resistia às más instalações que tínhamos, às passagens de umas Comissões Instaladoras para outras, ao esforço letivo absolutamente necessário do início dos cursos. Após este esforço inicial, começou a desenhar-se a carreira académica de muitos de nós, tendo sido muito importante a vinda do Professor Streit para a Universidade. Muito importante foi, também, o apoio de alguns docentes das Faculdades de Ciências e de Letras que ainda colabo- ravam com a Universidade da Madeira, com especial destaque para o Professor Dinis Pestana. Mestrados e doutoramentos começaram a ganhar forma.
Lembro-me que, quando chovia, a instalação elétrica rebentava e ficávamos sem luz. Nas catacumbas, sem luz, era impossível trabalhar. Não fora perdermos o trabalho recente que estávamos a fazer nos computadores, a situação era hilariante. Por várias vezes, enquanto preparava o meu doutoramento, desesperei. A chuva passava para as catacumbas e tivemos de mudar uma secretária de sítio, porque o
chão já estava muito inclinado e seguramente iria ceder e o docente continuaria o seu trabalho no piso térreo. O teto falso também teve de ser substituído, pois fazia uma “barriga” de água enorme justamente por cima da minha secretária. Por várias vezes considerámos que o melhor era eu trabalhar de guarda-chuva aberto!
O primeiro doutoramento a realizar-se na Universidade da Madeira foi o meu, a 15 de dezembro de 1994. O anfiteatro que hoje em dia existe no Colégio dos Jesuítas, começou por ser um ginásio que foi transformado, passando a sala de aulas e, poste- riormente, a sala de Atos.
Deixámos de ter Comissões Instaladoras e passámos a ter Reitor! Foi um grande passo na nossa afirmação como Universidade, foi a nossa independência!
A seguir ao Doutoramento, assumi a Presidência do Departamento de Matemá- tica durante cerca de seis anos. Foi neste período que nos mudámos para as “fantás- ticas” instalações do edifício da Penteada. Separámo-nos, passando a ficar em pisos diferentes, consoante o Departamento a que pertencíamos. As condições de trabalho passaram a ser muito boas. As salas de aula são excelentes, é um edifício com muita luz.
Os nossos cursos iam-se afirmando no mercado de trabalho regional, fruto da promoção que fizemos dos mesmos e da dedicação que pusemos na preparação dos nossos alunos. Os cursos foram evoluindo, os centros de investigação foram surgindo (entre eles, o Centro de Ciências Matemáticas, com docentes da área da Matemática da área da Física, obteve a classificação de excelente; o Madeira Interactive Techno- logy Institute com igual avaliação), a Associação de Alunos começou a fazer-se ouvir, temos uma Pastoral Universitária, um Conselho da Cultura. A nossa Residência Universitária tem instalações muito boas. A cantina da Universidade é moderna e agradável. A Universidade comprou a Quinta de São Roque; é um espaço muito bom para os alunos e docentes praticarem desporto ou usufruírem, simplesmente, de um espaço verde.
Mesmo antes da estrutura atual das universidades, já o Departamento de Mate- mática e Engenharias tinha um Conselho Consultivo do qual faziam parte entidades externas à Universidade.