Cada vez mais se estabelecem diversas discussões sobre aprendizagem individual e, dentre estas, poucas enfocando aprendizagem do grupo ou de equipes.
Kim (1993) apresenta um modelo que procura explicar a conexão entre a aprendizagem individual e a aprendizagem organizacional. Contudo, para compreender o modelo proposto, é necessário esclarecer o papel da memória e o conceito de modelos mentais. A memória está relacionada com a retenção de tudo que foi adquirido mediante a aprendizagem e o conceito de modelos mentais difere da tradicional noção de memória, porque os modelos mentais desempenham um papel ativo em tudo o que o indivíduo vê e faz. O modelo mental representa a visão de mundo de uma pessoa, é como uma lente através da qual as pessoas enxergam tudo que acontece à sua volta. Os modelos mentais contribuem para a atribuição de um significado para tudo que se vê e se faz, mas eles também podem restringir esse entendimento para aquilo que faz sentido acerca do modelo mental.
Em seu modelo Kim (1993) define que o ciclo de aprendizagem individual afeta a aprendizagem no nível organizacional por meio de sua influência sobre os modelos mentais compartilhados da organização. Uma organização pode aprender apenas por intermédio de seus membros, mas ela não é dependente de nenhum indivíduo específico. Os indivíduos de qualquer forma, podem aprender sem a influência da organização, e estão constantemente agindo e observando suas experiências, mas nem toda a aprendizagem individual tem conseqüências organizacionais. Se for analisado um grupo como uma miniorganização na qual os membros contribuem para os modelos mentais compartilhados, então o modelo pode representar a aprendizagem do grupo, bem como a aprendizagem organizacional. Desta forma, um grupo pode ser visto como uma agremiação de indivíduos com um conjunto próprio de modelos mentais compartilhados que, por sua vez, contribuem para a aprendizagem organizacional e a formação dos modelos mentais da organização. Isto é consistente com a noção de que os grupos são influenciados pela estrutura organizacional, pelos estilos de liderança e podem ser considerados como se fossem indivíduos expandidos. Kim (1993) justifica a ênfase nos modelos mentais pois acredita que a maioria do
conhecimento organizacional está nos modelos mentais dos indivíduos, ele exemplifica afirmando que é muito mais fácil reconstruir uma organização mantendo os indivíduos do que mantendo apenas os arquivos e os sistemas. Os indivíduos, com toda a experiência que têm sobre a organização, reconstruirão muito mais facilmente a organização que perdeu seus sistemas e arquivos do que novos indivíduos tentando entender o que representam os sistemas e arquivos de uma empresa que não conhecem.
A aprendizagem individual não necessariamente gera aprendizagem organizacional, sendo que, Allen1 (1998 apud CUNNINGHAM e ILES, 2001) argumenta que a aprendizagem da equipe poderia ser o principal fator para a aprendizagem organizacional..
A importância da aprendizagem individual para a aprendizagem organizacional é paradoxalmente óbvia e sutil; óbvia porque todas as organizações são compostas por pessoas; e sutil porque as organizações podem aprender independente de qualquer indivíduo específico mas não independente de todos os indivíduos. (KIM, 1993).
Maier, Prange, Von Rosenstiel (2001) descrevem algumas implicações que a aprendizagem em grupo pode trazer para a aprendizagem organizacional:
¾ As agremiações sociais possuem mais informações que os indivíduos; ¾ Grupos não podem usar todas as informações, igualmente;
¾ Existem diferenças entre pequenos grupos e organizações.
As organizações são estruturas sociais formadas por pessoas e grupos. Conforme definido por Guzzo e Shea (1992), um grupo é um sistema social que tem as seguintes propriedades: ele é percebido como uma entidade por seus membros e não-membros familiarizados com ele; seus membros têm um grau de interdependência; e existe uma diferenciação de papéis e deveres dentro do grupo. O significado que os grupos têm para a
organização tem crescido muito, pois o trabalho que era executado individualmente hoje é, com freqüência, realizado em grupos. Até mesmo decisões estratégicas têm sido desenvolvidas em equipes de gerentes (MAIER; PRANGE; VON ROSENSTIEL, 2001). Cada vez mais, os gerentes, individualmente, não têm todas as informações necessárias, ao invés disso, elas estão espalhadas pela organização, entre pessoas e grupos. A significância que o trabalho em grupo tem representado para a organização demonstra que a aquisição de conhecimento pelos indivíduos é indispensável, mas geralmente insuficiente para compor a aprendizagem organizacional.
Clark e Stephenson2 (1989, apud MAIER; PRANGE; VON ROSENSTIEL, 2001); Hatwick3 et al. (1982, apud MAIER; PRANGE; VON ROSENSTIEL, 2001) reconhecem que a capacidade de armazenar conhecimento para os grupos parece ser superior à capacidade individual. A superioridade que os grupos têm sobre os indivíduos pode ser também explicada pelas vantagens que o grupo tem no momento de acessar à informação. Os grupos podem contribuir para o desenvolvimento da habilidade de acessar informações de seus membros. Quando estão condensando e compartilhando informações, os membros do grupo são capazes de corrigirem uns aos outros (HINSZ, 1990). O grupo ainda se mostra superior pois, quando está compartilhando as informações isso permite que outros membros se lembrem de elementos relevantes com mais facilidade ou que tenham insights (MARTELL e BORG, 1993).
Analisando o aprendizado de equipes, Senge (1990) identificou três elementos essenciais:
¾ Um objetivo comum;
2 CLARK, N.K. E STEPHENSON, G.M. Group Remembering, In P.B. Paulus (Ed.), Psychology of Group Influence. Hillsdale, Nj: Lawrence Erlbaum, 1989, p. 357-91.
3 HARTWICK, J. SHEPPARD, B.H., e DAVIS, J.H. Group Remembering: Research and Implications, In GUZZO, R.A. (Ed.), Improving Group Decision Making in Organizations. New York: Academic Press, 1982, p. 41-72.
¾ Uma visão compartilhada;
¾ Um entendimento de como completar os esforços uns dos outros.
Baseado nesses elementos, Cunningham e Iles (2002) desenvolveram uma definição agregando idéias de melhoria contínua e o papel da gerência facilitando a aprendizagem. Os autores elencam que aprendizagem da equipe ocorre quando:
¾ A equipe entende suas metas, e está comprometida em alcançá-las; ¾ A aprendizagem individual é compartilhada e discutida dentro do grupo;
¾ O trabalho em grupo é visto como uma oportunidade para o grupo aprender em conjunto;
¾ O grupo expande seus horizontes para além das atividades do dia a dia, e existe questionamento sobre os processos numa contínua busca por melhorias sobre o que é feito e como é feito;
¾ A gerência facilita a aprendizagem da equipe em bases estruturadas.
Mesmo que se aceite as características individualistas que marcam a idéia da aprendizagem de adultos como um processo autodirecionado, a maior parte dessa aprendizagem depende e deriva de um contexto social particular e das experiências que este proporciona (MORAES; SILVA; CUNHA, 2004).
Para enfatizar a importância do grupo na aprendizagem Moraes, Silva e Cunha (2004) abordam a aprendizagem de adultos, ligando-a ao contexto organizacional e, para isso, referenciam Candy (1991) como base para argumentar que a aprendizagem refere-se à tentativa dos adultos de se apropriarem e utilizarem um corpo de conhecimentos já legitimados por um grupo social, envolvendo a aceitação de regras sociais que governam determinada área ou domínio de conhecimento. E, neste sentido, a natureza da aprendizagem
na fase adulta é dependente do contexto, ou seja, a maioria da aprendizagem de adultos ocorre em contextos sociais e deriva de pressões sociais de vários tipos.
Outros autores também abordam a relação entre aprendizagem e o contexto social. Por exemplo, Eisenhart (1995) esclarece que o processo de participação em atividades sociais conecta o indivíduo primeiramente ao relacionamento social e, como conseqüência, às habilidades e conhecimentos da perícia prática no interior desses relacionamentos. Com uma abordagem mais específica, Antonello e Ruas (2002) afirmam que, em ambientes de trabalho, a aprendizagem ocorre no interior de comunidades de prática, ou seja, nas agremiações informais definidas não apenas pelos seus membros, mas pela maneira compartilhada na qual eles fazem as coisas, interpretam as experiências e perpetuam uma prática.
Kim (1993) abordando o processo de aprendizagem do grupo enfatiza a importância do processo de alinhamento e compartilhamento dos modelos mentais individuais. No esforço em que os indivíduos fazem para alinhar, compartilhar e tornar os modelos mentais explícitos, Kim (1993) acredita que a aprendizagem individual pode dessa forma ser acelerada.
A próxima seção explora a aprendizagem individual, principalmente, sob a perspectiva social e da aprendizagem pela experiência.