3.4 Andre vedtak om tiltak etter kap. 4 i psykisk helsevernlova
3.4.3 Undersøking og behandling med legemiddel uten eige samtykke (§ 4-4)
Essas contradições incorporadas à estrutura e ao significado, e que serão expostas, especialmente a partir das análises da temática do banditismo e do regionalismo como permanências do arcaico no romance de Paulo Lins, estão na base da delimitação das literaturas periféricas, como a nossa, pois a dialética arcaico e moderno também é a matéria do conflito entre o localismo e cosmopolitismo. Nesse caso, segundo Antonio Candido, a dialética representa o processo de equilíbrio entre as duas tendências, local e cosmopolita, uma vez que
ele tem realmente consistido numa integração progressiva de experiência literária e espiritual, por meio da tensão entre o dado local (que se apresenta como substância da expressão) e os moldes herdados da tradição européia (que se apresentam como forma da expressão).70
Essa tensão tem sido vista como uma tensão entre modelos importados que se tentam traduzir a uma realidade que por vezes foge aos modelos propostos. No caso de CD, a dialética do arcaico e do moderno no romance, portanto, não aparece só na relação forma e matéria narrada, agora invertendo o contexto, pois a matéria aparentemente moderna e urgente se traduz em forma literária que encontra seus pares no romance regionalista ou na tradição do documental entre nós. Além disso, em muitos aspectos sociais internalizados pela obra, como a existência de uma lógica capitalista gerada pelo uso da força, fruto da ausência da lei e do contrato, comandados por garotos banguelas e analfabetos, tudo isso grita por uma voz que vem pelas mãos de autor da periferia, constituindo a só um tempo uma literatura da periferia numa literatura periférica. Tal situação gera outras questões, como a tensão produzida pela tentativa de adequação aos códigos simbólicos de legitimação literária que o autor revela concomitantemente aos limites de representação desse outro, de forma que a tipificação do outro de classe ali representado também reflete o resultado de uma parte do processo de acúmulo literário, cujo resultado vem pela revelação do elemento arcaico inevitável na adoção de modelos literários adequados a um tipo de matéria que não é a matéria por excelência da literatura urbana contemporânea, como no caso da forma do romance regionalista.
Dentro dessa perspectiva é preciso diferenciar ainda a idéia de uma literatura de periferia dentro da literatura periférica. O termo “literatura da periferia” é usado neste estudo diferenciando-se do termo literatura periférica, pois esta se estende a toda nossa literatura, já que subsidiária de uma forma literária de origem européia, em uma língua européia que, por isso, seria central, uma vez que nos serve de modelo. O termo, portanto, não deve ser visto como algo que torna a nossa literatura
necessariamente menor ou que não tenha produzido obras de grande qualidade estética, mas sem dúvida ela é periférica.
Por que o autor lança mão desses modelos arcaicos, que tecnicamente não correspondem a uma temática que urge por uma forma mais contemporânea ligada, por exemplo, a fragmentação do homem urbano? Esse indivíduo estaria de fato disponível com representação no romance da periferia? Se está, por que não se configura como matéria narrada? Seria essa recusa a permanência de uma certa hegemonia na representação do outro de classe e que, portanto, representa os limites da literatura e do mundo letrado em dar a ver este mesmo outro de classe? Vejamos se é possível encontrar algumas pedras do caminho analisando, no próximo capítulo, as faces do banditismo brasileiro.
DOS CANGACEIROS AOS BICHOS-SOLTOS: AS FACES DO BANDITISMO BRASILEIRO
Numa sociedade em que os homens vivem da subserviência, como escravos de máquinas de metal ou como peças moventes de maquinaria humana, o bandido vive e morre de cabeça erguida.71
(HOBSBAWN)
Banditismo por pura maldade Banditismo por necessidade Banditismo por uma questão de classe. 72
(CHICO SCIENCE)
Falar em banditismo social em pleno séc. XXI soa como temeridade, especialmente se lembrarmos que aquilo que se convencionou chamar de banditismo social pertence ao mundo camponês de períodos pré-industriais ou de localidades não urbanizadas ainda. Tanto que nosso caso de banditismo mais difundido, o cangaço, se dá no interior do Nordeste em fins do séc. XIX, estendendo-se até a primeira metade do séc. XX, mais precisamente 1940, quando morre o último grande cangaceiro, Corisco. Esse período coincide com nosso processo de industrialização e urbanização. Tais bandidos, portanto, estão distantes dos atuais narcotraficantes, situados em uma cidade internacional como o Rio de Janeiro.
Mas não se deve tomar o conceito integralmente, nem de forma irrestrita. Neste estudo, o que nos interessa é investigar aquilo que se perpetua da estrutura do banditismo social brasileiro na contemporaneidade, ou aquilo que faz dos bandidos “modernos” do mundo do tráfico internacional uma extensão urbana do bandido social do mundo rural, ressaltando todas as restrições que o termo “urbano” denota
71 Op. cit., p. 134
e, ainda, revelando uma das faces do não-contemporâneo em CD. Tal enfoque traz, da forma literária, a história captada em seus aspectos mais profundos, uma vez que é a referência literária que permite ligar pontos distantes e aparentemente desconexos: as representações do banditismo enraizadas na modernidade, apresentando os traços arcaicos dessa mesma modernidade.
Além disso, a trajetória literária dos bandidos sociais no Brasil também representa a trajetória do nosso complexo processo de formação. A existência e permanência desses grupos, em meio ao forte processo de urbanização (ainda que incompleta73) a partir da segunda metade do séc. XX, não tirou de circulação a representação dos personagens bandidos e a sobrevivência de sua imagem literária, representação mítica de força. Tal fator histórico, aparentemente desvinculado da nova narrativa74, pertencia ao campo da literatura oral, bem como de parte da literatura regionalista brasileira, vigorando até pouco tempo, mesmo quando essa realidade já se fazia distante e aparentemente perdida como matéria viva para uma literatura predominantemente urbana.
Mas de que trata essa categoria específica do bandido social e em que medida esse elemento pertencente ao mundo pré-industrial e não-urbanizado se instituiria como modelo de análise para uma situação supostamente distante dessa conceituação? Vejamos algumas ligações muito estreitas ancoradas na história brasileira, palco de autoritarismo e desigualdades sociais, que fazem do banditismo uma espécie de causalidade interna na literatura brasileira. A idéia de causalidade interna, desenvolvida na obra de Antonio Candido é
a capacidade de produzir obras de primeira ordem, influenciada, não por modelo estrangeiros imediatos, mas por exemplos nacionais anteriores. Isto significa o estabelecimento do que se poderia chamar um pouco
73 Consideremos o sentido de urbanização incompleta quando parte da população não pode usufruir os bens e serviços típicos de uma urbanização completa, uma vez que suas demandas não são atendidas no próprio espaço. O espaço não é auto-suficiente. Tal situação é característica dos países periféricos. Mas é no capítulo que trata do regionalismo que será aprofundada discussão sobre aspectos do espaço social.
74 O termo “nova narrativa” é usado por Antonio Candido para designar essa literatura recente (Em: A
mecanicamente de causalidade interna, que torna inclusive mais fecundos os empréstimos tomados às outras culturas. 75
Também como aspecto da causalidade interna se dá a temática recorrente. Nesse caso, o banditismo certamente constitui uma causalidade interna e aparece como matéria em uma série de obras que reproduzem aspectos da sociedade brasileira. Ambientados em regiões diferentes, tais aspectos revelam situações sociais que produzem esses bandos e perpetuam sua existência. Há mais em comum entre o romance contemporâneo de Paulo Lins e os jagunços de Euclides, ou os cangaceiros de Zé Lins do Rego, do que com boa parte de seus pares “temporais”, na literatura urbana recente. Vejamos o quadro de algumas dessas ligações.