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Talvez, uma das referências mais óbvias da relação ordem e desordem esteja na figura recorrente do representante da lei (basta lembrar a imagem do Major Vidigal de Memórias do Sargento de Milícias, de casaca e de ceroulas) ou mais diretamente do policial (samango, volante, soldado amarelo) como aquele que, menos do que representante da lei (ordem), é representante do poder, quase sempre privado, já que os limites entre público e privado não se fazem muito claros e são parte da dialética da ordem e da desordem. Daí a constante presença do policial, como uma das faces da dialética da ordem e da desordem na representação da tênue linha que separa policiais, agentes do Estado, e bandidos. Em parte, também em CD a ordem que se beneficia da desordem aparece tanto na figura dos agentes de repressão como na intrínseca relação entre estrutura marginalizada e base

econômica. Nesse entremeio, está a população favelada e sem voz, porque sem posse e sem lei.

A exemplo disso, comparando a matéria narrada por José Lins do Rego, em

Fogo Morto, à imagem construída daqueles que seriam os agentes da ordem, vemos

que, tanto no romance de Rego quanto em CD, a polícia representa menos uma força de proteção do que de repressão e/ou violência. Dessa forma, o personagem de Fogo

Morto, Mestre José Amaro (personagem que representa o trabalhador e também o

agregado de um velho engenho, mas alguém com brio e orgulho), acredita que a única grandeza no mundo era a “do homem que não temia o governo” e que “dava dor de cabeça nos chefes de polícia, que matava soldados, que furava cercos, que tinha o poder de adivinhar os perigos”.117 Em determinado momento, quem personifica essa imagem é o cangaceiro Antônio Silvino, que representa a força e a capacidade de revolta e a possibilidade de justiça.

O mestre estremeceu com a palavra do homem. O nome de Antônio Silvino exercia sobre ele um poder mágico. Era o seu vingador, a sua força indomável, acima de todos, fazendo medo aos grandes.118

Evidencia-se, no entanto, menos a força que o cangaceiro detém e mais o ambiente social que proporciona sua existência, pois Silvino exerce o papel de lei (de ordem, de justiça) onde ela não está disponível, sobretudo para os pobres, confirmando que é a própria lei (ou a ordem) que, na verdade, cria os bandidos. Assim, em CD, o poder de estabelecer a ordem também está explícito na imagem de “justiça” representada na ação dos bandidos.

No dia 27 de setembro, Miúdo e Pardalzinho ganharam a admiração dos moradores dos apartamentos pela festa realizada na praça. (...) / nos dias decorrentes, Miúdo e Pardalzinho tiveram a impressão de que todos os moradores os olhavam com gratidão pois não foram poucas as benfeitorias

117 REGO, José Lins do. Fogo Morto. Rio de Janeiro: José Olympio, 1993, pp.69-70. 118 Idem, p.49.

promovidas pela dupla: acabaram com os roubos, assaltos, os estupros na favela, e agora davam doce.” (CD II, p. 272).

Tais benfeitorias, porém, quando existem, pressupõem o silêncio dos moradores conquistado pelo medo. Ou seja, revelam os princípios autoritários e personalistas do controle exercido. Miúdo, por exemplo, comprova o caráter personalista das regras impostas, uma vez que passa a descumpri-las quando não mais deseja fazê-lo e isso acaba gerando a guerra entre as quadrilhas.

Graciliano Ramos também aponta para o problema da dinâmica autoritária e vinculada à desordem representada na figura dos agentes do poder, como no caso do personagem Fabiano de Vidas Secas que, mesmo depois de ter sofrido com os desmandos do soldado amarelo, que acaba por levá-lo à prisão, não consegue se vingar do representante da ordem. No capítulo “O soldado amarelo”, numa situação sem testemunhas e evidenciando a enorme diferença física entre os dois indivíduos – situação obviamente mais propícia a Fabiano –, o personagem prefere não reagir, ainda que pudesse matar o tal soldado. Mas, como na persona do soldado amarelo está a imagem “perigosa” do Estado, pairando sobre toda a situação que ali se arma, Fabiano aquieta-se, afinal “governo e governo”119. Assim, para que o fim do soldado pudesse representar o fim de um problema maior, era preciso matar o “soldado amarelo e os que mandam nele”120

É importante notar que o que deveria representar a ordem, na mão de uma

persona, mostra-se, na verdade, como a representação apenas do poder do indivíduo

que a desordem ratifica; uma espécie de verticalização do poder, como veremos mais adiante. Isso pressupõe uma desordem estrutural e uma das faces de uma sociedade autoritária como a nossa. Também em CD, um dos personagens, que tenta matar um ex-policial, afirma que

119 RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. Rio, São Paulo: Record, 1998, p.107. 120 Idem, p.111.

ex-policial era muito pior do que bandido, pois seus antigos amigos de farda sempre lhe dariam cobertura nas broncas em que se metesse. Não era bom ficar criando cobras para depois se picado. Resolveu eliminar o atravessador. (CDII, p. 84)

Ora, isso seria o Fabiano de Vidas Secas, agora já na cidade, que mata o “soldado amarelo” ou faz conchavos com ele para sobreviver. Os descendentes dos retirantes instalados nas favelas sabem que o poder existe, sabem que não podem contra ele, mas agora encontram brechas para explodir sua revolta traduzida em violência. Entretanto, se agora parece ser possível matar o soldado amarelo, ainda está muito distante o dia em que será possível matar “todos os que mandam nele”. Os termos dessa dialética, em tempos de CD, se modernizaram, a ordem é uma nova ordem, mais fantasmática, mais poderosa que o soldado amarelo: a ordem do capital globalizado. Sendo assim, Cidade de Deus ainda é o arcaico “mundo coberto de penas”121.