Para Hall (2003a), o conceito de identidade ainda é pouco desenvolvido e compreendido pela ciência social contemporânea. Nesse sentido, torna-se impossível oferecer afirmações generalizadas e conclusivas ou fazer julgamentos seguros em torno desse conceito tão variável e problemático. O autor argumenta que as rápidas e profundas transformações ocorridas nas sociedades modernas vêm causando o deslocamento ou descentração do sujeito. As identidades nacionais foram uma vez centradas, coerentes e inteiras, mas que estão sendo agora deslocadas pelos processos de globalização (p. 50).
Nas formas contemporâneas de globalização, segundo Hall (2009), há dois processos em funcionamento de modo contraditório. Por um lado, existem as forças dominantes de
homogeneização cultural, como por exemplo, a imposição da cultura ocidental (mais especificamente as produções culturais estadunidenses) sobre todas as outras culturas do mundo. Mas bem junto a isso estão os processos que vagarosa e sutilmente estão descentrando os modelos ocidentais, levando a uma disseminação da diferença cultural em todo o globo (p. 44). Ao mesmo tempo em que vivenciamos um tipo de americanização da cultura global (o autor denomina esse processo de “Mcdonald-ização” ou “Nike-zação” de tudo), observamos numa metrópole multicultural como São Paulo, a explosão de ritmos musicais diversificados, grupos sociais heterogêneos e culinárias típicas de diferentes povos num mesmo espaço.
Quanto mais a vida social se torna mediada pelo mercado global de estilos, lugares e imagens pelas viagens internacionais, pelas imagens da mídia e pelos sistemas de comunicação globalmente interligados, mais as identidades se tornam desvinculadas – desalojadas – de tempos, lugares, histórias e tradições específicos e parecem “flutuar livremente”. Somos confrontados por uma gama de diferentes identidades (cada qual nos fazendo apelos, ou melhor, fazendo apelos a diferentes partes de nós), dentre as quais parece possível fazer uma escolha. Foi a difusão do consumismo, seja como realidade, seja como sonho, que contribuiu para esse efeito de “supermercado cultural”. (HALL, 2003a, p. 75).
Qual é a identidade cultural do/a morador/a da cidade de São Paulo? Será que alguém ousaria definir com convicção a identidade cultural do negro, do índio ou da mulher? O sujeito pós-moderno é composto por múltiplas identidades, cada vez mais fragmentadas e instáveis. Para Neira (2007, p. 109) esse sujeito ocupa variadas posições que se modificam ao longo de sua existência. As identidades não são nunca unificadas (HALL, 2003b, p. 108). Elas são construídas culturalmente e historicamente. Por isso, quando falamos que o brasileiro é apaixonado por futebol ou que a brasileira tem “samba no pé”, é necessário saber a que brasileiro ou brasileira se faz referência.
Segundo Silva (2003), a identidade está em estreita relação com a diferença. Identidade e diferença são interdependentes, são inseparáveis. É através da produção do sistema de diferenças e oposições que os grupos sociais são tornados “diferentes” (SILVA, 1996, p. 171). Isso significa, por exemplo, que só podemos afirmar o que é ser “homossexual”, ser “homem” ou ser “negro”, a partir do entendimento da diferença, da oposição, ou seja, o que é ser “heterossexual”, o que é ser “mulher” ou ser “branco”.
A identidade e a diferença são o resultado de um processo de produção simbólica e discursiva, não podendo ser compreendidas fora dos sistemas de significação nos quais adquirem sentido (SILVA, 2003). Na medida em que são definidas, em parte, por meio da
linguagem, a identidade e diferença são marcadas pela indeterminação e pela instabilidade (p. 80). Sendo marcada através da linguagem, a identidade, tal como a diferença, é uma relação social (p. 81). Elas são definidas nas relações com os outros. Porém, essas relações não acontecem harmoniosamente. Elas são construídas no interior do jogo do poder e da exclusão (HALL, 2003b, p. 110-1).
Na disputa pela identidade está envolvida uma disputa mais ampla por outros recursos simbólicos e materiais da sociedade. A afirmação da identidade e a enunciação da diferença traduzem o desejo dos diferentes grupos sociais, assimetricamente situados, de garantir o acesso privilegiado aos bens sociais. A identidade e a diferença estão, pois, em estreita conexão com relações de poder. O poder de definir a identidade e de marcar a diferença não pode ser separado das relações mais amplas de poder. (SILVA, 2003, p. 81).
Afirmar que a identidade e a diferença estão ligadas a sistemas de poder, implica questionar os sistemas de representação que lhes sustentam. Quem tem o poder de representar tem o poder de definir e determinar a identidade (p. 92). Assim, devemos sempre problematizar quem definiu determinada identidade como norma. Pressuposições tomadas como dadas em relação à natureza e à essência fixa das coisas estão imediatamente sujeitas a discussão (HALL, 1997).
Nessas disputas de poder, a cultura dominante tenta definir a cultura padrão, aquela que deve ser seguida pelos “bons” cidadãos. Geralmente as pessoas que não se enquadram nessa cultura, são vistas como “inferiores”, “diferentes”, os “outros”. Num mundo governado pela hegemonia cultural estadunidense, “étnica” é a música ou a comida dos outros países. É a sexualidade homossexual que é “sexualizada”, não a heterossexual (SILVA, 2003, p. 83).
Essa imposição cultural, entretanto, é desafiada constantemente pela heterogeneidade de hábitos e costumes das comunidades. Um termo utilizado para caracterizar essas culturas cada vez mais mistas e fragmentadas é “hibridismo” ou “hibridização”. García Canclini (2008, p. 19) entende por hibridização, processos socioculturais nos quais estruturas ou práticas discretas, que existiam de forma separada, se combinam para gerar novas estruturas, objetos e práticas. Segundo o autor, a hibridização ocorre às vezes de modo não planejado ou é resultado imprevisto de processos migratórios, turísticos e de intercâmbio econômico ou comunicacional, mas frequentemente surge da criatividade individual e coletiva.
Para exemplificarmos o conceito de hibridização, podemos imaginar uma sala de aula de determinada escola pública da cidade de São Paulo. Ela é invadida por diferentes grupos sociais e culturais que transformam o ambiente em uma mistura de cores, raças, gostos e
costumes. O adolescente de origem nordestina, que anda sempre vestido de camisetas pretas exibindo estampas das suas bandas de rock prediletas, gosta de ler gibis de super-heróis e almoça frequentemente num restaurante de comida chinesa, ou o estudante de origem negra, com seus cabelos dreadlocks estilo rastafári, que usa calça jeans larga e camisas de times de basquete da NBA, passa o dia com seu aparelho MP3 player escutando música rap e não falta às missas de domingo, ou a garota negra com o corpo marcado por tatuagens e piercings, pratica esportes de aventura, vive navegando na Internet em sites de relacionamento e comparece semanalmente nos ensaios da escola de samba do seu bairro são todos/as, de formas distintas, sujeitos “hibridizados”. O hibridismo, esse processo de tradução cultural que nunca se completa (HALL, 2009), desestabiliza e confunde as formas dominantes de representação da identidade e da diferença.
A partir do conceito de hibridização, precisamos ter o devido cuidado em não “congelar” ou “essencializar” as identidades. Como apontam Moreira e Câmara (2008), é crucial que os/as educadores/as utilizem estratégias para que o/a estudante perceba como em sua identidade se misturam aspectos que podem ser alvos de discriminação e opressão, assim como aspectos associados a grupos que têm dominado e explorado outros (p. 47).
Assim, nas aulas de Educação Física, um menino negro pode possuir um repertório motor que lhe garante sucesso ou destaque nas práticas esportivas, reunindo assim elementos de dominância nesse contexto; enquanto que em outras situações de aula pode sofrer inúmeros atos de discriminação pelo fato de ser negro, sendo colocado numa posição de subordinação. Da mesma forma, uma menina branca de classe alta que reúne elementos de dominância em determinadas situações, pode nas aulas de Educação Física ser alvo de preconceito relacionado a gênero nas práticas corporais, sendo colocada nessas ocasiões numa posição subordinada.
Num tempo de mutações vertiginosas produzidas pela globalização, a sociedade de consumo e a sociedade de informação (SOUSA SANTOS, 1996, p. 15), surge no contexto da educação a necessidade de buscar estratégias e políticas para governar ou administrar problemas de diversidade e multiplicidade gerados pelas sociedades multiculturais (HALL, 2009, p. 50). Esse processo denominado “multiculturalismo” vem cada vez mais ganhando força nas discussões e pesquisas no campo do currículo.