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La Peste, publicada em 1947, é considerada como a obra de um escritor que atingiu a maturidade e é vista como o primeiro grande romance francês do imediato pós-guerra. É fruto de uma vasta pesquisa e de uma longa preparação; já em abril de 1941, Camus menciona em seus Carnets o projeto do livro (Cf. CAMUS, 1962, p.229). Buscamos situar La Peste no conjunto das obras de Camus e na evolução de seu pensamento, pois o romance faz referência ao contexto contemporâneo do autor e apresenta uma relação com o ensaio L'Homme révolté.

Na Peste são marcantes os elementos relacionados com a biografia de Camus, também se destacam os elementos históricos, como o ambiente da Segunda Guerra, da Ocupação e da Resistência. Há ainda elementos próprios de uma reflexão, a crítica ao dogmatismo, à burocracia, ao totalitarismo, a luta contra a morte e a miséria e em favor da liberdade, a defesa da iniciativa e organização populares.

Olivier Todd se pergunta até que ponto se pode explorar os textos publicados de um autor — sem usá-los em interpretações abusivas e apressadas — para balisar sua vida. Poderíamos indagar também em que medida a biografia de um escritor pode nos esclarecer sobre o conteúdo de suas obras. Todd retoma uma afirmação de Camus:

L‘idée que tout écrivain écrit forcément sur lui-même et se dépeint dans ses

livres est une des puérilités que le romantisme nous a léguées. Les oeuvres

d‘un homme retracent souvent l‘histoire de ses nostalgies ou de ses

tentations, presque jamais sa propre histoire (CAMUS, apud: TODD, 1996, p.14).

Todd observa que, para além dos êxitos da transposição artística, a obra camusiana parece, entretanto, muito biográfica. O próprio Camus afirma que só escreve sobre o que

viveu: ―Je ne suis pas un philosophe, en effet, et je ne sais parler que de ce que j‘ai vécu‖ (CAMUS, 1965, p.753).

A recusa por parte de Camus da visão romântica e sua crítica à idéia, considerada uma ilusão, de que um escritor fala sempre de si próprio em seus textos ficcionais podem parecer contraditórias com sua própria obra, altamente autobiográfica e cheia de alusões a fatos que ele próprio vivenciou. Mas o que ele critica no romantismo é o excesso de lirismo e a produção carregada da subjetividade do autor. Camus foi um autor extremamente engajado com a história e as experiências por ele vividas, e de alguma forma presentes em sua obra, não são exclusivamente suas, são na verdade posicionamentos diante de questões prementes com as quais se confrontou toda uma geração.

Esta articulação entre o indivíduo e a sociedade pode ser facilmente verificada, sobretudo em se tratando de um escritor engajado. Neste sentido, Freud observa que, mesmo entre a psicologia individual e a psicologia social, a oposição não é tão profunda. Só muito raramente e em condições excepcionais, seria possível prescindir das relações do indivíduo com seus semelhantes, pois na vida anímica individual aparece integrado sempre ―o outro‖, como modelo, objeto, auxiliar ou adversário. O indivíduo é sempre membro de uma tribo, de um povo, de uma casta, de uma classe social ou de uma instituição, ou elemento de uma multidão humana. Através dos laços com os outros, o indivíduo influencia seu meio e está sempre sob a influência exercida por um grande número de pessoas (Cf. FREUD, 1978, p.3).

Numa concepção bastante próxima desta, também Sartre destaca o vínculo entre o indivíduo e os outros, ao comentar sua peça Huis Clos (1944) e particularmente a passagem l’enfer c’est les autres que, segundo ele, foi sempre mal compreendida. Embora Sartre veja as relações humanas sob o prisma do conflito, no qual os indivíduos são ao mesmo tempo vítimas e carrascos uns dos outros, ele afirma que esta passagem foi interpretada como significando que nossas relações com os outros são sempre envenenadas, sempre relações

infernais, sendo que, na verdade, ele queria dizer outra coisa: a possibilidade de relações que não de dependência e a importância de todos os outros para cada um.2

É nesta relação profunda entre o eu e o outro, entre o indivíduo e a sociedade, que pensamos poder compreender os elementos ―autobiográficos‖ que Camus deixa transparecer em seus textos ficcionais. O Ciclo da Revolta e La Peste, em particular, não podem ser dissociados do engajamento político do escritor. Além disso, se não podemos falar de obra autobiográfica em sentido próprio, há certamente um gosto pelo vivido e pela experiência concreta que se manifesta em diversos textos e não só na Peste. Os escritos de Camus são complexos pela simbologia e pela carga ideológica, mas são simples do ponto de vista da intriga e do enredo, porque são relatos próximos da experiência cotidiana e se opõem à "abstração", criticada como posicionamento filosófico no Mythe de Sisyphe, mas também como atitude existencial na Peste. Assim, esta vontade de transpor o existencial para a literatura é uma marca da literatura de Camus, na qual o gosto pelo concreto, pelo humano e pelo vivido é sempre destacado: um pouco em L'Étranger, muito mais na Peste, repleta de referências a dados biográficos ou históricos. L'État de Siège, como La Peste, remete à História, Caligula e Les Justes se baseiam diretamente em personagens históricos e Le Malentendu teria sido inspirada num fait-divers. Assim, alguns dos elementos identificados no romance como mais ou menos diretamente relacionados com a biografia do autor merecem ser destacados.

Desde seus primeiros estudos, Camus se interessou pela cultura grega clássica, em particular pelo mito e pela tragédia. Apaixonado pelo teatro, e pela dimensão comunitária e de

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Quero dizer que se nossas relações com o outro são distorcidas, viciadas, então o outro só pode ser o inferno. Por que? Porque os outros são, no fundo, o que há de mais importante em nós mesmos para nosso próprio auto-conheciemento. [...] Isto quer dizer que, se minhas relações são ruins, eu me ponho sob a total dependência do outro. E então, de fato, eu estou no inferno. E existe uma imensidão de pessoas no mundo que estão no inferno porque dependem demais do julgamento do outro. Mas isto não quer dizer, de forma alguma, que não se possa ter outras relações com os outros. Isto mostra, simplesmente, a importância essencial de todos os outros para cada um de nós. SARTRE, 1992, p.282- 283.

equipe fundamental, foi um estudioso deste campo e nele trabalhou intensamente e em várias funções, antes de escrever suas próprias peças; ele se interessava, sobretudo, pelos grandes dramaturgos e pela tragédia grega. La Peste apresenta uma dimensão trágica e uma passagem do romance evoca de maneira direta a figura mitológica de Orfeu. É uma curta passagem, que pode passar despercebida ao leitor, mas que tem um papel significativo.

Tarrou e Cottard vão assistir à representação de ―Orfeu‖, uma ópera de Gluck, e um ator atingido pela peste cai morto em cena, a platéia apavorada abandona a sala. Essa representação configura a retomada en abîme do tema da separação: a ópera mostra a separação entre Orfeu e Eurídice, e desde a primavera o grupo de artistas, isolado em Oran, retoma sempre o mesmo espetáculo, o que ilustra a repetição e a monotonia características do ―estado de peste‖. A doença surge brutalmente em cena, quebrando a ilusão teatral e a ilusão de vida normal que a noite no teatro poderia dar aos espectadores.

Orfeu é um elemento da cultura grega que na Peste remete ao tema da separação. A separação é decorrência do "estado de peste", que funciona como um "estado de sítio". O tema dos amantes separados, dos maridos afastados das esposas, presente no romance, lembra uma experiência vivida pelo próprio Camus. No início de 1940 ele está em Paris, trabalhando no jornal ―Paris-Soir‖; em maio termina L'Étranger e em dezembro se casa com Francine Faure. Em inícios de 1941 está em Lyon e vai daí para Oran, onde dá aulas algum tempo e termina Le Mythe de Sisyphe. Em inícios de 1942 está em Oran, a vida lá é difícil, ele sofre uma recaída da tuberculose e, no verão desse ano, volta à França para se tratar, sua mulher o acompanha, mas volta à Argélia pouco antes da chegada dos aliados à África do Norte, em novembro de 1942. Em conseqüência da guerra, que estabelece uma separação total entre a Metrópole e a África do Norte, Camus fica separado por mais de dois anos da mulher, da família e de sua terra natal. Ele continua a elaboração de sua obra, mas vive dificilmente as experiências da separação e da doença. Assim, para ele, o "exílio" e a separação não são

simplesmente temas literários nem conceitos abstratos, mas uma experiência cruelmente sentida e dolorosamente vivida.

Há uma ausência de personagens femininos importantes na Peste. Apenas algumas silhuetas, geralmente anônimas, que atravessam o romance. As mulheres estão longe de Oran. A mulher de Grand o deixou há muito tempo. Rambert deixou em Paris aquela que ele ama. A mulher de Rieux deixa a cidade a fim de se tratar, logo no início da história. A ausência das mulheres, geralmente esposas ou amantes dos personagens principais, vem reforçar a impressão de isolamento e de exílio destes personagens. Esta ausência ilustra ainda o tema dos amantes separados e o tema do amor, presente no romance, mesmo se não celebrado à maneira dos românticos.

A mãe de Rieux é a única mulher que tem uma presença destacada no romance, participando de muitas cenas. Ela é conhecida por suas palavras e atitudes, sendo descrita pelo narrador e por Tarrou. Esta personagem, comovente na sua discrição, corresponde à imagem da mãe de Camus, discreta e silenciosa, quase surda e que falava muito pouco, como ele a descreve em outras obras, como em Le Premier homme. A respeito de Rieux e sua mãe, o narrador afirma que eles sempre se amariam em silêncio. E acrescenta: ―Mais, cependant, quelque chose changeait dans le visage de sa mère lorsqu‘il apparaissait. Tout ce qu‘une vie laborieuse y avait mis de mutisme semblait s‘animer alors. Puis, elle retombait dans le silence‖ (CAMUS, 1984, p.1319).

Desde muito jovem, Camus praticava esporte com prazer, em particular o futebol e a natação. Há no romance um personagem, Gonzalès, que é jogador. Ele é procurado por Rambert, que também aprecia o esporte; a paixão comum desencadeia uma conversa e uma relação amistosa: "Le reste du déjeuner se passa à rechercher un sujet de conversation. Mais tout devint très facile lorsque Rambert découvrit que le cheval était joueur de football. Lui- même avait beaucoup pratiqué ce sport" (CAMUS, 1962, p.1340). Esse jogador, personagem

de participação episódica, acaba por se envolver na luta contra a peste, trabalhando justamente num estádio adaptado para receber os doentes:

C'est un dimanche après-midi que Tarrou et Rambert choisirent pour se diriger vers le stade. Ils étaient accompagnés de Gonzalès, le joueur de football, que Rambert avait retrouvé et qui avait fini par accepter de diriger par roulement la surveillance du stade. [...] Gonzalès avait dit aux deux hommes, au moment où ils s'étaient retrouvés, que c'était l'heure où, avant la peste, il se mettait en tenue pour commencer son match. [...] Le ciel était à moitié couvert et Gonzalès, le nez levé, remarqua avec regret que ce temps, ni pluvieux ni chaud, était le plus favorable à une bonne partie (CAMUS, 1962, p.1414-1415).

Associado à natação e à natureza mediterrânea, duas grandes paixões de Camus, o mar está presente no romance como um verdadeiro personagem ao qual se alude em muitos momentos. Assim, por exemplo, diz-se dos habitantes de Oran: "ils ont du goût aussi pour les joies simples, ils aiment les femmes, le cinéma et les bains de mer [...]" (CAMUS, 1962, p.1220). Por causa deste gosto, "Le dimanche matin [...] les bains de mer font une concurrence sérieuse à la messe" (CAMUS, 1962, p.1295). Naturalmente, os gostos e costumes são alterados pela epidemia, mas antes dela, a cada verão, "La ville s'ouvrait alors vers la mer et déversait sa jeunesse sur les plages" (CAMUS, 1962, p.1312). Quando o narrador se desculpa por descrever os enterros, dizendo que estes constituíam uma grande preocupação dos moradores durante a epidemia, ele fala do seu gosto pelo mar: "Ce n'est pas, en tout cas, qu'il ait du goût pour ces sortes de cérémonies, préférant au contraire la société des vivants et, pour donner un exemple, les bains de mer" (CAMUS, 1962, p.1359). A propósito de Tarrou, afirma-se nas primeiras páginas do romance: "Dès le début du printemps, on l'avait beaucoup vu sur les plages, nageant souvent et avec un plaisir manifeste" (CAMUS, 1962, p.1235). Uma das passagens mais belas do romance é o momento em que Rieux e Tarrou, quebrando as leis de isolamento da cidade, vão tomar um banho de mar, como a selar a amizade que os une:

"Savez-vous, dit-il, ce que nous devrions faire pour l'amitié? [...] Prendre un bain de mer." [...] "À la fin, c'est trop bête de ne vivre que dans la peste." [...] Peu avant d'y arriver, l'odeur de l'iode et des algues leur annonça la mer. Puis ils l'entendirent. [...] Habillés de nouveau, ils repartirent sans avoir prononcé un mot. Mais ils avaient le même coeur et le souvenir de cette nuit leur était doux (CAMUS, 1962, p.1428-29).

Camus trabalhou durante muito tempo como jornalista, e Rambert, um dos personagens principais do romance, é um jornalista, que está em Oran fazendo uma reportagem como aquela que Camus de fato fizera, sobre a miséria na Kabila, quando trabalhava em Argel, de outubro de 1938 a janeiro de 1940. Camus desempenhou a profissão de jornalista cheio de idealismo, propondo um jornalismo sério e criticando a manipulação das informações.

Na Peste, os jornais de Oran anunciam em 29 de abril a alegria da primavera na cidade da qual os ratos parecem ter desaparecido. Mas a normalidade é na verdade uma informação enganosa, tanto que já no dia seguinte morre o porteiro do prédio onde mora o doutor Rieux. Assim, os fatos desmentem os propósitos tranqüilizadores dos jornais. O narrador, numa linguagem bastante irônica, denuncia a cegueira das populações e a falta de objetividade de certos jornais, submetidos ao governo e à administração:

Les journaux, naturellement, obéissaient à la consigne d'optimisme à tout prix qu'ils avaient reçue. À les lire, ce qui caractérisait la situation, c'était "l'exemple émouvant de calme et de sang-froid" que donnait la population. Mais dans une ville refermée sur elle-même, où rien ne pouvait demeurer secret, personne ne se trompait sur "l'exemple" donné par la population (CAMUS, 1962, p.1413).

Os jornais não compõem a documentação de que Rieux se serve, não têm nenhuma utilidade durante a epidemia e só se interessam pelo espetacular: ―le Courrier de l’épidémie [...] ce journal s‘est borné très rapidement à publier des annonces de nouveaux produits, infaillibles pour prévenir la peste" (CAMUS, 1962, p.1316).

O narrador, que foge de uma linguagem estereotipada, escreve baseando-se nas anotações deixadas por Tarrou. Há, igualmente, grande espaço para as confidências e para a oralidade. O próprio Rambert, jornalista, é um ―narrador‖ que não escreve. Os diálogos são numerosos. A linguagem do padre Paneloux, como a linguagem dos juízes de L'Étranger, é fria e carregada de chavões; marcada pela "abstração", ela é caricaturizada e através dela aparece uma denúncia dos poderes da palavra, que pode mascarar a realidade e se tornar uma sedução desonesta.

Camus é um escritor que se posiciona no campo literário como um amador, visto que esteve afastado dos meios acadêmicos, desde que, por motivos de saúde, foi proibido de seguir a carreira de professor. Outro personagem importante no romance se debate, na busca obcecada da perfeição para escrever um romance e se tornar um escritor: Grand, um simples funcionário da prefeitura, função que Camus exerceu em Argel, quando, fazendo seus estudos superiores na Faculdade de Argel em condições difíceis, trabalhou como vendedor de acessórios para automóveis, meteorologista, funcionário de uma agência marítima e da prefeitura.

Camus manifesta um interesse pelos problemas da linguagem em textos como L’intelligence et l’échafaud (1943) e Sur une philosophie de l’expression de Brice Parain (1944), e ainda na Introduction aux Maximes de Chamfort (1944), escritos que transparecem, de forma simplificada, nos tormentos existenciais de Grand, aspirando a se tornar escritor. Em sua obsessão pelo termo exato, este personagem está sempre reiniciando seu escrito. Com medo de não encontrar a palavra adequada, nunca escreveu à prefeitura, onde ele trabalha, a carta de reclamação em que pensa há muito tempo; da mesma forma não encontrou, para se dirigir à mulher que o abandonou, palavras que fossem capazes de retê-la:

Ce qu‘il aurait voulu, c‘est lui écrire une lettre pour se justifier. "Mais c‘est

sommes aimés, nous nous sommes compris sans paroles. Mais on ne s‘aime pas toujours. À un moment donné, j‘aurais dû trouver les mots qui l‘auraient retenue, mais je n‘ai pas pu" (CAMUS, 1962, p.1286).

A presença de um personagem que quer se tornar escritor e que só consegue depois de terminada a luta contra o flagelo, bem como a discussão sobre o poder e a função da linguagem, remetem a uma reflexão sobre o próprio ato de escrever, que é apresentado como algo que exige imensos esforços e que está em relação com o ambiente do escritor.

Num grau menor do que Grand, também Tarrou experimenta, às vezes, uma dificuldade em escrever. A carreira de Grand, enquanto funcionário público, não avança, ele permanece à margem porque é transparente e tem coragem de ter bons sentimentos, ou seja, ele constitui a antítese do estereótipo dos empregados da administração à qual pertence. Antes que se declarasse a peste, já tinha a convicção de que "il faut bien s'entraider" (CAMUS, 1962, p.1232).

As concepções políticas de Tarrou, bem como seu horror à pena de morte, praticamente coincidem com as de Camus. O relato de Tarrou sobre seu pai, que condenava criminosos à morte, evoca as Réflexions sur la guillotine (1957), um texto denso e profundo, em que Camus critica a pena de morte. No início desse texto, Camus relembra a história contada por sua mãe, sobre seu pai, que defendia a pena de morte, até o dia em que foi assistir a uma execução e voltou para casa transtornado: essa experiência perturbadora diante da execução é vivida e relatada pelo personagem Tarrou. Além disso, Camus integra a seu romance seus próprios ―carnets‖, anotações cuja forma de escrita é semelhante àquela presente nos ―carnets‖ de Tarrou. Este personagem corresponde ainda ao ex-militante que discorda dos métodos violentos usados na luta revolucionária, o que remete à passagem de Camus pelo Partido Comunista e à decepção de muitos de seus contemporâneos com o

Partido. Além deste personagem, também o médico Rieux compartilha muitos pontos de vista e opiniões que o autor defende em outros escritos.

A luta dos personagens contra a peste, uma metáfora da Guerra, remete à luta de Camus e de muitos de seus contemporâneos contra a ocupação nazista. Camus busca não ceder à tentação da obra de tese e condena a literatura de propaganda, mas produz uma literatura de alcance filosófico e social. Ele não sacrifica sua ética nem sua estética às exigências da filosofia ou do combate político, mas também não acredita na arte pela arte, desligada das condições sociais e culturais que a tornam possível. Pensa, antes, que a responsabilidade do escritor está à altura do lugar que ele ocupa no campo social. Retomando a expressão de Pascal, afirma: "À partir du moment où l‘abstention elle-même est considérée comme un choix, puni ou loué comme tel, l‘artiste, qu‘il le veuille ou non, est embarqué (CAMUS, 1965, p.1079). E escreve ainda:

Les artistes du temps passé pouvaient au moins se taire devant la tyrannie. Les tyrannies d‘aujourd‘hui se sont perfectionnées; elle n‘admettent plus le silence, ni la neutralité. Il faut se prononcer, être pour ou contre. Bon, dans ce cas, je suis contre (CAMUS, 1965, p.800).

A obra literária, filosófica e jornalística de Camus apresenta uma discussão ética e uma defesa do comprometimento com o social, e sua atividade de escritor é em si mesma uma forma de engajamento. Sua ação militante se revela também pela condenação dos excessos da política colonial francesa e por sua atividade na Resistência. Camus se coloca como defensor