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Originale materialer og teknikker

Camus se definia mais como um artista criador de mitos do que como filósofo ou romancista (CAMUS, 1965, p.743). De fato, alguns críticos deploraram o caráter intuitivo das bases do pensamento de Camus e tiveram dificuldade em classificar suas obras, tanto os ensaios quanto os romances, construídas nas fronteiras dos campos e dos gêneros.

Falou-se de literatura referindo-se a Le Mythe de Sisyphe, em que mereceria destaque a importância da ―fraseologia‖ (DURAND, 1961, p.96-97). Na obra L’Univers philosophique (dir. A. Jacob, Paris: PUF, 1989), também L'Homme révolté foi classificado entre os textos literários (AMIOT & MATTÉI, 1997, p.103). De fato, os ensaios filosóficos de Camus são igualmente literários e seus temas básicos não são privilegiados pela tradição preponderante do pensamento filosófico. Neles o autor cita e evoca tanto filósofos quanto romancistas.

Absurdo e Revolta, ensaio e romance, reflexão e poesia se imbricam e se misturam nos escritos de Camus. Se um texto se acha na interseção de gêneros múltiplos e se as tipologias tradicionais se revelam muito freqüentemente inoperantes, pode-se dizer que o recurso a estes gêneros e não a outros é parte integrante da formação discursiva, da mesma forma que o "conteúdo" (Cf. MAINGUENEAU, 1987, p.26). O ensaio é, dentre as formas do discurso filosófico, aquela que mais se distancia do sistema frio e racionalmente organizado do tratado e aquela que mais se aproxima das formas literárias (Cf. BARTHES, 1953, p.14).

Assim, a opção de Camus pelo ensaio poético e pelo "romance ideológico" revela a preferência por uma filosofia não racionalista e por uma forma romanesca que não corresponde àquelas reconhecidas e privilegiadas pelas instâncias institucionais e acadêmicas. Ele se levanta contra a redução da filosofia a seu aspecto lógico e impessoal e se preocupa mais com o sentido a dar à vida do que com puros problemas intelectuais, buscando uma forma na qual a inteligência e a paixão se misturam (CAMUS, 1965, p.192).

Os romances L'Étranger e La Peste foram vistos mais como testemunhos do que como romances, no sentido tradicional do termo (GINESTIER, 1964, p.265). Le Mythe de Sisyphe seria uma dissertação em forma de ensaio filosófico e L'Étranger uma dissertação em forma de narrativa (AMIOT & MATTÉI, 1997, p.94-95). Já os primeiros estudiosos de Camus observaram que a crítica sempre experimentou certa hesitação em enquadrar L'Étranger no gênero romanesco, pois o livro romperia com uma série de convenções e procedimentos considerados próprios de uma certa tradição do gênero romanesco e seria um texto de construção revolucionária (BARRIER, 1966, p.16).

As marcas de L'Étranger que mais o distanciam do romance tradicional francês são uma narração em primeira pessoa, paradoxalmente impessoal, no passado composto, um tempo eminentemente anti-romanesco (LEBESQUE, 1967, p.45). O estilo "falado‖ dá também a impressão de que se trata de um relato espontâneo, a que falta um "porte literário‖. Assim, viu-se em L'Étranger uma espécie de ‗anti-romance‘ em que a intenção de recusar o ritual das letras e romper com a tradição da literatura francesa é evidente (BARRIER, 1966, p.7, 17 e 31). A dificuldade em interpretar ou classificar este romance de uma maneira satisfatória viria também do fato de que se trata de uma obra ambígua por excelência (FITCH, 1968, p.76). Esta ambigüidade teria sido buscada pelo autor e estaria presente igualmente em La Peste, marcada igualmente pela mistura de gêneros(Cf. CAMUS, 1965, p.201, 203).

O narrador da Peste apresenta seu relato como sendo uma crônica, o que remete à história. Mas o romance pode ser visto também como uma tragédia e até mesmo como um ensaio. A complexidade e diversidade de sentidos presentes no romance parecem buscadas pelo autor, que afirma:

Je veux exprimer au moyen de la peste l‘étouffement dont nous avons souffert et l‘atmosphère de menace et d‘exil dans laquelle nous avons vécu.

Je veux du même coup étendre cette interprétation à la notion d‘existence en

part de la réflexion, de silence – et celle de la souffrance morale (CAMUS, 1964, p.67).

Pela época em que escreve La Peste, Camus publica um estudo sobre L’espoir et l’absurde dans l’oeuvre de Franz Kafka, que traz uma reflexão sobre o símbolo e a ambigüidade em Kafka, elementos que Camus parece buscar também para sua obra. No estudo, pode-se ler: ―Un symbole dépasse toujours celui qui en use, et lui fait dire en réalité plus qu‘il n‘a conscience d‘exprimer‖ (CAMUS, 1965, p.201). La Peste é colocada sob a luz de uma citação, tomada do Robson Crusoé de Daniel Defoe, que evoca os temas da prisão, da representação imaginativa, dos poderes metafóricos e simbólicos da arte: "Il est aussi raisonnable de représenter une espèce d'emprisonnement par une autre que de représenter n'importe quelle chose qui existe réellement par quelque chose qui n'existe pas".

Camus admira também Melville, por ter construído seus símbolos sobre o concreto, e não sobre o material do sonho, por ter inscrito seus mitos na concretude da realidade e não nas nuvens fugidias da imaginação. Melville orienta a criação de Camus para o símbolo e o mito ancorados na realidade; é isto que ele deseja para sua própria criação, em particular para La Peste. Camus busca uma maneira de dizer, ao mesmo tempo, a história e o mito, o real e sua transfiguração. No romance, há esta multiplicidade de significações: é uma crônica, mas de uma epidemia imaginária; é um romance ao mesmo tempo, mas remete ao conhecimento do que existe de fato no mundo.

Podemos distinguir entre os elementos mais característicos da crônica e aqueles próprios da tragédia, mas na verdade eles se acham amalgamados no romance. Os diversos aspectos e sentidos do texto se impõem simultaneamente: isso vale tanto para o sentido da relação com a história, particularmente a Segunda Guerra, quanto para o sentido de tragédia, alegoria e mito. Por isso podemos dizer que o romance propõe uma crônica mítica,

misturando descrições realistas e evocações do fantástico, o natural e o inverossímil.3 No início do relato, o narrador já prevenia: "Ces faits paraîtront bien naturels à certains et, à d'autres, invraisemblables au contraire" (CAMUS, 1962, p.1221). Assim, para Véronique Anglard, a realidade e o mito da peste se colocam lado a lado; a peste, como a vida, é natural e inverossímil (Cf. ANGLARD, 1999, p.126).

Em 1958, no prefácio para a reedição de L'Envers et l'endroit (1937), Camus avalia sua obra e afirma que se esforça para criar uma linguagem e fazer viver mitos. Este objetivo transparece na Peste, em que a dimensão mítica e trágica está presente, como sublinha Véronique Anglard, embora a autora identifique o mito como ―história atemporal‖, ao passo que o próprio Camus destaca a relação entre o momento sócio-histórico da Grécia e o surgimento dos mitos e da tragédia.

Camus, portanto, como romancista, busca construir mitos. O mito é uma linguagem e a linguagem é, por natureza, simbólica. O mito pode designar ao mesmo tempo uma história antiga e uma situação presente. Desta maneira, La Peste, pela riqueza das imagens e pela dimensão simbólica, apresenta muitos sentidos, e, como observaram vários críticos, a epidemia pode simbolizar ao mesmo tempo o nazismo, a guerra, a opressão, o Absurdo e o mal.

Podemos destacar os elementos do romance que o aproximam de uma peça de teatro, em especial de uma tragédia. Nas primeiras páginas do romance o leitor tem contato com praticamente todos os personagens, pois a maioria deles aparece logo no início, numa forma de apresentação que se assemelha à entrada de atores em cena. Eles recebem uma rápida descrição física e, geralmente, tomam a palavra imediatamente; é o caso de Tarrou, Rambert,

3

Pela presença da natureza, pelas descrições do espaço, as ruas de Oran, o porto vazio, o hospital, pela presença de personagens que sofrem ou morrem de maneira muito nítida, pela apresentação quase clínica da peste, o romance parece se aproximar das formas mais visíveis de realismo. Mas a peste, a presença do flagelo, as forças dos elementos remetem ao fantástico e se se aproximam do mítico, na medida em que nos relatam uma história atemporal e que nos fala de nossa própria história. ANGLARD, 1999, p.125

Grand, Cottard e Rieux. Além disso, o livro não é dividido em capítulos, mas em 5 grandes partes e, desta forma, a própria composição do romance remete explicitamente à estrutura da tragédia clássica francesa:

1) A primeira parte, como um primeiro ato, situa a ação e anuncia a narrativa, relata o aparecimento dos ratos, descreve o aumento da tensão e termina com a declaração do ―estado de peste‖ e conseqüente fechamento da cidade.

2) A segunda parte mostra a instalação e o progresso da peste na cidade fechada, os esforços para organizar a luta contra o flagelo, o aumento do medo, do sentimento de exílio e de revolta. A peste atinge seu cume.

3) A terceira parte, central, descreve a situação geral, afirmando o reinado da peste, descreve as violências, os enterros, os sofrimentos das pessoas separadas.

4) Na quarta parte se acentua o avanço da doença e do terror, que culmina na morte de uma criança, mas a cura de Grand é um fato novo.

5) Na quinta e última parte a peste diminui e desaparece. As portas da cidade se abrem e os habitantes recuperam a liberdade. Revela-se a identidade do narrador.

Assim, a estrutura de conjunto baseia-se no movimento da peste: chegada, desenvolvimento, auge, diminuição, desaparecimento. A ameaça da morte é um elemento da tragédia clássica, e esta está presente no romance. Nele a peste é a imagem de tudo que causa a morte, a questão da pena de morte é discutida e a morte dolorosa de uma criança é descrita, causando verdadeiro pavor e suscitando a discussão entre o cientista e o teólogo.

Camus se documentou sobre a doença e sobre as grandes pestes da história, conseguindo informações, detalhes para a descrição da doença, números, anedotas e imagens, que alimentam a fala do médico Rieux e a pregação do padre Paneloux. Ele leu Lucrécio, Tucídides, Defoe. Leu ainda Le Théâtre et son double (1938), de Antonin Artaud, e parece ter

sido tocado particularmente pelo capìtulo ―Le théâtre et la peste‖. Referências precisas à Bíblia mostram que Camus não ignorou a dimensão religiosa do flagelo, que constitui com a guerra e a fome as ―três flechas de Deus‖, e seu papel de castigo divino, do qual se lembra Paneloux. Esta dimensão reforça a peste como símbolo do mal. A peste reúne sob as imagens que lhe são específicas todas as manifestações do mal e da infelicidade de ordem física, moral, metafísica e histórica.

Além do sentido clássico da tragédia, enquanto representação e gênero dramático, Camus considera que seu próprio tempo — marcado por guerras, pela barbárie, pelos campos de concentração, pelos crimes contra a humanidade e pelo terror totalitário — é um momento histórico "trágico" por excelência:

L‘homme d‘aujourd‘hui, qui crie sa révolte en sachant que sa révolte a des

limites, qui exige sa liberté et subit la nécessité, cet homme contradictoire,

déchiré, désormais conscient de l‘ambiguïté de l‘homme et de son histoire, cet homme est l‘homme tragique par excellence (CAMUS, 1962, p.1707). Podemos, assim, destacar os elementos que acentuam o aspecto de crônica presente no romance. A linguagem é sóbria e recusa a exaltação dos sentimentos heróicos ou líricos; quanto mais as circunstâncias são trágicas, mais o tom da narrativa se faz impessoal, o que não deixa de lembrar a técnica de Kafka, por exemplo, no Processo (1915). La peste é marcada por referências, às vezes sutis, às vezes mais explícitas, ao momento da Segunda Guerra. A comparação subjacente entre peste e guerra é o dado que mais estabelece a relação do romance com a época que precedeu sua publicação. A peste e a guerra são vistas e julgadas da mesma maneira, elas são permutáveis, as duas são um flagelo:

Les fléaux, en effet, sont une chose commune, mais on croit difficilement aux fléaux lorsqu'ils vous tombent sur la tête. Il y a eu dans le monde autant de pestes que de guerres. Et pourtant pestes et guerres trouvent les gens toujours aussi dépourvus (CAMUS, 1962, p.1247).

Evocando o imaginário da peste, sobretudo sua ação de mortalidade e devastação, Rieux estabelece imediatamente a relação entre ela e a guerra. O campo lexical evocativo da guerra é importante, fala-se em ―estado de peste‖, como se fala de ―estado de sìtio‖. O exìlio e a prisão são temas centrais: "Ils éprouvaient ainsi la souffrance profonde de tous les prisonniers et de tous les exilés, qui est de vivre avec une mémoire qui ne sert à rien" (CAMUS, 1962, p.1278). O exílio se dá na própria terra: "Mais si c‘était l‘exil, dans la majorité des cas c‘était l‘exil chez soi" (CAMUS, 1962, p.1278). O exílio em casa não torna a separação menos dolorosa nem a solidão menos pesada.

Um dos sentidos da crônica se refere a uma reportagem, uma anotação do dia-a-dia, o que lembra o papel do historiador, para o qual o tempo é fundamental. Entretanto, no romance, não se indica o ano preciso, o que limita a exatidão da referência cronológica. Fala- se apenas da década, 1940: "Les curieux événements qui font le sujet de cette chronique se sont produits en 194..." (CAMUS, 1962, p.1219).

A cronologia se estende da ―manhã do dia 16 de abril‖ até ―uma manhã de fevereiro‖. O tempo é marcado pelo ritmo das estações, que têm um papel importante na evolução da epidemia: ela aparece na primavera, culmina no verão, fica estagnada no outono, diminui e desaparece no inverno. Trata-se de uma crônica que, paradoxalmente, foge à datação precisa.

Além disso, os documentos recolhidos pelo narrador são bastante subjetivos: seu próprio testemunho, as confidências dos outros personagens e ―os textos que caìram em suas mãos‖; trata-se de um historiador amador: "Bien entendu, un historien, même s'il est un amateur, a toujours des documents. Le narrateur de cette histoire a donc les siens" (CAMUS, 1962, p.1222). Ele não se pretende imparcial, mas testemunha privilegiada pelas circunstâncias e pelo papel que veio a desempenhar; mais do que documentar sobre a peste, ele se preocupa em mostrar a reação das pessoas diante dela.

O narrador não só conhece o que se passou, podendo avaliar a extensão do mal, mas busca também fazer justiça àqueles que mostraram resistência. O objeto normal das crônicas é a comunidade, e desde o inìcio do romance, com o emprego de expressões como ―nossa cidade‖, ―a gente‖, ―a opinião geral‖, a crônica afirma sua ambição coletiva. A partir do momento em que se diz que ―a peste foi questão de todos nós‖, o ―nós‖ coletivo substitui quase sempre os outros pronomes; este ―nós‖ se opõe assim ao ―eu‖ individual de Meursault, em L'Étranger. A comunidade, no caso, é uma cidade: Oran. Trata-se de uma referência a uma cidade que existe de fato, situada no norte da África, na Argélia, e a história se passa na década de 1940. Assim, a situação espácio-temporal constitui um quadro realista. Pode-se também ver em Oran uma cidade moderna por causa dos acontecimentos, das descrições físicas e da forma como nela é apresentada a vida, organizada em função do sistema capitalista avançado:

On pouvait cependant avoir d'autres sujets d'inquiétude par suite des difficultés du ravitaillement qui croissaient avec le temps. La spéculation s'en était mêlée et on offrait à des prix fabuleux des denrées de première nécessité qui manquaient sur le marché ordinaire. Les familles pauvres se trouvaient ainsi dans une situation très pénible, tandis que les familles riches ne manquaient à peu près de rien. [...] la peste [...] rendait plus aigu dans le coeur des hommes le sentiment de l'injustice. Il restait, bien entendu, l'égalité irréprochable de la mort, mais de celle-là, personne ne voulait (CAMUS, 1962, p.1413).

O narrador sublinha o aspecto banal da cidade e da vida em Oran, que é apresentada como uma cidade comum, feia, voltada para o comércio, fechada sobre si mesma, um lugar bastante artificial e inumano, como muitas cidades grandes. Os habitantes não têm nada de extraordinário, levam uma vida mecânica, presa aos hábitos do cotidiano; vivem numa espécie de indiferença, sem refletir no sentido a dar a vida. A monotonia, o conformismo e a despersonalização os absorvem. Passam a maior parte do tempo trabalhando, trabalham muito

e gastam logo o pouco que ganham no consumo de mercadorias e de diversões (Cf. CAMUS, 1962, p.1219).

A descrição da invasão e da morte de milhares de ratos é bastante realista: incredulidade e depois preocupação dos habitantes. A ação tem como quadro primeiro o cenário da vida quotidiana e a primeira vítima é o porteiro de um imóvel, o representante estereotipado de uma vida fundada sobre o hábito e os gestos cotidianos.

Antes da peste, em Oran, a vida é ritmada pelo trabalho, pelos prazeres do fim de semana, pelos hábitos do cotidiano; o narrador acentua este aspecto ―comum‖ da cidade e da vida de seus habitantes: "Ce qu'il fallait souligner, c'est l'aspect banal de la ville et de la vie. [...] Du moment que notre ville favorise les habitudes, on peut dire que tout est pour le mieux" (CAMUS, 1962, p.1221). No entanto, depois da declaração do estado de peste, o aspecto da cidade se modifica, ela se torna uma cidade diferente, por causa das mudanças no espaço e nos hábitos do cotidiano: "Oran prit ainsi un aspect singulier" (CAMUS, 1962, p.1283). Já o fechamento das portas conduz a medidas de proibição e de racionamento, finalmente instalando-se a desordem.

Num primeiro momento de desespero, os habitantes apelam para a religiosidade; logo em seguida eles se entregam aos prazeres e exibem a riqueza, o luxo, as relações: "Au début, quand ils croyaient que c‘était une maladie comme les autres, la religion était à sa place. Mais quand ils ont vu que c‘était sérieux, ils se sont souvenus de la jouissance" (CAMUS, 1962, p.1318). Já não vivem conforme o modo convencional nem se preocupam com o olhar reprovador dos outros: "La peste avait supprimé les jugements de valeur. Et cela se voyait à la façon dont personne ne s'occupait de la qualité des vêtements ou des aliments qu'on achetait" (CAMUS, 1962, p.1368). Na Peste, passada a crise da doença, a maioria dos habitantes retorna ao seu antigo estado de banalidade, superficialidade e alienação.

As condições materiais da vida sob o domínio da peste são relatadas com detalhes: "Le ravitaillement fut limité et l‘essence rationnée. On prescrivit même des économies d‘électricité" (CAMUS, 1962, p.1283). Os problemas de abastecimento, as restrições, o mercado negro, as dificuldades de comunicação, as cenas da vida cotidiana, são reflexo das marcas de uma época: a ocupação alemã da França, o genocídio judeu, a Segunda Guerra com toda sorte de sofrimentos que ela trouxe. Nalguns momentos a equivalência entre a peste e a guerra são particularmente evidentes, como na descrição das refeições coletivas num campo de futebol que abriga os doentes:

Puis les haut-parleurs qui, dans des temps meilleurs, servaient à annoncer le résultat des matches ou à présenter les équipes, déclarèrent en nasillant que les internes devaient regagner leurs tentes pour que le repas du soir pût être distribué. [...] "C'est scientifique, dit Tarrou à l'administrateur (CAMUS, 1962, p.1417).

De forma semelhante, no auge da peste, a evocação, no texto, dos cadáveres evacuados por bondes, num anonimato desumanizante, das fossas comuns e dos ―fornos crematórios‖ é a imagem do extermìnio nos campos de concentração:

[...] un employé de la mairie facilita beaucoup la tâche des autorités en conseillant d'utiliser les tramways qui, autrefois, desservaient la corniche maritime, et qui se trouvaient sans emploi. À cet effet, on aménagea l'intérieur des baladeuses et des motrices en enlevant les sièges, et on détourna la voie à hauteur du four, qui devint ainsi une tête de ligne" (CAMUS, 1962, p.1364).

Camus lembrou que o ―conteúdo evidente‖ da Peste era a luta da resistência contra o nazismo e a descrição do domínio da peste remete ao momento da guerra. Mas a crítica da administração burocrática e a condenação da pena de morte remetem também à questão da revolução de tipo comunista e aos métodos do stalinismo, que fazem parte da história do século XX. Assim, no romance, a doença simboliza a guerra, e também os totalitarismos e autoritarismos, inclusive o comunista.

Há no romance uma crítica da ideologia, do dogmatismo, da violência e do totalitarismo, configurada pela sátira da administração e das instituições do poder político ou social, marcadas pelo desinteresse, pela incompetência e pela burocracia: "Les mesures arrêtées étaient insuffisantes, cela était bien clair. [...] Si l'épidémie ne s'arrêtait pas d'elle- même, elle ne serait pas vaincue par les mesures que l'administration avait imaginées" (CAMUS, 1962, p.1267). As instituições e tudo o que diz respeito ao poder político ou social