3. Metodikk
3.1.3 Undersøkelse og dokumentasjon av Composition
Com o objetivo de analisar as relações entre público e privado permeadas pela imagem fotográfica no século XX, buscou-se amparo conceitual desses termos e discutir como têm sido abordados com o passar do tempo.
Gilberto Dupas afirma que “para os gregos, uma vida na privacidade – sem participação na esfera pública – constituía a privação das faculdades humanas mais valiosas, assim como só poderia ser um bom político quem, na esfera privada, fosse ético, moral, digno”.75 De acordo com o mesmo autor, Arendt afirma que o
individualismo moderno enalteceu o sentido do espaço privado, tornando-o sinônimo de proteção à liberdade. O privado enquanto espaço da intimidade não se opõe diretamente ao público, entendido contemporaneamente como o domínio do político, mas ao social.
Gilberto Dupas ainda comenta que de acordo com Richard Sennett,
durante o século XVIII, era comum a imagem do homem público como ator pela valorização da arte de representar, que separa a personalidade do papel para a atuação na esfera pública. A vida social era percebida como teatro, estética e lúdica como em conjunto de rituais de discurso, vestuário e comportamento que demarcavam a fronteira entre vida pública e vida privada. A sociabilidade exigia a manutenção de uma certa distância da observação íntima por parte do outro. As máscaras colocadas sobre o eu, nelas incluindo as boas maneiras e os gestos de polidez em situações públicas, constituíam rituais de sociabilidade.76
74
CHARTIER, 2002.
75
DUPAS, Gilberto. Tensões contemporâneas entre o público e o privado. São Paulo: Paz e Terra, 2003. p. 28.
Rituais que, de certa forma, perduram e são visualizados nas fotografias do século XX, com intensidade e conotação diferente, continuam presentes nas imagens através das poses.
Com o iluminismo, houve a tentativa de equilíbrio entre a esfera do público e do privado. Nesse período não havia a noção clara de espaço privado, mas apenas uma diferenciação com o espaço público. O espaço público, como o espaço da cultura, é criado pelos homens; o espaço privado, personificado na família, faz parte da condição humana e da natureza. Desse modo, a esfera pública burguesa era um espaço de socialização que envolvia instituições e práticas sociais. Estado e sociedade civil estavam, de um lado e de outro, os interesses dos indivíduos – privado – inseridos na vida familiar, social e econômica. Assim, surgia o “cidadão e suas demandas, bem como as preocupações com a vida pública, os interesses comuns e a formação de consensos contra formas sociais ou públicas de poder arbitrário”.77
Assim, a esfera pública exigia liberdades civis – “direito de associação e de expressão – e passou a ser constituída por órgãos de informação e de debate, como instituições de discussão personificadas nos parlamentos, clubes políticos, salões literários, assembleias públicas, cafés e bares, e em outros espaços onde havia lugar para a discussão sociopolítica”.78 Os indivíduos podiam participar da vida
pública expressando suas necessidades e interesses, bem como influenciar a prática política. Entretanto, no século XIX, o dinamismo da vida pública do XVIII foi substituído pela ascensão da sociedade do “espetáculo e do consumo”. Simultaneamente, surgiu o espectador “voyeur e passivo”, que se retira do espaço público, ocupando apenas o lugar de observador.
O espaço público passou por uma crise no século XIX, que Richard Sennett79 a caracterizou como “a emergência da personalidade enquanto categoria social”, partindo de uma exigência de liberdade, da afirmação da individualidade e da diferença, dos desejos e dos gostos específicos. Assim, a personalidade passou a diferenciar os indivíduos entre si, e o “não se comportar” e o “não ter a aparência” semelhante a outras pessoas passava a exigir do sujeito maior autocontrole,
77
DUPAS, 2003, p. 30.
78 Ibid., p. 30.
repressão das emoções e controle permanente da “performance do eu” para viver em sociedade.
A partir desta reflexão entende-se que as fotografias apresentadas nos próximos capítulos buscam demonstrar a personalidade individual, observando-se a padronização das imagens e o autocontrole na vida social e pública através das poses e dos cenários que constituirão as imagens fotográficas.
Jürgen Habermas também chama a atenção para a “erosão das fronteiras entre as esferas do Estado e da sociedade civil, e entre espaços públicos e privados”,80 onde o cidadão foi condicionado à posição de espectador e consumidor
passivo, ao passo que a esfera pública passou a ser dominada pela manipulação de elites, e as mídias passam de “facilitadoras” do debate da esfera pública para construtoras de opinião pública, definindo os temas “válidos”. Assim, a utilização das imagens (fixas ou em movimento) pode servir para apoiar ou questionar governos, camadas sociais e econômicas, induzindo a opinião pública.
No Brasil, no início do período republicano, a busca pela aparência moderna e a “extinção” da antiga nobreza remetem a mudanças de comportamentos que repercutiram na organização do espaço doméstico, na decoração e nas novas formas de convívio social. O espaço privado da residência não estava mais restrito ao grupo de amigos e familiares, mas agregavam-se a “indivíduos estranhos à vida doméstica, cujo mérito pessoal e domínio das regras de etiqueta viabilizaram sua assimilação e circulação nos salões da elite”,81 rituais divulgados nas colunas sociais
e artigos em jornais e revistas do período. O consumo direcionado a vestimentas inspiradas na moda parisiense, assim como os diversos objetos e os equipamentos, era relacionado a marcas do progresso e modernidade.
Entretanto, tensões entre os espaços públicos e privados também ocorreram nos períodos de modernização das grandes cidades no Brasil. Paulo César Garcez Marins cita vários exemplos82 em que o controle estatal se mostrou enérgico ao impor modelos de aeração, circulação, lazer e monumentalidade para atender elites emergentes. As moradias – de bairros habitados por camadas sociais pobres e
80 HABERMAS, Jürgen apud DUPAS, 2003, p. 31. 81
SCHAPOCHNIK, 1998, p. 441.
82
Os exemplos podem ser consultados em: MARINS, Paulo César Garcez. O “espaço privado” deveria se sujeitar ao interesse “público” e ao controle estatal. In: SEVCENCO, Nicolau (Org.).
História da vida privada no Brasil – República: da Belle Époque à Era do Rádio.3. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, v. 3, p. 131-170.
desfavorecidas – foram alvos de discursos e práticas normativas (milhares destruídas, desapropriações, novas moradias tinham altos custos, além da necessidade da autorização governamental). Assim, o espaço privado deveria se sujeitar ao interesse público e ao controle estatal, servindo de exemplo para as cidades todas. Na busca de representação de modernidade, foram, cuidadosamente, produzidos cartões postais, que enquadravam na visualização as reformas urbanas e os prédios públicos ou privados, e eliminavam das imagens os casarios antigos e os indícios que remetessem ao “atraso”. As intervenções urbanas envolvendo propriedades públicas e privadas continuam ocorrendo. Apesar de estarem em pauta outros interesses e contextos, as camadas sociais pobres e desfavorecidas continuavam sendo “convidadas a se retirar”. E mesmo as camadas sociais com rendimentos mais elevados também estavam sujeitas às intervenções públicas, deixando de terem autonomia sobre seu espaço privado.
Ana Maria Mauad tece significativas considerações acerca das fronteiras entre público e privado através de imagens fotográficas. A autora instiga a reflexão sobre como as imagens de uma família de imigrantes no Rio de Janeiro se relacionava com as imagens publicadas nas revistas ilustradas cariocas no período de 1900 a 1950. A autora afirma que há “nas representações do universo privado as formas de circulação de signos de distinção social e construção de uma identidade de classe que supera as características propriamente étnicas do grupo de origem”.83
Assim, se, por um lado, o consumo público de imagens privadas nas revistas ilustradas pode influenciar o comportamento familiar no espaço privado, por outro, o espaço privado é incorporado nas imagens publicadas, que prescrevem o vestuário, os locais que deveriam ser frequentados, a decoração da casa e como educar os filhos, o que corrobora para o pertencimento e reconhecimento de uma determinada
classe social. Em Panambi, o compartilhamento das imagens fotográficas ocorria através
das imagens produzidas no estúdio. Nesse sentido, compreende-se que o estúdio corresponde ao espaço público que “encena” o espaço privado (idealizado e virtual) para a exposição social, produzindo imagens para o “dar-se-a-ver” nos espaços privados e públicos. Nesse lócus – espaço público (estúdio) –, as imagens
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MAUAD, Ana Maria. Fotografia e as dimensões visuais do privado e do público na trajetória de imigrantes libaneses no Rio de Janeiro (1900-1950). In: GAWRYSZEWSKI, Alberto (Org.). Olhares
fotográficas ficavam “expostas” – tanto no lado interno do estúdio quanto na vitrine – para os frequentadores do estúdio e para as pessoas que pela rua transitavam. De certa forma, essa exposição tinha a função de “educar” os sujeitos sobre como se portar, fazer as poses, quais eram os cenários e os momentos que deveriam ser “exibidos” nos espaços públicos.