Ao mencionar o consumo fotográfico em Panambi - RS, entende-se que antes de falar das encomendas, das quantidades e dos preços das fotografias, é importante relacionar os produtos utilizados no estúdio e verificar os manuais em que mostram ligações com outras regiões, inclusive importando equipamento e materiais.
Estar no interior do Rio Grande do Sul não significava ficar isolados. Os agricultores precisavam vender seus produtos, e os comerciantes e pequenos empresários, por sua vez, precisavam abastecer suas casas comerciais e obter materiais para seus negócios. O ramo fotográfico não diferiu desse contexto.
No acervo do estúdio Foto Klos encontram-se produtos de diversas marcas, muitos importados, como, por exemplo, os negativos em placas secas. As figuras 25 a 29 mostram as embalagens de negativos planos de vidro ou placas secas. As marcas mais frequentes no acervo são Agfa, Gevaert, Erstklassige Deutsche e Perutz: Superomnia, todas importadas da Europa (Alemanha e Bélgica). As figuras 25 e 26 são a mesma marca Agfa, porém com aplicações diferentes. A figura 25 mostra um tipo de chapa seca especial e a figura 26, numa tradução simples e
direta, tem características de “placas/chapas ultra-rápidas” e abertas apenas no laboratório com luz vermelha.
A família Klos conservou no estúdio uma série de itens utilizados na prática fotográfica que indicam a compra de material e sua inserção nos circuitos consumidores, trazendo inovações e seguindo padrões tecnológicos do ramo.
A embalagem de chapas secas Erstklassige Deutsche (Fig. 27) também tem características de “placas/chapas ultra-rápidas”. Na embalagem é recomendado manter o material em local seco e abrir apenas com luz vermelha durante o processo de revelação. Pelo selo e pela etiqueta deduz-se que foi importada através da colônia Ijuhy.208
Figura 25 - Embalagem de Negativos Agfa-Specialrapid
Fonte: Acervo Foto Klos. Foto: Carmem A. Ribeiro. 24/07/2013.
208
Colônia mista que recebeu imigrantes de diversas etnias, atualmente corresponde ao município de Ijuí (região Noroeste do estado do Rio Grande do Sul). Nessa colônia também havia fotógrafos, pelo fato de estar localizada próxima da colônia Neu-Württemberg, muitos produtos eram adquiridos através dessa, inclusive os materiais para o estúdio fotográfico. Mais informações sobre a colônia e os fotógrafos, pode ser consultado: CANABARRO, Ivo dos Santos. A construção da cultura
fotográfica no sul do Brasil. Imagens de uma sociedade de imigração. Niterói (RJ), 2004. Tese
Figura 26 - Embalagem de Negativos Agfa-Ultra-Rapid
Fonte: Acervo Foto Klos. Foto: Carmem A. Ribeiro. 24/07/2013.
Figura 27 - Embalagem de Negativos Erstklassige Deutsche
Fonte: Acervo Foto Klos. Foto: Carmem A. Ribeiro. 24/07/2013.
Os negativos Perutz Superomnia (Fig. 28) são acompanhados de informações das suas características na embalagem, chapa universal, ultrarrápida, sensibilidade à luz, pancromáticas: sensível a todas as cores. Além de “anti-halo” e sensibilidade do negativo DIN (Deutsche Industrie Norme), exige uma compreensão detalhada porque a progressão é logarítmica e não aritmética como nos sistemas ASO e ISO.
Figura 28 - Embalagem de Negativos Superomnia
Fonte: Acervo Foto Klos. Foto: Carmem A. Ribeiro. 24/07/2013.
A Figura 29 – Gevaert – Isomax traz as informações de sensibilidade aumentada, revelação rápida e “anti-halo”, que significa que o negativo tem uma camada que absorve toda a luz que passou pela gelatina e não foi retida pelos sais.
Figura 29 – Embalagem de Negativos Gevaert
Fonte: Acervo Foto Klos. Foto: Carmem A. Ribeiro. 24/07/2013.
Os negativos Kodak (Fig. 30) trazem na sua embalagem a descrição das funções “anti-halo” e ortocromático, que registra os objetos vermelhos e laranjas como se fossem pretos e as outras cores são registradas em matizes cinza. Os
materiais ortocromáticos podem ser manipulados com segurança com luz vermelha ou laranja.
Além dos negativos, há outros materiais importados da Europa ou Estados Unidos da América, porém não foram localizados os recibos ou notas que comprovassem essa informação. Esses produtos eram importados diretamente ou através da colônia Ijuhy, ou do município de Cruz Alta, onde havia um número maior de fotógrafos, que também importavam esses materiais. Outra forma utilizada era trazer de centros urbanos maiores, como Porto Alegre e São Paulo.
Figura 30 - Embalagem de Negativos Kodak
Fonte: Acervo Foto Klos. Foto: Carmem A. Ribeiro. 24/07/2013.
Os manuais de fotografias também proporcionam indícios das relações/negociações que o estúdio Foto Klos mantinha, especialmente com a Europa. O manual Wie Erlangt man Brillante Negative und Schöne Abdrücke? (Como fazer negativos brilhantes e belas tomadas (fotos)?) (Fig. 31), escrito por Georg Mauberriker, editado em 1906, em Leipzig, em língua alemã, foi restaurado e parte da capa original é colada na nova encadernação. O conteúdo são explicações sobre os processos fotográficos, equipamentos e receitas com quantidades de produtos a serem utilizadas para se chegar a determinados resultados na cor da fotografia. O livro traz 26 ilustrações (desenhos explicativos), 11 fotografias e sete imagens em negativos, são 92 páginas de texto e, no final, seis de informes publicitários. É provável que o livro tenha sido adquirido durante um curso de
retoques em negativos de vidro que Adam Klos fez em 1906 na Alemanha e possivelmente o trouxe quando veio para o Brasil.
Figura 31 - Manual de Fotografia209
Fonte: Acervo Foto Klos. Foto: Carmem A. Ribeiro. 15/03/2015.
O livro Praktische Rezeptsammlung (Prática coleção de receitas para fotógrafos amadores e profissionais com especificações de dosagens) (Fig. 32), editado em 1921, em Leipzig, é um guia que traz diversas receitas para bem manipular os produtos químicos nos processos de revelação das fotografias. As páginas, pelo uso e ao longo do tempo, estão soltas, necessitando de restauração e nova encadernação para preservar com mais qualidade essa relíquia editorial da prática fotográfica do século XX. É composto por 208 páginas em língua alemã, das quais as seis iniciais e as oito finais são sobre informes publicitários com ilustrações, nas páginas centrais não há ilustrações, nem fotografias.
209
MAUBERRIKER, Georg. Wie Erlangt man Brillante Negative und Schöne Abdrücke? Leipzig, 1906. 100 p.
Figura 32 - Manual de Fotografia210
Fonte: Acervo Foto Klos. Foto: Carmem A. Ribeiro. 15/03/2015.
O Die Agfa Photographie (Fig. 33), editado em Berlin em 1936, é um manual que explica como utilizar os equipamentos da marca Agfa (máquinas fotográficas, negativos, papéis fotográficos, acessórios para iluminação) e como obter melhores resultados nas imagens de acordo com o tipo de negativo utilizado. São 104 páginas em língua alemã, com várias ilustrações de equipamentos, muitas páginas com muitas fotografias positivas e negativos com instruções de como obter-se os resultados apresentados nas imagens.
Figura 33 – Manual da Agfa211
Fonte: Acervo Foto Klos. Foto: Carmem A. Ribeiro. 15/03/2015.
O Manual Gevaert, 2ª edição (Fig. 34), foi publicado em 1939 pela Record, Rio de Janeiro, possui 67 páginas em língua portuguesa. Esta edição tem por objetivo suprir o público que não teve acesso à primeira edição publicada em 1927, especialmente para o público brasileiro. O conteúdo do manual é dividido em sessões: material negativo, cinema, papéis, material gráfico, fórmulas e defeitos. Na capa, com uma fotografia, e internamente, duas páginas de publicidades de aparelhos fotográficos para amadores. Nesse caso, a empresa intencionou investir na formação de novos profissionais.
Em 1964 ocorreu a fusão da Agfa AG e Gevaert Photo-Producten NV com a Bayer AG e Gevaert, determinando alterações nos produtos ofertados pelas empresas. Em 1981 a Bayer comprou a Gevaert, tornando-se, assim, proprietário da AGFA.
Figura 34 – Manual Gevaert212
Fonte: Acervo Foto Klos. Foto: Carmem A. Ribeiro. 15/03/2015.
Nas décadas anteriores, ambas as empresas eram referência no mercado na venda de câmeras amadoras e profissionais, de produtos fotográficos e acessórios. Ambas tiveram papel significativo na difusão da fotografia tanto na Europa como no Brasil, observa-se isso através da publicidade em revistas, manuais e registros de livros e acervos conservados e pesquisados, em Ijuí, por Ivo dos Santos Canabarro e por Lúcia Teresinha Macena Gregory, em Marechal Cândido Rondon.