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Undersøkelse blant bedrifter som har hospitert i skolen

In document Hospitering i fagopplæringen (sider 102-107)

O que diferencia o “pensamento histórico crítico da pós-modenidade” do “pensamento histórico empático com o vencedor em 1989”, se este título faz sentido, porque a pós-modernidade é avessa à crítica, é a relativa continuidade de seu apego aos valores modernos: ciência, realismo, verdade, conteúdo, documento-prova, ética. O que os aproxima e os torna pós-modernos é a ênfase na força constr utora da linguagem, mas os historiadores críticos preferem não mergulhar tão profundamente na “guinada linguística”. A crítica ao nominalismo exacerbado, ao relativismo irresponsável, ao esteticismo sem conteúdo, à retórica flatulenta tenta recuperar os valores modernos, embora os modifique e os flexibilize até o irreconhecimento. Os historiadores críticos insistem na capacidade da documentação e da cronologia de limitarem o que as interpretações podem afirmar sobre o passado. Alguns radicalizam e sustentam até posições neopositivistas, para fazerem face à onda redescritiva. Contudo, estes historiadores atacam mais iradamente do que teoricamente o que designam belicosamente de “máquina de guerra cética”. Eles perceberam que este discurso sobre a história não é apenas “teórico”, mas uma perigosa ideologia, isto é, a racionalização e universalização de interesses políticos e socioeconômicos concretos e particulares. Eles reconhecem que a história chegou à distopia descrita por Virilio e não querem ser cúmplices, oferecendo às massas uma historiografia mistificadora.

Contudo, sua crítica não pode ser radical, pois estão submetidos à mesma ordem pós-1989, contra a qual não há alternativa historicamente constituída. Todos os povos e indivíduos estão mergulhados na sociedade-mercado livre e submetidos ao mesmo imperativo: integrar-se. Este imperativo se impõe também aos historiadores críticos, que precisam de recursos, equipamentos, postos de trabalho, bolsas, investimentos em pesquisas e publicações. A historiografia também sofre a pressão do mercado na esfera cultural e precisa se integrar oferecendo cursos, projetos de pesquisa, livros e artigos em que este mundo se reconheça... e compre! Este mundo pós-crítico estaria disposto a reconhecer e a financiar uma historiografia realmente crítica?

O primeiro autor que, aqui, defenderá o realismo histórico contra Hayden White é Paul Ricoeur. Em seu livro Do texto à ação, ele formula criticamente a questão crucial: “o que é um texto?”. Se a história é um “artefato verbal”, o que isto significa? E redefine “texto” de diversos modos: a) texto é todo discurso fixado pela escrita, a escrita é a palavra fixada; b) a escrita torna-se “texto” quando não se limita a transcrever uma fala anterior, mas quando a substitui. Nossa relação com o mundo se altera quando o texto substitui e prevalece sobre a fala. Ricoeur compara dois tipos de comunicação: a mediada pela fala e a mediada pelo texto. A comunicação mediada pela fala é completamente realista: o diálogo envolve um locutor, um interlocutor, um lugar, um mundo. A relação é entre voz e ouvido, perguntas e respostas, presença de um e de outro. No diálogo tem-se a “palavra viva”, a

referência é mostrada e o sentido é compartilhado. Na fala, o locutor se dirige a um interlocutor e fala alguma coisa sobre alguma coisa. A fala se refere ao mundo. Ao contrário, a comunicação mediada pelo texto não é uma relação viva e realista. A relação agora é entre autor e leitor. A leitura não é viva como o diálogo, é uma “relação ausente”: o leitor é ausente na escrita, o autor é ausente na leitura. O autor não pode responder ao leitor. O texto não se refere mais a um mundo exterior a ele, é sem referência exterior. O texto oculta e substitui o mundo exterior dentro de seu mundo intertextual. Um texto se refere a outros textos e a rede intertextual vem substituir a realidade. A intertextualidade apaga o mundo exterior (Ricoeur, s.d.).

Para Ricoeur, a ocultação da referência exterior pelo quase mundo dos textos gera duas possibilidades de análise: a) a semiologia estruturalista, que aceita a suspensão que o texto faz da realidade e toma o texto como a própria realidade. Estes estruturalistas explicam o texto não por seu referente externo, que eles não têm, mas por suas relações internas, por sua estrutura e sua relação com outros textos. O texto é aceito/abordado como uma internalização nele da relação ao mundo e do diálogo. O leitor entra em um texto fechado, sem exterior, autorreferente. O texto só tem um dentro. E, para Ricoeur, White tem razão: esta é uma forma possível e relevante de ler um texto, vendo-o como parte da rede de textos, a literatura. Aqui, a explicação estrutural do texto o descronologiza e busca- se nele uma lógica narrativa interna e subjacente, uma relação entre partes/todo. Se, para White, esta é a via única da historiografia, para Ricoeur, é uma via possível e legítima, mas não é a única.

Há outro caminho, que é o que ele propõe para a historiografia: b) a semântica hermenêutica. Esta abordagem do texto não o toma em si mesmo, não aceita a suspensão que faz do mundo, mas o restitui ao diálogo, à comunicação viva. A leitura torna-se, agora, uma “comunicação viva”: o leitor interpreta e se apropria do texto. O texto deixa de ser fechado em si mesmo, porque permite que o leitor se aproprie dele e o transforme, para aplicá-lo ao seu mundo. O texto é aberto ao mundo do leitor, que se apropria dele, interpretando a si mesmo, compreendendo-se melhor, pela mediação dos textos. A compreensão de si é mediada pela leitura, o sujeito vivo não consegue compreender-se imediatamente e só chega a fazê-lo pela mediação dos signos e obras da cultura. A leitura é uma “efetuação”: a interpretação é atual, presente, e, explorando as possibilidades semânticas do texto, entra na experiência vivida do leitor. Assim, para Ricoeur, a suspensão do texto é superada e retorna-se ao referente, ao mundo do leitor. Portanto, no “círculo hermenêutico” (M1/M2/M3), cuja análise desenvolve mais em sua obra “Tempo e narrativa, a história continua sendo um “artefato verbal”, o texto mantém a sua dimensão semiológica, interna, estrutural, mas recupera sua dimensão semântica, refere-se e dá sentido ao “mundo do leitor”, que se apropria ou rejeita o mundo do texto. O mundo do leitor limita a dimensão ficcional do texto, que existe, ligando-o à referência exterior, tornando-o conduzível e controlável realista e cientificamente. A relação entre autor-leitor-mundo- compartilhado é “reflexiva”. Através do texto, o leitor mantém uma relação reflexiva consigo mesmo, com sua experiência particular e com a universalidade da condição humana. Para Ricoeur, a narração é a condição de uma experiência vivida mais humana, porque a narração dá forma e sentido ao tempo vivido, ou seja, exterior, real, concreto (Ricoeur, 1983-1985).

Para Ricoeur, no final do século XX, ocorreu um evento intelectual que repercutiu fortemente sobre a consciência histórica ocidental: a perda definitiva da credibilidade da filosofia hegeliana da história. Chegou-se, então, a uma “fase hermenêutica da Razão”. Agora, era preciso inscrever a

consciência histórica ocidental em um novo horizonte, onde se passa de uma mediação total a mediações inacabadas e imperfeitas. Não se tem mais “o conceito”, mas “a narração”. A verdade não pode ser mais o sistema. A linguagem continua central, mas não é mais a do conceito. O conhecimento da pluralidade da humanidade não permite a totalização dos espíritos dos povos em um só e único espírito do mundo em ação na história. A partir de 1980, apareceu outra organização intelectual. O tema da historicidade se impôs ao da estrutura, com a reabilitação da parte explícita e refletida da ação, uma consciência problematizada, um sujeito não transparente e não soberano, que se exprime em discursos e ações de sentidos instáveis. O novo paradigma é “interpretativo”: da ação, de intenções, vontades, desejos, motivos, sentimentos. O objeto da nova sociologia são as novas formas de sociabilidade. Ricoeur contribuiu enormemente para esta virada interpretativa geral, que transformou a historiografia, com suas obras Tempo e narrativa (1983-1985) e Soi-même

comme um autre (1990). Abandonou-se a posição idealista do espectador absoluto por um retorno

ao mundo da vida, ao pertencimento do intérprete ao mundo social que estuda. A situação do intérprete torna-se princípio de verdade e não mais de ilusão. Uma subjetividade concreta, situada em um mundo social em que ela contribui para organizar o sentido. A volta ao mundo da vida como solo pré-objetivo de toda experiência significativa é uma constante do pensamento de Ricoeur, onde as “interpretações” é que criam e delimitam o sentido (Ricoeur, 1983-1985).

Carlo Ginzburg será, talvez, o “combatente pela história” mais radical contra o ponto de vista histórico pós-moderno. Em várias obras, mas sobretudo em Relações de força e em O fio e os

rastros, rejeita vigorosamente a “máquina de guerra cética”. Para ele, a metodologia da história,

hoje, está distante do trabalho concreto dos historiadores, pois nenhum historiador quer produzir apenas retórica. Para ele, afirmar que não é possível traçar uma distinção entre narrativas históricas e narrativas imaginárias tem graves consequências epistemológicas, éticas e políticas. É sobretudo Ginzburg quem acusa os partidários dessa posição de celebrarem a vitória do falsário, do marqueteiro, da publicidade, dos jogadores de pôquer. É um discurso histórico empático com os vencedores de 1989, que escamoteia a diferença entre juízos de fato e juízos de valor e é um juízo de valor: protege o Ocidente de sua culpa e o torna irresponsável por sua história de conquistas, genocídios, escravidões, holocaustos e terrorismos. Para ele, o limite do relativismo é cognitivo, político e moral. A historiografia crítica não pode ser cúmplice deste fim da história distópico, que quer se livrar de seu passado, oferecendo-lhe reinterpretações elogiosas, porque o historiador não pode decair em “colaboracionista”, transformando em direito uma vitória de fato. A missão do historiador crítico não é legitimar os poderes pós-1989, mas resistir à sua violência, denunciar suas estratégias de autocamuflagem, incomodar os que querem gozar com uma vitória suspeita (Ginzburg, 2002).

Para Ginzburg, estes poderes atuais estão ocupando e controlando a historiografia e tentando utilizá-la como arma de persuasão, de aculturação, dos povos não ocidentais. Só há um meio de impedir esta decadência do historiador: defender as regras do ofício e sua capacidade de estabelecer a verdade do passado ocidental. Ginzburg fará uma defesa radical da “documentação histórica”, que limita o que pode ser dito sobre o passado, restaura o direito e a justiça. Contra o ceticismo em história, ele recorre ao próprio Aristóteles, que está na origem daquele ceticismo. Ele lembra que Aristóteles tratou melhor da história na Retórica do que na Poética. Na Retórica, Aristóteles

sustenta uma tese importante para o historiador: as provas não são incompatíveis com a retórica, são seu núcleo central. A retórica não é a arte de convencer por meio do afeto, mas por meio da prova. A história se aproxima da retórica judiciária: recorre aos entimemas, a signos necessários, a arquivos, a rastros, a conexões lógicas e verossímeis. A história é uma avaliação provada do passado, busca certificar-se de que o evento aconteceu e de que o que se diz sobre ele é a verdade. O trabalho do historiador se aproxima do trabalho do policial e do juiz: a necessidade da prova não é uma ilusão positivista. O processamento da documentação é capaz de distinguir o falso. A história é mais antiga e mais nobre do que a poesia e a filosofia, porque os anais são mais importantes do que a criação literária e as ideias (Ginzburg, 2002).

Para sustentar sua tese sobre a capacidade da história de oferecer a verdade do passado, Ginzburg opôs à poética da história um modelo alternativo de cientificidade que a mantém longe da literatura e do modelo galileano: o “modelo semiótico-médico” ou “paradigma indiciário”. O historiador opera como o médico, o psicanalista, o detetive, o perito na atribuição da autoria de um quadro: observa pistas menores, sintomas, indícios, signos, marcas de gestos involuntários. Como um perito, o historiador busca reconstruir o passado examinando pormenores negligenciáveis, detalhes, vestígios, marcas, rastros. Ele age também como o caçador que examina as pistas deixadas pela presa, as pegadas, ramos quebrados, tufos de pelos, esterco, odores. Para isso, ele aprende com o caçador a farejar, a registrar, a interpretar e classificar pistas infinitesimais. O patrimônio cognitivo do historiador remonta aos primeiros homens, que precisavam interpretar os sinais da natureza, dos animais, dos outros homens, e não podiam errar, se queriam sobreviver. Estas disciplinas indiciárias são qualitativas, conhecem o singular, casos, situações, indivíduos. São conjecturais. A história não pode ser considerada uma ciência de tipo galileano, mas uma ciência social sui generis, ligada ao concreto. O historiador pode até utilizar a comparação e a quantificação, mas sua estratégia cognitiva é individualizante. O historiador é comparável ao médico, porque produz um conhecimento indireto, indiciário, conjectural (Ginzburg, 1990).

Como considerar seriamente os resultados de uma tal ciência qualitativa sui generis? Pode um paradigma indiciário ser rigoroso? Para Ginzburg, a orientação quantitativa e positivista das ciências naturais colocou as ciências humanas em um desagradável dilema: “ou ter um estatuto científico frágil para obter resultados relevantes ou assumir um estatuto científico forte para chegar a resultados de pouca relevância”. Para ele, a história deve optar pelo primeiro caminho, o rigor galileano não interessa a ela. O “rigor flexível” do paradigma indiciário pode ser mais eficaz, apesar de ser um conhecimento tácito, mudo, sem regras explícitas. Entram em jogo elementos imponderáveis tais como faro, golpe de vista, intuição, olho de lince. O talento do historiador consiste em uma “intuição baixa”, zadiguiana, que envolve sagacidade, discernimento, argúcia, que leva do conhecido ao desconhecido. Não se trata de uma “intuição alta”, que seria uma queda no irracionalismo, mas de uma intuição racional, aprendida, sensata, ponderada, que reúne talento, técnica, experiência vivida e no ofício (Ginzburg, 1990).

E m O fio e os rastros, Ginzburg se estende um pouco mais sobre este paradigma indiciário, praticado pela micro-história. A micro-história nasceu da oposição ao modelo macro dos Annales, ao seu estrutural-funcionalismo, à sua documentação serial e comparável, que exclui temas históricos (ideias, política), que exclui os indivíduos como atores econômicos e socioculturais, que exclui

documentos singulares. A série suprime a própria realidade histórica, as anomalias e desequilíbrios são suprimidos. A micro-história analisa uma sociedade, uma época, pelos seus indícios menos notáveis, processa uma documentação circunscrita, ligada a um indivíduo desconhecido. As classes subalternas deixam de ser objeto apenas de tratamento estatístico. A escala reduzida permite compreender as relações entre sistemas de crenças, valores, representações e pertencimento social. A micro-história narra literariamente, mas não é uma narrativa que impõe a continuidade à descontinuidade. É uma narrativa apoiada na documentação, construída através de um contínuo vaivém do micro ao macro, entre close ups e planos gerais, buscando a visão conjunta por meio de exceções aparentes. A micro-história narra literariamente, mas recusa a intromissão da ficção no ofício do historiador. A história não é arte, não é literatura, não é texto. A micro-história aceita que todas as fases da pesquisa são construídas: a seleção do objeto, sua relevância, a elaboração das categorias de análise, os critérios de evidência, os modelos estilísticos e as narrativas de transmissão dos resultados ao leitor. Mas recusa o ceticismo pós-moderno dos anos 1980/1990. A especificidade da micro-história está nesta aposta cognitiva realista (Ginzburg, 2007).

A micro-história não se interessa pelos gestos dos reis, mas pelo oculto, pelo ignorado e esquecido. Ela se interessa pelas produções culturais das classes subalternas, mesmo se a pesquisa é dificultada pela escassez de testemunhos. Quando se acha documentação, é a produzida pelo opressor, pelo inquisidor. Antes, as classes populares não tinham cultura, era “folclore, cultura primitiva, mentalidade coletiva”. A micro-história discute as relações entre cultura popular e classes dominantes e vê a primeira como não submetida à segunda, exprimindo conteúdos alternativos. A cultura não é produzida somente pelas classes dominantes. Quando a cultura popular é escrita, é deformada e filtrada pelo poder e o historiador fica diante de um limite para conhecer a cultura popular oral. Ginzburg deseja fazer uma sondagem direta, sem intermediários, do mundo popular. Há escassez de fontes, porque os excluídos não deixam fontes. A documentação para as classes populares é indireta, mas as classes populares não estão condenadas ao silêncio ou à estatística. Há documentação que nos permite reconstruir personalidades individuais. Ginzburg estende às classes inferiores o conceito histórico de “indivíduo”, retirando-as do exclusivo tratamento estatístico. A micro-história pesquisa a vida de camponeses diferentes, isolados, singulares, mas ao mesmo tempo inseridos em sua classe e contexto, pois só se sai da própria classe e contexto para o delírio (Ginzburg, 2007).

A cultura popular não é uma “prisão de longa duração”, uma mentalidade coletiva, que impede a criação de novos sentidos. Ela é uma “jaula flexível e invisível”, dentro da qual o indivíduo exercita sua liberdade condicionada, realizando suas possibilidades. Seu personagem Menochio era um caso limite e representativo de possibilidades latentes de mudança de seu mundo. Contra os Annales, para Ginzburg, o mundo popular não está condenado ao quantitativo, porque não produz um discurso que expresse uma mentalidade coletiva, remotas tradições camponesas, mas uma “cultura”, uma visão de mundo com fortíssimo componente racional. Ginzburg rejeita o interclassismo das “mentalidades coletivas”. Sua análise é de classes e ele prefere o conceito de “cultura” ao de “mentalidades”. Menochio foi possível graças à Reforma e à imprensa, quando os letrados perderam o monopólio da cultura escrita e os clérigos o monopólio das questões religiosas. Era uma situação explosiva, que levou à radicalização da repressão da cultura popular e dissidente através da contrarreforma. A

cultura de Menochio foi destruída, mas não importa: resistiu e transformou seu mundo. Para Ginzburg, a história possui algumas obras que aplicaram o paradigma indiciário de modo insuperável e, curiosamente, cita também obras de Bloch e Febvre: a cura pelo rei dos doentes de escrófulas, os neologismos de Rabelais são reveladores de fenômenos sociais mais gerais, da visão de mundo de uma classe social, de um escritor, de toda uma sociedade (Ginzburg, 2007).

Para Ginzburg, eis aí o que faz o historiador contemporâneo. Seu esforço é de abordar o passado para mostrar as exclusões, as anomalias, as opressões do presente. E ao mesmo tempo as possibilidades do presente: indivíduos que podem resistir ao pensamento único presentista e criar conteúdos culturais alternativos, fora dos padrões da mídia e “das ideias que se deve defender”, tornando visível a violência do sistema invisível. Aqui, há certa convergência com White: este valoriza a história-ficção porque nenhum indivíduo será vítima de verdades dogmáticas e de seus proprietários, porque poderá criar sua própria interpretação do mundo; Ginzburg valoriza a “cultura popular” também como conteúdos alternativos, criados por indivíduos que produzem sua própria interpretação do mundo. Contudo, em White, a interpretação singular do mundo produzida pelo indivíduo serve como instrumento de uma “resistência” que leva à integração, à busca de posições favoráveis dentro da ordem; em Ginzburg, a originalidade de uma interpretação singular leva a uma “resistência contra a ordem”, crítica, negativa, transformadora, e pode custar a vida do intérprete- combatente: Menochio acabou ardendo no fogo do inferno da Inquisição Católica (Ginzburg, 1987).

Em 1988/1989, a revista dos Annales dedicou um número especial ao tournant critique que a historiografia vivia naquele momento. Para Chartier, os diagnósticos sobre a historiografia eram inquietantes: “tempo de incerteza, de crise epistemológica, de reviravolta crítica”. Os paradigmas antes dominantes, marxismos, estruturalismos, quantitativismo, não eram mais estruturantes, as certezas cientificistas estavam abaladas, aqueles paradigmas entraram em crise. A história se envolveu com a literatura, comprometendo a própria “representação histórica e a nossa capacidade de nos situarmos no tempo”. Agora, os historiadores queriam restaurar o papel dos indivíduos na construção dos laços sociais. Os deslocamentos feitos dos anos 1960 aos anos 1990: “das estruturas às redes de sociabilidade, dos sistemas de posições às situações vividas, das normas coletivas às estratégias singulares”. Para Chartier, a micro-história italiana tornou-se a referência da mudança historiográfica, ao reconstruir o modo como os indivíduos produzem o mundo social, por meio de alianças e confrontos. A história não trata mais de estruturas e mecanismos que regulam as relações sociais, mas de racionalidades e estratégias de comunidades, parentelas, indivíduos. O olhar do historiador se deslocou da regra para seu uso inventivo, para as estratégias e decisões de cada um, com seu poder econômico-social e acesso à informação. Os objetos são tratados em escala menor,

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