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CAPÍTULO DÉCIMO SEXTO

COMO FILIDOR LIVROU A UMA DONZELA, CHAMADA GUARDARIMA, DE UM CAVALEIRO QUE A LEVAVA PRESA

O cuidado que Filidor tinha de buscar seu amigo, ora lhe dava mais gosto nas saudades que no caminho achava, ora de todo lho tirava, por não se poder deter a gozá-las; por isso, de passada, lhe ia somente levando a salva.

Saído daquele rico e saudoso bosque, em que alguns querem dizer que viu e conversou as Musas todas (como depois o ouviram a seu fiel escudeiro, que o contava), foi passando por muitos outeiros e vales até chegar à vista de uma populosa cidade, que, não muito longe da costa do mar, ao longo de um fértil e fermoso rio estava situada. E, caminhando pera ela quando a maior força da calma se deixava cair sobre todos, encontrou em um vale sombrio um robusto e fero cavaleiro, que diante si trazia seu escudeiro, com uma fermosa donzela atada sobre seu palafrém, que, com os ais e gritos tão sentidos que vinha dando, moveu a Filidor querer saber dela o porque assi vinha presa, chorando. Ao que ela satisfez de boa vontade, esperando ser livre por ele, dizendo: “Este cruel e desumano, que aqui vem, senhor cavaleiro, forçadamente me tomou agora a meu pai e mãi e irmãos, junto de uma fonte, onde, saídos hoje daquela cidade, estávamos passando a sesta, bem descuidados que tanta desaventura nos acontecesse, nem tal força nos fosse assi feita sem temor, nem vergonha, como em solitário ermo, em caminho de tanta gente cursado, tão perto de uma cidade, onde toda justiça reside”.

Ouvindo isto Filidor, e entendendo que às abas da mor justiça e vara, não temendo o açoute dela, tem mor atrevimento o injusto, e, ao pé da forca, vendo prender e justiçar a outros, sem nenhum receio, usa o desavergonhado ladrão de muito mais soltura, disse ao cavaleiro, que atrás vinha: “Ah! senhor cavaleiro, quando recebestes a ordem de cavalaria, não prometestes forçar as donzelas, senão defendê-las”. Respondendo o cavaleiro com fúria desnodada: “Quem sois vós, que quereis dar conselho a quem vo-lo não pede”?

Arremeteu a Filidor enrestando a lança nele, que sem a sua estava, por lha levar seu escudeiro; mas com tanta ligeireza, arrancando sua espada, lha desviou com um revés, que lha deitou fora das mãos, feita em pedaços, e voltando sobre ele, que já também fazia o mesmo, fizeram ambos um cru e bem travado torneio, que durou pouco, pelo muito esforço com que Filidor costumava castigar sempre os malfeitores e as sem razões, que via, sendo principalmente feitas contra fracos; o qual, depois de receber um grande golpe em seu escudo do cavaleiro contrairo, lhe tirou outro em retorno tão furioso, que deu com ele, mal ferido, em terra, e, decido de seu cavalo, fingia que lhe queria cortar a cabeça, mas o cavaleiro caído, com grande choro, lhe pediu mercê da vida, a qual Filidor lhe concedeu, dizendo que lha deixava pera com ela chorar seus pecados e, principalmente, aquele que contra aquela donzela cometera, em assi forçadamente a levar presa.

E deixando o cavaleiro, se foi pera a donzela, à qual ele, por sua mão desatando-a, disse: “Parece-me, senhora, que mais preso ia aquele cavaleiro solto de vós que vós presa dele, mas, pois já estais livre, perdoai-lhe a ofensa”.

Guardarima (que assi se chamava a donzela), com uma cor que ao rosto lhe veio, acrescentando sua muita fermosura, sem responder com palavras, abaixou a cabeça, como feita de pejo muda, agradecendo com este sinal o que com a voz não podia e concedendo o que lhe mandava. E andando pouco caminho, encontraram com uns seus pages, e, logo mais adiante, com o pai e mãi, e três irmãos dela, de pouca idade, que vinham gritando, seguindo o cavaleiro que a levava.

E tornando-se todos alegres, quando a viram solta, rendendo por isso as graças a Filidor, deram volta pera a cidade, onde, com muitos rogos e agradecidas palavras, lhe queriam beijar

Capítulo Décimo Sexto 61

os pés, o que ele não consentiu; e assi o levaram, como forçado, a sua pousada, que era mui rica, porque era um nobre e rico cavaleiro o pai de Guardarima, e não menos esforçado, quando a idade o favorecia. Onde se deteve alguns dias, em que foi de todos os de casa bem agasalhado e servido, enquanto andou pela cidade inquirindo alguma notícia e novas de Filomesto (como em todas as partes fazia), sem as poder achar.

Ali entendeu de Guardarima que não lhe pesara de casar com ele, e de seu pai e mãi e irmãos, e de todos os seus, que lha desejavam dar por mulher. Mas Filidor, que trazia o pensamento fora disso, se despediu o melhor que pôde, a cabo de alguns dias. E casou depois Guardarima, ricamente, com um valeroso e rico cavaleiro, muito à sua vontade, como por seu bom parecer e sua muita virtude merecia.

Dizia meu pai que contava e afirmava depois o seu escudeiro, de Filidor, pelo que a seu senhor ouvira, que, se ele neste mundo houvera de casar, não casara com outra senão com a virtuosa Guardarima, mas que não lhe ousara descobrir este seu amoroso propósito, por não estar de todo ainda determinado nele, até não fazer primeiro tantas coisas em armas, que ela tevesse por maior bem (do que então tinha), ser amada dele. E, por assi se calar, se casou ela, pelo longo discurso do tempo, tendo pera si que ele a não amava; donde depois Filidor se veio a contentar mais do seu nome triste, que por sorte lhe coubera em toda a vida.

Daqui dizia também meu pai que este amor, pois era tão bom, não o devera Filidor encobrir por tempo tão comprido, porque o bem não se há-de dilatar a fazer, por não ter depois algum estorvo. O mal si, porque, às vezes, no meio tempo que se espera efeituar, se muda a vontade, pera depois se não fazer, como podemos dizer dos pecados que esperamos, sem nos determinar pera os pôr em obra, e não os façamos, como vem à tentação ou vil desejo, resistindo-lhe varonilmente, pois no meio tempo se pode mudar o mau propósito, vencer o imigo e escapar do perigo. Mas a virtude, claramente conhecida por tal, devemos fazer logo no mesmo ponto que a cuidamos, sem tardança, por que depois não venha de través alguma tentação, ou impedimento forjado de nosso imigo, que nos aparte dela.

Despedido Filidor de Guardarima e de seu pai e mãi, e dos mais de casa (como tenho dito), com grandes saudades e lágrimas de ambas as partes, se foi seu caminho, continuando a tenção que levava de não descansar, sem achar o seu tão amado amigo Filomesto.