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CAPÍTULO DÉCIMO QUARTO

COMO ANDANDO FILIDOR EM BUSCA DE FILOMESTO, FOI TER AOS PAÇOS DE LAMENTOR, ONDE, VENDO ESCRITAS AS SAUDADES DE BERNARDIM RIBEIRO, QUE

POR OUTRO NOME SE CHAMOU BIMARDER, FEZ UNS VERSOS EM SEU LOUVOR

Depois de partido Filomesto desta ilha, sendo buscado por Filidor em todos os povoados e ermos dela, e não o achando (como já disse), se desterrou também daqui após ele, seguindo o seu desterro, que nem nisto (como alguns amigos o não fazem, nem costumam fazer a seus amigos) quis deixar de ser seu fiel amigo e companheiro.

Muitas aventuras acabou Filidor nesta viagem, além de, por bom conselho e esforço, escapar de ser roubado de piratas no grande oceano; que, se todas houvera de contar, vós, Senhora, cansareis de ouvir e eu muito mais de dizer tantas. Por isso, deixando os seus feitos em armas, direi só alguns, saudosos, que passou, indo buscar seu amigo, assi antes que o achasse, como depois de o ter achado.

Tanto que foi desembarcado em terra, começou a caminhar por um ermo, com tenção de rodear o mundo todo até que achasse o seu Filomesto tão amado, sem cuja companhia não sabia viver e, ainda que vivo andasse, nada gostava de tal vida. E como muitas vezes acontece haver azo pera achar cada um seu semelhante, o avarento o partido em que ganha e o dinheiro que deseja, o sensual a sensual, e o justo o virtuoso, e o igual seu igual, e o triste outro triste, andando Filidor, assi, tão saudoso, foi achar neste caminho uma extremada saudade, porque, caminhando por aquele solitário ermo, ainda que povoado de muito e alto arvoredo e regado de algumas frescas ribeiras, não cuidando que n’algum tempo fosse aquele lugar habitado, chegou junto daquelas árvores, antre uma ribeira e um ribeiro, ver uns antigos paços arruinados, uns portais caídos, umas empenas alevantadas, que a hera, dantes frondosa e já por longo tempo seca, ainda sustentava em pé com seus densos e secos abraços, uns grossos peares e umas altas colunas como com ordenados e iguais espaços e compassados intervalos, aberto o talo da cova (?) chamada estria, quase naturalmente estriadas e muito mais abertas, sumidas e gastadas dos dentes do longo tempo, que a artificiosa mão, com o dente do agudo picão ou da aprainante escoda, as havia cavado (119), uns madeiramentos carcomidos e umas paredes derrubadas, uns soberbos edifícios e uma humilde casaria, uma coisa, que grande fora, e a mesma coisa, que já nem pequena era, porque o tempo, comedor e vorador das coisas, e a invejosa antiguidade tudo ia devastando, e com os dentes da idade, pouco a pouco, com lenta e vagarosa morte, tinha tudo gastado e consumido. Ficaram só umas sombras do que fora, sem ter ser, uns paços de fidalgos e senhores grandes feitos choupanas de uns pobres e baixos pastorzinhos, que por aquele mato andavam apascentando seu pobrezinho gado.

Era, enfim, aquele um campo onde Tróia fora, onde foi e se passou em outro tempo muita desaventura. Porque, como Filidor daqueles pastores soube, eram os paços que foram de Lamentor, nos quais faleceram sua Bileza, e onde se criou a fermosa Aónia, que tanta dor deu ao triste Birmarder, e a fermosíssima Arima, por quem Avalor se perdia. Ali estava a ponte já quebrada, sob cuja sombra, inteira, ele cobrou este nome. Ali estava o ribeiro pequeno, pera onde a tristeza corria e a grande e fermosa ribeira, donde tanto mal lhe vinha; mas nem a ribeira, nem o ribeiro tiveram tantas águas que pudessem apagar o amoroso fogo, em que (como Leandro) se viu todo arder o coitadinho de Birmarder, sem alegria.

Junto de uns arcos quebrados, e antre uns teatros e colunas meias caídas, estava em pé uma sala inteira, em que Lamentor, viúvo, muitas vezes pensativo, passeava, em cujas paredes fez pintar Bimarder a sua história, e deixando ali fechado o livro das tristes Saudades, em que, com letras romanas, escreveu com sua própria mão suas peregrinas máguas. Depois da morte de Lamentor, debuxou ali Bimarder também as suas, que ambas ficaram imperfeitas,

Capítulo Décimo Quarto 51

sem se acabarem, porque, ainda que todas as saudades tenham princípio, nenhumas se podem achar no mundo que tenham fim, pera até nisto o ter mais saudoso e triste.

Entrando nesta sala Filidor com aqueles pastores, que tudo lhe mostravam e declaravam, além do que daquelas letras entendia, renovando-se-lhe a saudade que de Filomesto tinha, quis chorar aquela que ali via, por achar, não como avarento (que não era), algum tesouro em arruinados e antigos muros, mas, como saudoso, saudades tão estranhas, estranho em terra alheia. E doendo-se de Bimarder, como de Filomesto se doía, escreveu abaixo daquela saudosa história, que na sala estava pintada e no livro escrita, sem ter fim (como já disse), estes saudosos versos, ao modo dos antigos:

As coisas mui acabadas d’alto quilate e valor caladas sabem melhor, e, se as tais são praticadas, perdem muito do sabor. Assi, Bernardim Ribeiro, posso-te eu bem contemplar, mas, querendo-o praticar, do melhor sabor primeiro mui longe me hei-de apartar. Por isso, quem aqui vir o que eu de ti escrever, se a tua dor lhe doer, verá que a sei mais sentir do que sei dela dizer. Mas, porque mor ração creio que me vem na triste mesa do teu manjar de tristeza, nada me põe arreceio de mostrar minha fraqueza. Grande louvor alcançaram os romanos escritores, mas todos os seus louvores muito longe atrás ficaram do louvor de tuas dores. Que, se eles de suas terras grandes coisas escreveram, os bens os favoreceram; mas tu contas mores guerras dos bens que te faleceram. Fazem tuas saudades, porque são tão saudosas, as almas tanto chorosas, que até as duras vontades tornam brandas e amorosas. De cera têm parecer

as pedras, com te ouvir; tanto sentem teu sentir, que se podem enternecer quando vêem teu bem fugir.

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És príncipe de tristezas, seguem-te todos os tristes; e nos meus olhos sentistes que não há mores riquezas que as que em Bimarder vistes. E, se alguém vos perguntar que vistes em Bimarder, dizei que vistes correr sempre contin’o pezar, sem nunca verdes prazer. Dizei que vistes pezares pesados em a balança, que do mal não faz mudança; vistes tormentas a pares, sem parar nunca em bonança. Vistes milhares de sortes de pezar, sem alegria; vistes viva companhia passar cem contos de mortes pera morrer cada dia. E pois que vistes tormentos, a que sois afeiçoados, sede agora atormentados, olhos meus, dos sentimentos, que vos são apresentados. Vede o mal que trás consigo Bimarder, triste pastor, que, por ser triste amador, vos é mais conforme amigo; ajudai-o a sua dor (sic). Cerca-se, com gram repairo, uma cidade ao redor com bom muro emparador, pera do tiro contrairo ser ele o recebedor. Assi, pera mais seguro das mágoas que dão Amores, em ti param mores dores, e tu só estás por muro de todos os amadores. Nestas empenas erguidas, da seca hera abraçadas, nestas casas derrubadas vi tuas penas caídas de novo ser levantadas. Que, se com tais verdes danos por fim secou teu prazer, tuas penas terão ser empinadas muitos anos, sem tua fama morrer.

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Secam-se os contentamentos, que eram hera de verdura; tudo se torna tristura; fica só com pensamentos o que espera na ventura. Hera é todo o passado, hera é o que há-de vir, por todo o tempo fugir; se o presente é levantado, todo, enfim, vem a cair. Esta empena adivinha que em pena foste nascer, em pena deves viver, com pena e vida mesquinha, sem acabar de morrer. Em pena foste enxalçado, em pena também deceste, em pena sempre viveste, em pena foste criado, em pena te desfizeste. Em pena, seta ligeira, que empenada vai ligeiro buscando o fim derradeiro, em pena grande ribeira, mas chamando-te Ribeiro. Empena de hera tecida seca, que não dá conforto, empena de mar sem porto, empena de morta vida, empena de vivo morto. Inda que a fronte serena, de cabelos adornada,

tenha a ocasião de passada (sic) fica detrás uma empena

de hera seca desfolhada. As heras, cheias de enganos, que grandes bens prometeram na verdura que tiveram; heras se fizeram de anos, mas danos as desfizeram. Esta era (sic) verde era o muito tempo a secou, que estes paços derrubou; e quem bem ou mal espera bem em pena se abraçou. Mas, se em Amor mal ditoso a ventura não achaste, outro mor nome cobraste, com teu saber venturoso em a fama que alcançaste.

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Muitos folgam com teu mal porque, se o não tiveras, tanto bem nos não fizeras; pois tua tristeza tal

nunca a escrever-te puseras. Mas tudo se ordena assim nas coisas de triste estado, que o mal nunca é acabado, e em não ter teu choro fim ficas tu de nós vingado. Os ouvidos em te ouvindo dão novas ao coração, e de prazer ou paixão as lágrimas vêm subindo aos olhos, que canos são. Se as lágrimas fossem águas, que se sofressem beber, bom remédio és, Bimarder, na terra, com tuas máguas, onde fontes não houver. Vai mui alto teu estilo e parece indo rasteiro; sem segundo, nem terceiro pareces o grande Nilo, na Terra sem igual ribeiro. Ao mar da maior mágua vão teus choros a parar; de lá vêm, lá vão tornar; e, por ser mar de tanta água, não o pudeste esgotar. De uma dor em outra dor vão tuas dores crescendo; quem tem uma vai dizendo que não há outra maior, mas a seguinte a vai sendo. Vedor d’águas excelente muitas águas descobriste, mais que outros vedores viste pois sede de tanta gente matas com teu choro triste. Bebem tristes e chorosos, bebem os desesperados, todos ficam consolados, e teus choros amargosos, por mui doces são julgados. Choras tão doce e profundo lágrimas de tal doçura, que se endoçou a amargura das máguas de todo o mundo, com ter com teu mal mestura.

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Tua tristeza amorosa faz saudades sombrias à calma dos tristes dias, porque à vida desgostosa tristezas são alegrias. E na prosa portuguesa não há coisa pera ler tanto, como teu dizer; quem bem ler tua tristeza não desejará prazer. Começaste brandamente, brando vais em começando, e vais cada vez mais brando, como a mais alta corrente que mais branda vai nadando. Se acabaras de correr, já tristezas não houvera, toda a tristeza correra, não houvera que temer, ninguém tristezas temera. Quando se enchem as ribeiras de chuvas, que grossas vêm, todos a bom sinal têm que após de grossas goteiras logo vem sereno bem. Mui grossas águas choraste, grandes ribeiras encheste; mas por mais que assi choveste, como não as acabaste,

nenhum bem nos prometeste. Cumpre-nos viver atento e, como grous, vigiando, pois que não sabemos quando nos virá o sentimento

que nos ficou espreitando. Deixaste-o no caminho; não acabaste a jornada, pois não temos outra estrada; te-lo-emos por vizinho, ou cairemos na cilada. Quando um concílio se faz, vêm de diversos lugares os mais letrados a pares, e, com que cada um trás, compõem regras singulares. Assi dores se ajuntaram; as mores de cada parte foram consigo ajuntar-te, e do que elas acordaram compuseste tu esta arte.

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Só com ler teu sentimento, até às mui rudas gentes fazes sentir o que sentes, tanto vão em crescimento tuas lágrimas correntes. Não anda teu nome inteiro; ou inda que inteiro ande, eu não creio que Amor mande que te chamem a ti Ribeiro, sendo tu rio tão grande. Timantes, grande pintor, morta Ifigénia donzela, pintou irmãos e mãi dela, todos, com sobeja dor da morte da virgem bela. Depois o corpo pintou do pai, e a dor que lhe viu; e, porque nele sentiu que de dor nada ficou, o rosto com um véu cobriu. Assi Bimarder pintaste depois de morta Bileza, irmãos e mãi da tristeza, e o corpo da dor lavraste com estranha sotileza. E porque mor grau não havia da dor, que também sentiste, o fim com um véu cobriste, ou porque assi mais doía, ou porque morreste triste. Anos há que faleceste, mas teu mal não faleceu, sempre a tua dor viveu; e, ainda que tu morreste, teu louvor nunca morreu. Repousa, amador honrado, sem prazer e sem ventura; diga tua sepultura:

aqui jaz o mais provado cronista da mor tristura. Este livro dizem ser só pera tristes o lerem, mas os que prazer tiverem sentirão mor seu prazer, se tantas máguas souberem. Nem pareça ser desvairo, ou coisa pera não crer, bem com mal mor parecer, que um contrairo com contrairo melhor é de conhecer.