5. Discussion
5.1. Uncertainty in the initial stage of communication…
Figura 46 – Mito de Peixes. Disponível em:
<http://www.fietreca.com.pt/horoscopopeixes.htm>. Acesso em 10 mar. 2011.
Um dos núcleos mitológicos do signo de Peixes é a figura de Dionísio, que significa ―nascer duas vezes‖.
Zagreu, tido como avatar de Dionísio, filho de Zeus e Perséfone, nascera sob a forma de uma serpente com chifres e era o preferido do pai, o que causava a ira da esposa ciumenta do deus dos deuses, Hera. Por isso, a mando desta, os titãs raptaram o pequeno deus, picaram-
no e comeram-no, deixando apenas o coração. No lugar onde escorreu seu sangue nasceram romãzeiras.
Atenas apanhou o coração de Dionísio e o levou para Zeus, que o entregou a uma de suas amantes, Sêmele, uma jovem mortal de Tebas, para engolir e gerar Dionísio.
Ao saber de mais uma traição do marido, Hera tenta mais uma vez aniquilar o filho de Zeus. Ela persuade Sêmele a pedir que seu amante se mostrasse para ela com todo o seu esplendor, pois sabia que, como simples mortal, a princesa não resistiria à chama divina e acabaria virando cinza, e foi o que aconteceu. Imediatamente, após a tragédia, Zeus arrancou o feto da barriga de Sêmele e o coseu na sua própria coxa, onde permaneceu até o fim da gestação.
Figura 47 – Zeus mostrando-se deus para Sêmele, jovem mortal. Disponível em: <http://t2.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcTyqHf6K8B1x2OxuleBWFB-Gy6fYeXioLFHId5dNxTuXjQrA>. Acesso em 10 mar. 2011.
Logo após seu nascimento, Zeus entregou seu filho a Hermes, a fim de que este o escondesse da ira de sua esposa, que continuava a persegui-lo até quando adulto. Hermes o confiou a Athamas e sua esposa Ino, irmã de Sêmele, convencendo-os a criá-lo travestido de menina para não deixar pista para Hera.
Já maduro, Hera consegue enlouquecer Dionísio e este passa a vagar pela Terra, até ser curado pela deusa Cíbele, que o instruiu em alguns de seus ritos religiosos. Ele passou, então, a plantar e cultivar as parreiras, assim como ensinar as técnicas do cultivo da uva, sendo o primeiro a fazer isso, por isso é cultuado como deus do vinho.
Figura 48 – Dionísio, o deus do vinho – pintura de Caravaggio (1596). Disponível em: <conversademenina.wordpress.com>. Acesso em 10 mar. 2011.
Por outro lado, por ser filho de uma mãe mortal, Dionísio levou muito tempo para ser aceito nas cidades gregas, e precisou provar aos deuses do Olimpo seus dons divinos. Assim, sempre acompanhado de seu tutor Sileno e de seus seguidores, as Ninfas, os Sátiros, Pã e os Centauros, estes criaram o cortejo dionisíaco, passando a presidir rituais de experiência (êxtase) religiosa ―pura‖, ou seja, independente do culto a algum deus, o que se configurava como ofensa e ameaça à hieraquia dos deuses do Olimpo, que sustentavam o poder político da época.
Figura 49 – Culto a Dionísio. Disponível em: <jornale.com.br/wicca/?p=538>. Acesso em 10 mar. 2011.
Dionísio passou por várias cidades, acompanhado por seu cortejo, proporcionando-lhe alegria e felicidade através dos efeitos do vinho, que era tomado em excesso, por isso, eles enchiam-se de coragem e ousadia e perdiam seus medos. Os rituais em homenagem a Dionísio chamavam-se de Orgias ou Bacanais, os quais tinham como ápice o esquartejamento de um animal sacrificado, que era comido cru pelos devotos, os quais acreditavam estarem praticando um ato de comunhão ao ingerirem a encarnação do deus.
Figura 50 – Culto a Dionísio. Disponível em: <aboutnoods.blogspot.com/2009/06/da-serie-cois>. Acesso em 10 mar. 2011.
Apesar do seu lado espiritualizado, Dionísio era um deus extremamente cruel e selvagem, punindo quem a ele se opusesse. Certo dia, o rei Penteu, viu Dionísio e não se agradou de sua aparência e de seus atos e autorizou sua prisão. Contudo, Dionísio fez o rei ficar louco e as Ninfas, embriagadas com vinhos e sob o êxtase religioso, o esquartejaram e o devoraram (a exemplo do que os titãs haviam-lhe feito).
Como se vê no mito, Dionísio era o deus da metamorfose (seja por sua androginia, seja pelos efeitos do álcool), do êxtase (espiritual e sexual) e do entusiasmo (pelo efeito dos anteriores). Sua androginia está ligada ao fato de ter tido ―duas mães‖, além de ter sua gestação concluída na coxa de seu pai divino, o que, por si só, não o tornaria um deus por excelência.
Os cultos dionisíacos, através da bebida (ou drogas), da música, canto e dança e da loucura (espiritual e sexual) representam a emersão da obscuridade que povoa o inconsciente, materializado no êxtase religioso, que apontava um deus completamente insano e cruel. Além disso, esses ritos envolviam o esquartejamento de animais, e destes bebia-se o sangue e comia-se a carne como o de um deus, o que, tanto representava uma prática de comunhão ao ingerirem a encarnação do deus, como em outro contexto ocorre no ato de comunhão da Igreja Católica, em que se bebe o sangue e se come a carne do Cordeiro, do Peixe-Cristo (Jesus, o Salvador) em memória de seu sacrifício pela Humanidade; como também, no culto a Dionísio, essa prática era uma representação violenta de destruição daqueles que não o cultuavam, como ocorreu com Penteu.
Sobre isso Greene diz que:
É a selvageria inata da natureza, a multidão que mata o Cristo, o javali que despedaça Adônis, a Mãe Morte que exige a carne de crianças e os corações arrancados dos peitos das suas vítimas de sacrifício. Mas a natureza também
pode ser amorosa e benigna, assim como Dioniso. A doçura e o êxtase de seus ritos, que incluíam tanto a brutalidade do desmembramento de animais como a pungente unidade com o deus, incorporavam esse espírito ambivalente da natureza, o daimon, que é tanto indiretamente destrutivo quanto promete a vida eterna (GREENE, 1989, p. 119).
Tanto o caos interior vivido pelo sujeito pisciano, quanto a aspiração por uma vida religiosa se originam no mesmo local: no inconsciente coletivo, assim como, essa batalha entre uma vida espiritual e a entrega a cultos destrutivos está presente no inconsciente profundo do indivíduo de Peixes, de onde nasce sua forte sensibilidade, fragilidade e empatia pelos outros.
As características do nativo de Peixes, apresentadas por Klim (2006) e pelo horóscopo da Revista Cláudia (2009), trazem alguns traços de semelhança com o mito de Dionísio, como se vê:
O signo de Peixes é o senhor da sensibilidade do zodíaco e o seu nativo, o pisciano, o mais benemerente e caridoso de todos os seres, representação do caráter generoso e caritativo do filho do último dos signos. Na vida, Peixes simboliza o atendimento humanitário, o assistencialismo, a enfermagem e a mediunidade. Regidos por Netuno, o planeta da integração universal, da inteligência sensitiva, do psiquismo, os piscianos representam na evocação dos seres vivos, na natureza, o momento em que, cumprida uma existência, o ser se prepara para o renascimento. Peixes tem raro senso de compaixão, altruísmo e misticismo. O pisciano é influenciável, idealista e imaginativo. Mostra timidez, responsabilidade e criatividade. É dormente e honesto (KLIM, 2006, p. 343).
(CLÁUDIA, 2009, p. 22)
As características apresentadas expõem o lado sensível de Dionísio para as práticas religiosas, o renascimento (KLIM, 2006, p. 343), e para a introspecção, a autoavaliação e a
autoestima (CLÁUDIA, 209, p. 22); bem como o assistencialismo e atendimento humanitário,
assim como, a evocação dos seres vivos, culminando em seu sacrifício como forma de renascimento, o que revela seu lado místico, idealista e imaginativo.