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Uncertainties related to the EC/OC analysis

3 Results and Discussion

3.1.6 Uncertainties related to the EC/OC analysis

A aliança com o Estado é, segundo Stark e Bainbridge o meio pelo qual uma organização religiosa pode conquistar monopólio efetivo em sociedades cosmopolitas e complexas239. Sabemos que a conquista do monopólio religioso pelos budistas está bastante distante da realidade brasileira, em que a maioria da população é católica, mas, ainda assim, podemos dizer que a organização Fo Guang Shan busca os meios pelos quais o Budismo possa ser reconhecido como uma religião importante nos locais onde se instala. É fato que a Fo Guang Shan se utiliza de alianças políticas para se instalar em ambientes “extra-chineses”, embora não possamos afirmar que isso se faz como

237 Cf. STARK, op. cit., p.140 238 Cf. CHANDLER, op. cit

estratégia de crescimento, pois, segundo a organização, isso se dá porque o Budismo pode se expandir com a proteção e o apoio do governo ao mesmo tempo em que pode oferecer vantagens por meio da influência educativa dessa religião.240

Ainda segundo Stark e Bainbridge, política e ciência limitam severamente o poder da religião quando se tornam sistemas culturais de grande escopo241. Ao que tudo indica, a Fo Guang Shan tenta evitar essa limitação por meio das atividades oferecidas. A tentativa de manter alianças políticas, bem como o uso da educação (científica) como meio de expandir o Budismo, parecem maneiras de se relacionar positivamente tanto com a política quanto com a ciência; isso só é possível quando a organização mostra competência para tal. A tentativa pode ser considerada como um reflexo da preferência por uma tensão média com a sociedade, o que é comum em relação aos mais poderosos de qualquer corpo religioso, conforme os autores.

O oferecimento de um curso numa “universidade” está mais próximo da concepção ocidental de conhecimento do que da oriental. Se o mesmo curso fosse oferecido em um “monastério” em vez de em uma “universidade”, possivelmente atrairia menos atenção dos brasileiros. O desejo de aprovação por parte do Ministério da Educação e Cultura demonstra uma tentativa tanto de adaptação aos padrões da cultura ocidental, quanto de reconhecimento pelo Estado. Esse reconhecimento só é possível como conseqüência de uma relação que deve ser estabelecida entre os líderes da Fo Guang Shan e o Estado. Por outro lado, o reconhecimento da sociedade brasileira também seria um grande demonstrativo da competência do curso e, para obtê-lo a organização se volta para a população financeiramente carente e oferece atividades gratuitas. A oferta de tais atividades resulta na gratidão da população beneficiada, funcionando também como um proselitismo indireto, e no provável reconhecimento pelo restante da população. O que se espera dos futuros monges é que sejam capazes de organizar atividades que resultem em benefício para a população carente e provoquem a aprovação pela sociedade brasileira (tanto do curso de formação clerical, quanto da organização religiosa). A capacidade de trabalhar em prol da organização, bem como do Budismo, resultará na abertura da rede previamente comentada, pois, sendo aptos a organizar projetos sociais voltados à comunidade, os futuros monges assumirão o papel de divulgadores da religião budista, ainda que isso ocorra indiretamente, e serão responsáveis por atrair potenciais devotos para a organização.

240 YUN, Humanistic Buddhism, op. cit., p. 106. 241 Cf. STARK & BAINBRIDGE, op. cit. p.301

No que diz respeito ao nível de tensão entre a organização religiosa e o meio social, podemos reconhecer pelo menos quatro maneiras que a Fo Guang Shan encontra para mantê-la e ainda assim receber o reconhecimento da sociedade: atendimento à comunidade por meio da educação, laços políticos, oferecimento de caridade e ecumenismo.

“É voto do grande mestre atender à comunidade local por meio da educação”,

afirma o discípulo Sullivan Silk Pouza.242 Segundo ele, o mestre Hsing Yün, pretende, por meio de cursos, atender a vocação da comunidade mais próxima. Sendo assim, os cursos de MBA oferecidos em sua universidade na Califórnia, por exemplo, são adaptações do que uma organização budista pode oferecer considerando a demanda estadunidense. O próprio curso de formação de monges ministrado no Brasil que acontece na Universidade Livre Budista pode ser considerado uma tentativa de se adaptar aos moldes culturais ocidentais. Como Pouza afirma, em Taiwan, quando as pessoas procuram um monastério budista, estão geralmente dispostas a se tornar monges. Já no Brasil, um monastério causaria maior estranheza do que um curso oferecido numa “universidade”.

Outra maneira que a Fo Guang Shan utiliza para a receber o reconhecimento da sociedade é a criação de laços políticos. Nos Estados Unidos, por exemplo, há evidências de relações com o ex-vice-presidente Al Gore; o mestre também foi convidado pelo presidente, George Herbert Walker Bush, para sua posse, e recebeu dele uma carta elogiando a luta do grupo para diminuir o sofrimento de todos os seres humanos quando a Buddha´s Light International Association (BLIA) foi criada, em 1992. O prefeito de Wollongong, na Austrália, doou 80 hectares para a criação da Universidade Nan Tien. Em Bronkhorstpruit, África do Sul, o governo ofereceu um pedaço de terra para construção de um templo e de uma universidade se o mestre, em troca, o ajudasse a atrair investidores para a cidade.243 No Brasil há a amizade dos membros organização Fo Guang Shan com o então governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, além de trocas entre o templo Zu Lai e autoridades locais de Cotia.244 Isto se dá porque os organizadores da instituição acreditam que laços com políticos podem amenizar entraves burocráticos na abertura de centros e templos e da própria universidade. Para as autoridades locais de Cotia, a troca é também fecunda devido ao

242 Entrevista realizada em 10/04/2006. 243 Cf. CHANDLER, op. cit.

fato de o templo receber muitos visitantes, o que reforça o interesse sobre a cidade – com repercussões econômicas positivas (caso do turismo).245

Outra maneira relacionada ao esperado reconhecimento pela sociedade é o oferecimento de benefícios de assistência social. Nos Estados Unidos, por exemplo, a distribuição de cestas de alimentos a famílias necessitadas em datas como Natal ou Dia de Ação de Graças e o lançamento de diversas iniciativas de relações públicas são práticas comuns da Fo Guang Shan.246 No Brasil, onde o conceito de Terra Pura reflete a necessidade maior de engajamento social - atraindo assim simpatizantes e funcionando como um desafio de adaptação -, presenciamos a mesma tentativa de beneficiar a comunidade local carente. Atividades como doação de mantimentos a asilos e favelas da região, atividades com idosos e crianças carentes, e auxílio a desabrigados atingidos por enchentes ou outros fenômenos naturais247 popularizam e dão oportunidade de uma alternativa religiosa para pessoas oriundas de classes sociais menos abastadas – além, é certo, do evidente benefício social.248 A administração de tais atividades é o que se espera dos alunos da ULB; além de aprenderem sobre o Budismo e buscarem desenvolvimento espiritual, devem saber como beneficiar a sociedade local determinando a compaixão almejada pelos adeptos do Budismo

Mahayana.

O ecumenismo é a outra maneira que a organização Fo Guang Shan encontra para ser reconhecida socialmente. Um dos aspectos do Budismo Humanista é sua concepção de Terra Pura adaptada aos valores ocidentais e sua atitude ecumênica, substituindo desta forma uma identificação étnica por um trabalho prático, geralmente de forma mais secularizada.249 Tal atitude ajuda na presença da Fo Guang Shan em países ocidentais. O ecumenismo incentivado não se restringe às diferentes linhagens budistas, mas pretende também viabilizar um diálogo inter-religioso. O encontro do mestre Yün com o Papa João Paulo II e com o Dalai Lama em 1997, e sua visita ao presidente da Malásia (país oficialmente islâmico), em 1998, são exemplos disso.250 O fato de os alunos da ULB terem aulas com professores de outras linhagens budistas, que não o Ch´an ou Terra Pura, demonstra o desejo de uma maior abertura ecumênica, bem como de adaptação à cultura local sem gerar muitos conflitos.

245 Cf. SHOJI, op. cit., p.93

246 Cf. CHANDLER, op. cit.

247 Cf. TEMPLO ZU LAI in: <http://www.budanet.org.br/> (op. cit.). 248 SHOJI, op. cit., p.99

249 Ibid., p.98