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2. Estat de la qüestió

2.3 Una experiència a Mallorca:

A mistura de cores rasuradas: amarelo, preto e branco estampa o espaço da página em que está o corpo, também construído com uma fusão similar de colorações: vermelho, azul e branco. Na parte superior desta colagem há a figura de um sol, aliado a imagem de um corpo estendido, compósito, insubmisso e sem a forma corpo-violão, composto por uma cabeça diferente do resto de sua estrutura, envolvida por traços, linhas e outras rasuras, além de estar contornada por um espaço que sofreu rupturas.

Em relação à cabeça, apenas o perfil do rosto é visível, sua integridade é ocultada, pois ela perdeu inteiramente sua silhueta, já que foi deslocada de uma outra estrutura. Seu rosto é jovem, olhar fixo, aparentemente pensativo. Essa inibição parcial da face é uma recorrência em algumas colagens, como vimos. Aliás, essa cabeça (rosto, olhar, boca) é um vestígio que ganha mais evidência nas colagens mais adiante. A subversão sofrida na cabeça alterou a ordem e a composição de sua nova superfície, promoveu outras associações. Da cabeça ao corpo, houve mais mudanças na forma, que confere um aspecto mais compósito, disforme ao corpo estendido.

O aspecto estendido, mesclado e insubmisso desse corpo (dos membros superiores aos inferiores) mostra a dilatação da estrutura, se comparada às colagens anteriores. Nesse corpo as associações internas (misturas de cores) mostram que ele foi ―atacado‖, modificado, refeito – algo que acentuou a alteração de sua nova ―identidade corporal‖. Essa corpulência estendida, disforme, fractal,desenhada-pintada é mais alongada, desproporcional, não apenas nos braços e pernas, inclusive é bem próximo a um dos membros inferiores que estão os rascunhos verbais: ―NÃO PODES TOCAR OS CÉUS COM AS MÃOS‖ – justamente aquilo que está posto na imagem, pois o corpo reproduz a (im) possibilidade de realização do sujeito.

Com isso, ―NÃO PODES TOCAR...‖ parece nascer da impossibilidade: a impossibilidade de ―TOCAR O CÉU COM AS MÃOS‖. No dicionário de símbolos Chevalier e Cheerbrant (1996) afirmam que o céu é um signo que remete aos ideais divinos, à criação do universo e aos muitos mistérios a ele relacionados. Também podemos pensá-lo como expressão da transcendência, da elevação, por estar acima de nós, é um corpo celestial inalcançável em nosso terreno material, nesse sentido é muito difícil ―tocá-lo‖. Na colagem isso se reflete mais na tentativa de um ―corpo impossível‖ realizar essa ação. Insistamos ainda nesse anseio manifestado pelo verbo que enfatiza uma suposta queixa: a confirmação da impossibilidade de ―tocar os céus‖, pois a imagem está estendida, surgindo a dificuldade de tocá-lo. O céu é infinito, ao passo que o corpo já está em sua finitude, salientando a consciência da morte, pois é notável sua forma rebelde, disforme e insubmissa. Na colagem o céu não é presente como referente, contudo, é enfaticamente reproduzido no verbo, e reforçado no corpo estendido, compósito e rebelde que se ―debruça‖ ao tentar alcançá-lo.

Nesta imagem, há traços (em tons de preto) que envolvem o rosto e surgem como se fossem talvez o início de uma grade que contorna a cabeça do sujeito, quem sabe se tornando mais um empecilho para ele se aproximar do céu. Esse sujeito é ―audacioso‖, rebelde e insubmisso, pois ―não pode tocar” com as mãos, mas tenta veementemente com o corpo que se alonga, isso está registrado em sua posição inclinada.

Além daquilo que já foi dito a respeito do céu, acrescentamos que este signo também está relacionado a ideia de salvação, talvez por isso a queixa do sujeito, como se este corpo estendido e disforme dele dependesse para garantir sua ―salvação‖ e não sofrer mais corrosões em sua estrutura.

Além do céu, não presente como referente, outro símbolo surge ao lado do corpo, um sol rasurado. O sol aparece composto e atrelado a uma atmosfera negra que o reveste, está bem próximo à cabeça, direcionada ao céu. A mistura de tons (amarelo e negro) tenta ofuscar a verdadeira luminosidade dessa estrela.

Ainda a respeito disso, na antiguidade o sol estava associado à força e ao poder cósmico. Em relação às questões inerentes à criação do universo ou tradições religiosas ele foi considerado símbolo divino, assim como o céu. Nesta colagem o sol está ilustrado na parte superior da imagem e ao lado ou inclinado na direção daquilo que busca alcançar o corpo insubmisso.

Céu e sol, pelo brilho e significados intensos que carregam, são talvez os astros que inspiram o corpo a tentar alcançar aquilo que tanto almeja, e quem sabe até mesmo a própria posição ocupada por esses corpos celestes (sempre acima) surja como inspiração. Os raios do sol, apesar de terem suas partes ofuscadas, transmitem talvez a esperança do sujeito de “tocar o céu”.

O corpo insubmisso expande suas formas, no entanto, mostra as partes dos ―braços‖ e ―pernas‖ pintados, mas ocultados nas ilustrações anteriores, entretanto, não exatamente com a mesma fidelidade que o corpo deveria ter, os representa em desfio. As mãos, mesmo desconfiguradas, não desempenham a função de tocar. Assim, a dilatação sofrida pelo corpo elimina seu formato original, como disse Moraes: ―decompor, dispersar: [...] serve para designar a ideia de caos, supondo a desintegração de uma ordem existente‖ (Idem). Uma dispersão que é alcançada nesta colagem, pois Martins vai desenhando um corpo insubmisso, estendido e disforme que suprime a real integridade do sujeito.

É na ―decomposição de unidade‖, como destacou Moraes, que o corpo insubmisso representa o saldo da crise da consciência prenunciada. Martins não só conservou a aparência estendida, compósita, fractal e o detalhe, mas os imbuiu de rasuras e restos postos na representação. Este é o estado incompleto, inacabado em que nos chegou a sua colagem: com efeitos da destruição da figura humana gasta pelo tempo. Assim, a colagem de hoje se inspirou no corpo passado, e serve como lastro da ―fragmentação da consciência‖.

Do corpo original restam apenas os fragmentos. Os efeitos das associações e dilaceramentos reelaboram corpos insubmissos, pois o que importa é ―alterar a forma humana, a fim de alcançá-la aos limites de sua desfiguração [...]‖ (Idem).

Como já dito, esta versão corporal é mais estendida, disforme e compósita, pois numa ―era de integridade perdida‖ o corpo já está em pedaços, pois a cabeça e o corpo se separam de sua origem primeira, e ―ressurgem‖ inacabados e recompostos por dilaceramentos.

Essa dilatação que o corpo passa a ilustrar é importante para pensar as próximas colagens, em que surgem corpos mais desintegrados, que desfazem a estrutura já corrompida, esvaziando intensamente suas partes. Assim, essa forma ainda sofrerá outras mudanças. Com

base nisso, os traços neste corpo são indícios de um processo de extensão de uma estrutura (em transição) que se dilata ao tentar alcançar o céu.

O corpo verbal dessa estrutura: “tocar o céu” mostra um diálogo intertextual com a

quadrinha “Céu”, de Manuel Bandeira, como veremos a seguir:

Céu A criança olha para o céu azul. Levanta a mãozinha.

Quer tocar o céu.

Não sente a criança Que o céu é ilusão: Crê que não o alcança, Quando o tem na mão.

(BANDEIRA, 1996)

Nesta quadrinha, também existe o anseio de “tocar o céu”, que parte de uma criança.

Dessa maneira, o céu é visto como ilusão, algo que pode ser tocado, mas não exatamente de forma material.

Assim, “A criança olha”para o céu, movida talvez pelo encanto desse corpo celestial, pois ergue suas mãozinhas (utiliza partes de seu corpo) com a finalidade de “tocar o céu

azul”. No entanto, a criança, com sua pureza, inocência, não entende que foi iludida por seus

sentidos, pois o “céu é ilusão”, e alcançá-lo é um sonho.

Nesse sentido, a criança vive uma ingênua contradição ao crer que não pode alcançar o céu com suas mãozinhas, pois já o “tem nas mãos”. O conteúdo verbal da quadrinha lembra aquilo que a colagem anuncia na interação imagem e texto, apesar de a colagem não ilustrar a figura de uma criança e sim de um corpo estendido que não pode “tocar o céu com as mãos”.

Na colagem o corpo estendido também vê o céu como alvo, mas sua estrutura compósita, fractal e deteriorada pelo tempo e aliada as suas mãos inertes inviabilizam sua ação. A criança e o corpo ficam apenas a cultuar o céu, que é ilusão, pois não pode ser alcançado de forma concreta, porém pode ser tocado em outra perspectiva. Essas confusões de sentido comprovam a ilusão das mãos.

Na colagem, o corpo estendido é o cerne dos detalhes e da multiplicação de suas possibilidades, tendo em vista a capacidade de combinações, pois a imagem é fruto da técnica

de colagem, que efetiva desmontes e reelaborações, precipitando um intenso processo de deformação.

Martins é um artista que consegue demonstrar em suas colagens um retrato da perda do corpo inteiro, mostrando o surgimento de corpos indomáveis e insubmissos, salientando a primazia do tronco ao rosto. A colagem a seguir reitera aquilo que este corpo anuncia: corpos- sem-tronco.