Em A modernidade literária no Pará: os suplementos literários da Folha do Norte Júlia Maués apresenta o contexto literário em que os jovens literatos estavam inseridos em Belém, na capital do Pará a partir de 1940.
O escritor Haroldo Maranhão comandou o Suplemento Literário do jornal Folha do
Norte (SL/FN entre 1946-1951) que proporcionava aos leitores o contato com os principais destaques da literatura brasileira daquele momento. O SL/FN foi um suporte para os jovens literatos, pois fomentou o despertar crítico de uma geração de escritores paraenses que aos poucos se desenvolvia. Ao entrar em contato com a modernidade literária (produções artísticas da época) os jovens literatos absorviam conhecimento.
O SL/FN significou para os escritores da província a oportunidade de manifestar os anseios de jovens sonhadores sedentos por conhecimento. Para identificação, seguem nomes de alguns dos escritores presentes neste suplemento:
Max Martins, Ruy Barata, com poesias, Álvaro Lins,Otto Carpeaux, Lúcia Miguel Pereira, Sérgio Buarque de Holanda, Sérgio Milliet, Alceu de Amoroso Lima, Almeida Fischer, Paulo Rónai, Aurélio Buarque de Holanda, Roger Bastide e Wilson Martins, no âmbito da crítica (MAUÉS, 2002, p. 24).
Diante de tais acontecimentos, a produção poética da literatura brasileira na década de 40 e a crítica literária foram fortemente subsidiadas pelo jornal que as difundia. O SL/FN proporcionava uma diversidade de textos e poesias aos escritores, ao mesmo tempo em que se discutia no campo literário uma justificativa para o título ―geração de 45‖. Na interpretação de
João Cabral de Melo, ocorria uma ruptura direcionada a poética de 22 e de 30 naquele período.
Maués (2002) destaca que as gerações literárias anteriores foram influenciadas pela perspectiva de Válery, que enfocava preocupações metafísicas, questões surrealistas, políticas e sociais. Mário Faustino e João Cabral de Melo(poetas amadurecidos) partilhavam suas experiências com os poetas mais novos.
Neste contexto, o lirismo difundia-se significativamente ao propor discussões em torno do eu, da sociedade e da natureza direcionando-os a dimensões temáticas exploradas nas poéticas de Carlos Drummond e Murilo Mendes explorando temáticas voltadas à realidade. Manuel Bandeira também teve seus poemas publicados no referido suplemento, como por exemplo, Cinza das Horas(1917), Carnaval(1919), entre outros:
seus poemas eram cultivados com reverência pelos mais novos, e, sua própria figura exercia um fascínio típico de poeta de prestígio, acrescido do fato de ele não se isentar da participação em entrevistas, [...] dando depoimentos valiosos aos seus contemporâneos e procedentes (Idem, p.76).
Assim, Bandeira ainda compartilhava suas novas poesias em renomados suplementos literários. Cabe acrescentar que Drummond estreou no (SL/FN) com “Canção amiga”. A partir de então, este poeta publicou diversos poemas que privilegiavam a temática social. Dessa forma, um retrato da realidade dolorosa se evidenciava em Sentimento do mundo
(1940).
Nas páginas desse suplemento era possível encontrar o convívio de gerações. Convivência que despertava insatisfação nos escritores, que carregavam o lema de ―continuadores‖ da renovação da literatura brasileira, pois ―na época, os próprios poetas da ―geração de 45‖ incitam os mais novos à descoberta de um ritmo, de uma música, de uma sabedoria popular, de uma adequação entre forma e substância particular‖ (Idem, p. 81). Para João Cabral de Melo, a ―geração de 45‖ não apresentava uma perspectiva temática comum, tornando-se notório entre os escritores os vários tipos de expressão lírica. No Pará, os novos poetas direcionavam seus olhares a novas descobertas.
Diante disso, a posição geográfica em que se encontrava o Pará e os poetas locais não lhes permitiu o contato com os ―modismos polêmicos‖ da época. Dessa maneira, esses poetas direcionavam seu olhar aos poetas modernos, pois ―em nossa província a questão da literatura, nessa década, passava pela afirmação de uma forma moderna de fazer poesia que ainda chocava os saudosistas das estéticas anteriores‖ (Idem, p. 94). Nesse enfoque, a relação que os
poetas da província mantinham com a poesia brasileira permitia a discussão das últimas publicações que envolviam a filosofia e artes em geral.
A coletânea do SL/FN intitulada “Dez Poetas Paraenses” de 1950, contou com a
participação de Ruy Barata, Alonso Rocha, Benedito Nunes, Cauby Cruz, Floriano Jaime, Haroldo Maranhão, Mário Faustino, Maurício Rodrigues, Max Martins e Paulo Plínio Abreu (Idem, p. 96). Dentre os poetas citados, destacamos o avanço literário
saltando do parnasianismo-simbolismo ao modernismo, a poesia de Max Martins ingressou nessa orquestração de contrastes com a publicação de O Estranho um ano depois da saída de Claro Enigma de Drummond, para todos um marco decisivo que superava as tentativas dos próceres da ―geração de 45‖ na direção de uma poesia universal, ligando a experiência do cotidiano aos temas permanentes da condição humana‖ (Idem, p. 97).
Em meio a essa perspectiva, a obra de Martins também absorveu importantes influências da modernidade literária, absorvendo contextos e tendências literárias que o influenciaram em suas publicações.
A década de 40 foi um período de muitas agitações no terreno da literatura brasileira e paraense que culminou no desenvolvimento da poesia e crítica literária. Um momento que foi amparado por uma intensa produção jornalística que estava em busca das mais expressivas e recentes evoluções e notícias poéticas a fim de difundi-las. Diversos jornais do país (nacionais e locais) dedicavam-se a publicar os suplementos literários. Uma produção que foi discutida não apenas por críticos e literatos, mas pelo próprio público leitor de uma boa poesia, reitera Maués.