3. Dose-respons- og skadefunksjoner
3.1 Dose-responsfunksjoner .1 NAPAP
3.1.4 UN ECE /CP felteksponering
A análise das propriedades dos verbos andar e ir e a descrição, ainda que sucinta, das características aspetuais das perífrases formadas com estes verbos, numa
29 Como se mostrará nos pontos 3. e 5.3. da Parte II, a fronteira de uma dada situação pode ser definida
pela coocorrência com sintagmas preposicionais responsáveis pela sua delimitação. Sobre o valor das preposições em PE, ver, entre outros, Costa (2004b; 2010; 2011; 2014).
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perspetiva sincrónica e diacrónica, conduzem-nos, necessariamente, à descrição dos dados sob o ponto de vista dos processos de gramaticalização a que teriam estado30 sujeitas estas formas e/ou construções.
Efetivamente, verifica-se que muitas das propostas de análise das perífrases constituídas por verbos de deslocação, nas diferentes línguas românicas, se fundam nos processos de gramaticalização sofridos por estas formas. Por exemplo, Raposo (2013: 1228) refere que «os verbos andar, chegar, ir e voltar perdem a sua componente ligada ao movimento: em frases como andas a perfumar-te muito, ela
chegou a ligar o computador, vou pensar no assunto ou voltei a engolir em seco, estes
verbos não denotam movimento físico, introduzindo antes noções temporais ou aspetuais que perspetivam de várias maneiras as ações descritas pelo verbo pleno».
Tendo por base a análise de ir Vger e andar Vger31 em textos dos séculos XIII a XV, Correia & Brocardo (2010) e Brocardo & Correia (2012) evidenciam algumas diferenças nos processos de gramaticalização destas construções.
Segundo as autoras, «há indícios de processos diacronicamente diferenciados para as construções com ir e andar, sendo aparentemente mais tardia a gramaticalização da construção com este último verbo». (Brocardo & Correia 2012: 126). Nas fases estudadas, as duas construções marcariam já valores diferenciados e só coincidiam nas situações em que concorriam para a marcação do valor de iteração.
Uma das características que apoia a hipótese da gramaticalização de ir é a persistência (fator apontado como essencial nos processos de gramaticalização). Segundo o princípio da persistência (cf. Hopper & Traugott [1993] 2003), em estágios avançados dos processos de gramaticalização é possível identificar, nas formas gramaticalizadas, traços semânticos das formas origem, facto que pode interferir na sua distribuição gramatical.
As diferenças apontadas entre andar (que tem o significado lexical intrínseco de deslocação não orientada) e ir (que tem o significado lexical intrínseco de deslocação orientada) parecem permitir verificar a persistência do significado lexical original
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Sobre a hipótese da gramaticalização das formas das perífrases e das próprias construções perifrásticas, ver Parte I, ponto 4.
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inerente a ir (enquanto verbo pleno) na perífrase ir Vger, uma vez que com o sentido de deslocação se funde o sentido de direcionalidade, o que desencadeia a marcação do valor progressivo com esta construção.
Assim, enquanto as construções que integram o verbo andar marcam a construção de um valor meramente durativo, permitindo uma interpretação associada à ideia de deslocação temporal abstrata (pontualmente, a interpretação pode ser ambígua), o valor aspetual progressivo, caraterizável por uma deslocação gradual em direção ao telos, é marcado exclusivamente, em PE, pela perífrase ir Vger.
Em termos gerais, a descrição dos verbos franceses aller e venir que se encontra em Mortier (2005), Havu (2005), Becker (2005), Sdiri (2016), entre outros, adequa-se, com as devidas adaptações, ao português. Estes autores, tal como Correia & Brocardo (2010) e Brocardo & Correia (2012), defendem que estes dois verbos, que pertencem à classe dos verbos de movimento, exprimindo a deslocação de um lugar A para um lugar B, em sentidos opostos, passam a funcionar como marcadores temporais-aspetuais: «[l]orsque ces deux verbes sont employés avec un sens et une syntaxe différents ils n’expriment plus l’idée du déplacement spatial. Ces changements sont représentés par le processus de la grammaticalisation» (Sdiri 2016: 1). Na perspetiva destes autores, quando gramaticalizam, os dois verbos perdem o sentido de deslocação espacial e exprimem uma deslocação temporal abstrata.
A descrição das ocorrências do verbo ir integrado em estruturas complexas permite destrinçar as situações em que ir pode ter uma interpretação de deslocação no espaço e aquelas em que a interpretação, derivando desta32, passa a ser a de deslocação abstrata no tempo33.
No caso do português, em construções em que ir ocorre no presente do indicativo, associado a um predicador no infinitivo, essas construções funcionam como marcadores do valor temporal de posterioridade34:
32Cf. Zieliński (2011: 80): «[L]a perífrasis < ir + gerundio > suela ser interpretada por su lectura progresiva (...). La idea de la progresividad propria de todas las perífrasis con el auxiliar ir emana de la
noción de movimiento espacial lento, progresivo».
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Algumas situações são ambíguas, podendo ser compatíveis com as duas interpretações.
34 Sobre o valor temporal de posterioridade marcado pela construção ir Vinf, em PE, ver, entre outros,
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(24) Depois do trabalho ele vai visitar-te.
Por outro lado, quando ocorre em construções verbais complexas, com a preposição a e o predicador no infinitivo (ir a Vinf), ou com o predicador no gerúndio (ir Vger), desencadeia a marcação de valores aspetuais:
(25) Ela vai a cantar pelo caminho. (25') Ela vai cantando pelo caminho.
Em (25) e (25'), como referem Brocardo & Correia (2012), as perífrases denotam ainda um valor ambíguo de movimento e apenas nestes casos as duas construções são equivalentes.
Assim, ao contrário do que é referido na literatura sobre o uso das duas construções em PE e PB, a análise de exemplos com outras classes aspetuais de predicadores, proposta por Brocardo & Correia (2012), põe em evidência que as perífrases verbais formadas com o verbo ir não são meras variantes dialetais, uma vez que não são intermutáveis. O uso das duas perífrases - < V prep Vinf > e < V Vger > - não depende das variantes, uma vez que marcam valores diferenciados, não sendo intersubstitíveis.
Esta diferença é visível através da manipulação de alguns exemplos, que permitem mostrar que, em PE, a substituição de ir Vger pela construção ir a Vinf gera agramaticalidade:
(26) Os meses foram passando e o senhorio, que dizia ter mais de trinta casas, foi desculpando o atraso da vistoria com a burocracia da Câmara de Coimbra.
[CETEMPúblico – Ext 305214-soc-98b-2]
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(27) Mas, já com Barbosa a central e Matic no meio campo, o Chaves ia encontrando a melhor forma de jogar, tendo mesmo dominado por completo os últimos 20' da primeira parte .
[CETEMPúblico – Ext 503674-des-98b-1]
(27') * (...) o Chaves ia a encontrar a melhor forma de jogar (...)
(28) Quando os alemães - seus inventores - os deixaram de fabricar, tornaram-se em objecto de culto e os seus preços foram subindo.
[CETEMPúblico – Ext 447285-soc-92b-2]
(28') * (...) os seus preços foram a subir.
(29) "O sr. deputado subiu àquela tribuna para fazer de caixa de ressonância das posições infelicíssimas que o governo vem tomando sobre esta matéria nos últimos dias".
[CETEMPúblico – Ext 1179549-pol-94a-1]
(29') * (...) que o governo vem a tomar sobre esta matéria nos últimos dias. (30) A bagagem de todos foi revistada uma primeira vez, e fez-se a divisão por grupos, para distribuir pelos 230 camiões, carrinhas e velhos autocarros escolares que foram chegando.
[CETEMPúblico – Ext 1043761-pol-94b-1]
(30') * (...) velhos autocarros escolares que foram a chegar.
Independentemente dos diferentes valores construídos, em todos estes casos ir Vger não pode ser substituído por ir a Vinf.
Baseadas nestas evidências, Correia & Brocardo (2010: 45) concluem que a alternativa entre ir a Vinf e ir Vger, em PE, «is only accepted precisely when ir preserves its lexical value (...) showing an apparent tendency, in EP but not in BP, for a formal distinction of the two types of construction with ir» (cf. (25) [Ela vai a cantar
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Assim, em PB o gerúndio é obrigatório para a expressão das duas interpretações, isto é, quando ir se associa à ideia de deslocação no espaço, sendo marcado o valor chamado 'perambulative' por Bertinetto (2000)35, e quando ir é marcador do valor aspetual progressivo.
Diferentemente, em PE, para a expressão do valor 'perambulative' podem alternar as construções ir a Vinf e ir Vger ((25) e (25')), enquanto o valor progressivo apenas pode ser marcado com a construção ir Vger ((26) a (30)).
O que foi referido anteriormente poderá suportar a ideia de que o valor progressivo no português contemporâneo se deve, formalmente, a diferentes construções, nomeadamente as perífrases que integram os verbos andar e estar, analisados por Oliveira ([2003] 20067) como operadores aspetuais, ou as que são formadas com o verbo ir, quando este coocorre com o gerúndio dos predicadores.
3. Instabilidade terminológica e conceptual nas propostas de análise das perífrases