A discussão anterior e a descrição dos dados numa perspetiva sincrónica e diacrónica possibilitam compreender melhor a diversidade de propostas de análise que se encontram na literatura, nomeadamente nas gramáticas históricas, como se mostra seguidamente, uma vez que as mesmas lidam, claramente, com instabilidades terminológicas e conceptuais.
Ao proceder à revisão da literatura e como ponto de partida para o trabalho que aqui se apresenta, foi feito um levantamento das propostas de descrição das estruturas verbais que configuram as perífrases verbais em gramáticas históricas do
35 Na aceção de Bertinetto (2000: 36-37), o valor 'perambulative' ocorre em enunciados em que o
processo de gramaticalização sofrido pelo verbo ir não se encontra concluído, uma vez que o verbo não perdeu ainda o seu significado lexical: «the semantic bleaching shown in most cases by the auxiliary “go” does not prevent it from preserving its original meaning in specific contexts, where this periphrasis plays the role of a “perambulative” construction».
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português36, verificando-se que há uma grande disparidade na forma como são analisadas estas construções.
Das explicações e dos exemplos apresentados, conclui-se que, na maioria dessas gramáticas, o termo 'perífrase' é usado para designar as formas compostas dos verbos.
Em Nunes ([1919] 19899) e Williams (1938 19616), por exemplo, a referência às perífrases verbais apenas se encontra associada à explicação da formação do futuro e do condicional. Nas restantes gramáticas, os autores apresentam uma descrição um pouco mais alargada das construções que consideram perífrases verbais, explicitando algumas diferenças entre elas, bem como recorrem a um número mais significativo de exemplos. No entanto, a sua análise não permite, ainda, estabilizar o conceito de perífrase. É o que se verifica nos textos de Reinhardstoettner (1878) e Michaëlis de Vasconcelos (1946 s.d.), em que o termo 'perífrase' é sinónimo de forma composta ou forma analítica, sendo que os autores apenas dão como exemplo os tempos compostos dos verbos. Na gramática de Huber (1933 1986), é também dos tempos compostos que o autor se ocupa, se bem que, sem que apresente exemplos ou desenvolva o assunto, mencione como auxiliares os verbos ser, estar, ficar, andar e ir.
Uma aceção mais lata pode ser encontrada nas gramáticas de Said Ali ([1931] 19643) e Câmara Jr. (1975), uma vez que os autores usam a designação de perífrase, quando fazem referência a composições de duas formas verbais, com ou sem intercalação de preposições. A abordagem apresentada por estes dois autores é mais detalhada, com maior número de exemplos.
Ainda assim, Said Ali (op. cit.) propõe uma análise comum a todas as formas analíticas, defendendo que não se devem distinguir tempos compostos e conjugação perifrástica. Este autor (op. cit.) considera que, nos dois tipos de estruturas, há composição de duas formas verbais, o verbo nocional e o verbo 'relacional'37, sendo que a aceção própria do verbo relacional sofre apagamento ao constituir-se como
36 As gramáticas que considerei, tendo em conta a data da sua publicação, foram as dos seguintes
autores: Reinhardstoettner (1878); Cornu (1888); Leite de Vasconcellos ([1911] 19664); Nunes ([1919] 19899); Said Ali ([1931] 19643); Huber ([1933] 1986); Williams ([1938] 1961); Michaëlis de Vasconcellos ([1946] s.d.); Câmara Jr. (1975).
37 Esta designação é usada por Said Ali ([1931] 19643) relativamente aos verbos flexionados que
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suporte do verbo nocional. Esta mesma posição é defendida por Câmara Jr. (1975), que faz referência a escalas de gramaticalização, ou seja, a diferentes graus de significação lexical do verbo auxiliar.
Como se verifica, a proposta destes dois autores remete já para a questão da gramaticalização, questão que é fundamental, não apenas para a classificação dos verbos que integram as diferentes estruturas verbais complexas, como também para a explicação do seu funcionamento, bem como para a estabilização destes conceitos.
Esta consulta das diferentes gramáticas históricas, não permitindo diferenciar estruturas verbais complexas, nem definir quais podem ser classificadas como perífrases verbais, foi importante, uma vez que pôs em evidência que não é possível fazer um trabalho sobre perífrases sem nos depararmos, constantemente, com o problema da classificação do primeiro verbo destas construções (verbo auxiliar/ verbo semiauxiliar).
A designação de verbo auxiliar é comummente usada, mas a classificação desse tipo de verbos está longe de ser uma questão pacífica, tratada de forma uniforme38. Globalmente, um verbo é considerado auxiliar, quando integra uma estrutura complexa ou analítica em que coocorre com outro verbo. Esta aceção genérica assenta na posição dos verbos flexionados que integram diferentes construções e não na sua classificação apoiada por critérios específicos.
Por este motivo, nos pontos seguintes deste texto, apresenta-se uma reflexão sobre a gramaticalização dos verbos e sobre a questão da auxiliaridade39, o que permitirá distinguir construções verbais complexas, designadamente, perífrases verbais, tempos compostos, locuções verbais.
38 Na sua obra sobre verbos auxiliares, Pontes (1971), por exemplo, refere que falar dos verbos
auxiliares implica falar de diversas combinatórias de verbos, ou de diferentes complexos verbais e, em Português, «[e]ncontramos sequências de até quatro verbos encadeados (…). Se considerarmos a construção passiva, podemos ter cinco.» (Pontes 1971: 45). Face a esta diversidade de estruturas, para definir o que são verbos auxiliares, defende a autora que é necessário saber o que se entende por ‘tempos compostos’, por ‘locuções verbais’ e por ‘conjugação perifrástica’.
39 Ainda que a discussão em torno da classificação dos verbos (auxiliares/semiauxiliares) não seja
relevante dentro do quadro teórico em que se inscreve este trabalho, não poderei deixar de abordar esta questão, dado que aparece como central em muitos dos estudos sobre perífrases verbais. Por uma questão prática, ao longo deste trabalho uso a designação de verbo ‘auxiliar’ em sentido lato, de acordo com a globalidade da literatura, sem atender às propriedades que caracterizam estes verbos, ou à distinção entre verbos auxiliares e semiauxiliares, de que darei conta no ponto 5 - Parte I.
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