Conquanto a religião tenha preenchido, em algum momento, o vazio do ser humano e conseguido atuar como uma força que lhe permitia suportar e vencer as dificuldades da existência (DURKHEIM, 1989, p. 493), hoje existe outras realidades, fenômenos e até objetos que cumprem a função que outrora era tarefa da religião. O mundo contemporâneo está pronto para produzir respostas, ainda que improvisadas e provisórias, para os questionamentos do ser humano, que, ao que nos parece, continuam girar em torno da busca pelo significado e o sentido da vida. Como advertia Rubem Alves,
O que ocorre com frequência é que as mesmas perguntas religiosas do passado se articulam agora, travestidas, por meio de símbolos secularizados [...] Promessas terapêuticas de paz individual, de harmonia íntima, de liberação da angústia, esperanças de ordens sociais fraternas e justas, de resolução das lutas entre os homens e de harmonia com a natureza, por mais disfarçadas que estejam nas máscaras do jargão psicanalítico/psicológico, ou da linguagem da sociologia, da política e da economia, serão sempre expressões dos problemas individuais e sociais em torno dos quais foram tecidas as teias religiosas. (ALVES, 1999, p. 12)
Faz-se necessário reconhecer no ser humano uma condição de busca, de necessidade e de carência, uma preocupação com o sentido último das suas ações, assim como o medo diante do desconhecido, daquilo que foge ao seu controle. Mas, também há de se reconhecer que, na sociedade atual, esta busca de sentido tem sido redimensionada (suscitada), sendo mais o resultado dos parâmetros que tal sociedade estabeleceu como valores do que, de fato, uma necessidade propriamente decorrente da condição humana. Nesse sentido, a própria sociedade contribui para a construção de novos vazios e novas necessidades para as quais ela também provê as respostas – praticamente, um círculo vicioso. Porém, sabe-se que seu tempo de validade é relativamente curto (LIPOVETSKY, 2005, 2007), tornando o ser humano escravo de uma busca incessante.
A mídia apresenta-se como um bom exemplo dessa substituição da função religiosa; é ela que hoje parece sustentar os imaginários e os ideais de vida das pessoas, e por sua mediação é que se idealiza outro mundo, uma outra realidade e que se continua a sonhar (também sonhos efêmeros). Porém, mais do que um sonho como ato positivo que gere fé no futuro, assim como motivação para agir além de sua realidade particular, o ser humano na sua existência “midiatizada”, ocupa-se a sonhar em alcançar os padrões absurdos e insustentáveis de poder, beleza ou fama, os quais aumentam sua frustração, seu egoísmo e sua solidão.
Acerca dessa relação entre o religioso e o ser humano de nossos dias, Jean Paul Willaime afirma, ao falar especificamente da privatização do religioso, que há um enfraquecimento do suporte comunitário – outrora tão evidente e, ao mesmo tempo, tão valorizado – da vida religiosa na medida em que a mídia permite acolher em seu seio um pregador, sem que seja necessário reagrupar-se com outras pessoas nos bancos de uma igreja (2002, p. 53). As formas de experimentar o sagrado parecem estar em constante movimento graças a uma forma de vida cada vez mais midiatizada.
Enquanto o sujeito hodierno, herdeiro da Modernidade, estabelece as ligações religiosas que respondam à sua necessidade particular, a instituição se depara hoje com a tarefa de “fidelizar” os seus adeptos, no intuito de assegurar sua continuidade e, assim, sua própria existência. Diante das múltiplas instituições produtoras de sentido que concorrem entre si na sociedade contemporânea, a instituição religiosa se defronta com o desafio constante de melhorar a cada dia (o mais rápido possível) sua oferta religiosa num mercado cada vez maior. De modo geral poderíamos afirmar que a religiosidade que o ser humano experimenta e assiste nessa era tem as características afirmadas por Marcel Gauchet:
[...] una religiosidad difusa que no se preocupa de darse una forma o de encuadrarse en el marco de las religiones históricas constituidas. Ése podría ser de manera amplia el rostro futuro del fenómeno religioso. Pasamos de la edad política de las religiones a su edad antropológica (2009, p 296)
Para tanto, pode-se arriscar em dizer que a religião que hoje é experimentada constitui-se em produto de um processo histórico bastante complexo. Curiosamente, essa mesma realidade é que também a torna imprevisível. Assim sendo, afirmar categoricamente o que ela será no futuro pode ser um equívoco. Mais que isso: uma desconsideração da sua natureza, do seu caráter
profundamente humano. Em meio a um tempo no qual a religião perde sua plausibilidade política e social, mas que ainda consegue se manter e até aumentar as crenças individuais, esporádicas e diversificadas nos sujeitos, é preciso nos situar na função que ela desempenha na sociedade atual para tentar conceber o rumos e suas consequências mais imediatas para a sociedade.
Na verdade, o poder de determinar a função dos sistemas religiosos está hoje no sujeito e não na religião institucional. Sendo o sujeito quem determina até que ponto a religião que ele pratica, ou na qual ele acredita, funciona para si e em que medida. Isso, considerando que a religião na sociedade contemporânea converteu-se um bem de consumo, uma das tantas coisas que se acham no mercado; ela tornou-se produto e, como tal, pode ser trocado muitas vezes de acordo com a necessidade, ou melhor, com o gosto e o desejo do cliente. Não obstante, a religião ainda é procurada para legitimar as ações e os estilos de vida de muitas pessoas, ela ainda consegue influenciar e até regular, não de uma maneira total, mais significativa, os cotidianos dos sujeitos religiosos. Quer dizer, ela ainda é uma matriz provedora de significações para os indivíduos, e por isso, conserva certa relevância na sociedade.
É importante frisar também que na atualidade, ainda que possa parecer um paradoxo, há um fortalecimento dos fundamentalismos religiosos, quer dizer, uma preocupação de parte das instituições por manter o poder religioso através da recuperação da tradição e do reforço dos dogmas e doutrinas. Em decorrência disto, para Cupitt, a religião se assemelha a um incomodo sobrevivente do passado, “uma forma local e tradicional de simbolizar, atuar e combativamente afirmar a própria identidade étnica distinta e pessoal, diante de ameaça de assimilação pelo anonimato abrangente da nova cultura global” (1999, p. 9). As implicações da nova realidade global estão levando muitas pessoas a procurarem refugio no canto seguro de um sistema religioso autoritário, que possa lhes oferecer uma alternativa absoluta “diante das agonias da escolha numa cultura cada vez mais plural” (DA SILVA, 2007, p 12).
A dimensão religiosa é uma realidade hoje “reduzida” à consciência humana, não deveria, portanto, afetar a realidade objetiva, mantendo-se no âmbito da subjetividade e na intimidade da prática individual e esporádica dos sujeitos, que nem sempre se consideram religiosos. Os símbolos religiosos e mesmo as doutrinas não tem o mesmo significado nem os mesmos usos que na antiguidade, eles são constantemente (re)significados e usados junto a um sem-número de outros símbolos tomados daqui e dali para satisfazer o sentimento religioso, que parece prevalecer.
Conforme mencionado, a religião é hoje uma realidade reduzida à consciência humana, não devendo então afetar a realidade objetiva. Porém, ela resiste, adapta-se à realidade vigente e mostra-se poderosamente mutante, negando-se a partir. Nesse contexto, novos movimentos religiosos e novas roupagens de grupos outrora já existentes parecem não apenas surgir, mas também florescer. Nesse cenário religioso encontram-se, dentre outras tantas, o neopentecostalismo enquanto movimento religioso característico desse tempo. De tal forma que, para seguir adiante avaliando seus aspectos e suas características específicas, de modo particular o sincretismo, importa aprofundar a reflexão sobre a contemporaneidade e, por conseguinte, como este se conjuga a ela a fim de se manter vivo diante do diversificado mercado religioso existente – tarefa esta que será realizada logo adiante.