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Iniciamos esta parte do trabalho com a proposição indiciária, a qual oferece uma cha- ve hermenêutica peculiar para o texto joanino. Considerar os detalhes literários e sua rela- ção com a macrohistória conduz as atenções para a peculiaridade textual. Após algumas insinuações indiciárias, transitamos no Antigo Testamento a fim de averiguar a recorrência

da palavra sinal na tradução da LXX e as possibilidades interpretativas em que este ter- mo é inserido que pode ter influenciado no imagético dos autores joaninos.

Com isso, apresentamos articulação dos sinais do Quarto Evangelho, de modo que in- tuímos dialética entre eles, sendo que o quarto sinal, da multiplicação dos pães e peixes, texto recorrente nos sinóticos, é o centro dos textos, pois encontramos nesta perícope a iden- tidade da comunidade joanina que é marcada pela partilha do pão.

Por fim apresentamos uma breve análise literária e Crítica da Recepção, dialogando com alguns autores que apresentam a pluralidade interpretativa contida no texto, bem como a tangência com outros textos, nosso exemplo foi uma comparação literária entre o texto joanino e o texto copta de Judas, o qual relata uma postura atípica de Jesus diante da temáti- ca da comensalidade.

Aplicar as técnicas literárias na narrativa de João 6.1-15 ajudou a observar o texto por um ponto de vista diferenciado, com outros pressupostos metodológicos. Integrar a exegese com as demais abordagens literárias possibilita outros e novos métodos de leitura, como tentamos apresentar nesta parte da dissertação.

O primeiro ponto a se destacar desta pesquisa é a centralidade do sinal da multiplica- ção dos pães e peixes em relação ao outros sinais relatados no Evangelho de João. Essa hi- pótese se formou ao passo que se fez o estudo da estrutura do Quarto Evangelho, suas eta- pas de criação, suas tangências, convergências e divergências com os textos sinóticos, mes- mo com as tensões inerentes ao contexto joanino, destacamos que o texto foi formado de maneira orgânica e paulatina.

Propomos, como segundo ponto conclusivo, que o Bloco da Paixão é a chave herme- nêutica do bloco dos Sinais, de modo que há dialética e correlações textuais, pois um bloco se conecta com o outro, há um acordo sincrônico que rege toda a composição narrativa. Nesta harmonização sincrônica, os sinais são interpretados a partir da Paixão, de modo que os sinais, isto é, a vida pública de Jesus, impacta diretamente na concepção da Paixão.

O terceiro ponto que destacamos é que a perícope da multiplicação dos pães e peixes auxilia na formatação identitária dos leitores joaninos. Essa informação surgiu após a abor- dagem exegética do texto de João 6.1-15. Aferimos que o capítulo 6 de João é autônomo, tanto da perícope anterior como da posterior, entretanto as temáticas destes textos cami- nham de modo complementar e progressivo.

A tradução revelou, como quarto ponto, a peculiaridade do autor joanino, ao escolher seus personagens (Felipi, André e a criança), além da opção específica de alguns termos. Nesta perícope identificamos uma estrutura mais elaborada, isto é, o começo, meio e fim bem definidos; existe um padrão para fechar e iniciar a perícope.

O quinto ponto que enfatizamos é que por mais que haja harmonização temática com os textos sinóticos, o texto joanino é ímpar em sua construção e desenvolvimento nar- rativo. Constatamos isto na comparação sinótica. A exegese apresentou como as palavras, frases e expressões, escolhidas pelos autores joaninos, estão conectadas com o contexto so- cial, político e religioso do Quarto Evangelho.

Seguindo a proposta indiciária de Gizburg, o sexto ponto que destacamos é a relação do Quarto Evangelho com os textos da Bíblia hebraica. Analisamos o Antigo Testamento e a recorrência do termo sinal na LXX e apontamos algumas similaridades com o texto do Quarto Evangelho, e, principalmente, com a multiplicação dos pães e peixes.

Como sétimo ponto a se destacar, apresentamos o tema da comensalidade como aspec- to identitário das primeiras comunidades cristãs. Propomos, então, que participar ou parti- lhar da refeição era sinal de pertença de uma comunidade, não um rito de iniciação. A partir disso, apresentamos uma breve análise literária de João 6.1-15, em diálogo com algumas referências teóricas, dentre elas o Evangelho de Judas, o qual apresenta, no começo de sua narratiiva, o tema da comensalidade.

Concluímos que o Evangelho de João, na narrativa da multiplicação dos pães e peixes, segue um arquétipo temático recorrente e presente no imagético das primeiras comunidades cristãs. Aferimos que o texto da multiplicação dos pães e peixes no Evangelho João é um texto paradigmático no Bloco dos Sinais, por tratar de temas que afetam direta e indireta- mente sua realidade. Intuímos que a ruptura proposta por este texto classifica a identidade dos leitores, bem como da comunidade joanina.

O sinal se torna o meio narrativo adequado para sintetizar a identidade pautada no te- ma da comensalidade.

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