7. RESULTS
7.3 M ULTIVARIATE ANALYSIS
Desde os anos 1960, quando o Brasil iniciou a construção de grandes empreendimentos hidrelétricos, com reticentes estudos ambientais (Schaeffer, 2008), os órgãos governamentais e a sociedade civil organizada têm procurado cumprir protocolos com vistas a mitigar futuros impactos sociais e ambientais, mesmo assim questionamentos colocam em relevo certos problemas detectados nesses projetos.
Ao analisar tal situação em termos locais, a presente tese toma como base o contexto mato-grossense, que, de acordo com a Figura 7, apresenta uma estrutura
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energética de consumo concentrada em derivados do petróleo em detrimento de fontes renováveis.
A realidade mato-grossense também é palco de algumas questões pertinentes, a exemplo dos fatos envolvendo a usina de Manso, localizada próxima à capital Cuiabá. Antes, porém, é preciso destacar que nos dias atuais as usinas hidrelétricas não são mais projetadas visando apenas à geração de eletricidade. As propostas de recursos hídricos são analisadas pela capacidade concedente e este avalia a inserção das hidrelétricas na bacia hidrográfica e no Sistema Elétrico Interligado. Daí, as usinas com reservatórios devem-se explorar o uso da água e o aproveitamento do potencial hidráulico, ou seja, na construção de um reservatório, são avaliados no projeto os usos múltiplos da água, como, controle de enchentes, navegação, saneamento básico, lazer, irrigação, entre outros (Reis et al., 2012).
A usina de Manso atende os quesitos acima e, em função de sua característica multiuso, foi denominada de Aproveitamento Múltiplo de Manso ou simplesmente APM-Manso. Planejada na década de 1970, além do seu objetivo intrínseco também teve como objetivos auxiliar na irrigação, turismo, pesca e lazer, além de regular as
Figura 7: Estrutura do consumo final energético segundo a natureza da fonte no Estado de Mato Grosso (NIEPE, 2010).
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enchentes nas cidades mato-grossenses de Nobres, Rosário Oeste, Acorizal, Várzea Grande, Santo Antônio de Leverger, Barão de Melgaço e Cuiabá. Porém, o período entre a sua construção até o fechamento de suas comportas (1999) foi marcado por interrupções e questionamentos da população, associações de pescadores, comunidade científica e organizações não-governamentais (Moura, 2006).
Com o fechamento das comportas em 30 de novembro de 1999 iniciou-se um novo ciclo hídrico da bacia do rio Cuiabá, que resultou em conflitos com usuários ribeirinhos, aos sistemas de abastecimento, pescadores e horticultores. O enchimento do reservatório foi concluído em fevereiro de 2002, com alta precipitação na época, atingindo o limite máximo de 287,50m (Lima, 2001; Shirashi, 2003), desde então, a APM-Manso encontra-se em operação e disponibilizando vasão para o sistema hídrico Manso/Cuiabá
(Moura, 2006).
Nesse primeiro ano de operação, no entanto, áreas historicamente secas foram alagadas, provocando inundações extemporâneas, com consequentes transtornos ambiental, social e econômico. Fato que gerou o estabelecimento de um regime operacional desvinculado do Sistema Nacional de Energia. Por conseguinte, verificou- se que a produção de energia, gerando vazão, tem mais influência no regime hídrico do rio Cuiabá do que as precipitações na bacia no período de operação (Moura, 2006).
Nos meses de novembro e dezembro, a vasão do rio Cuiabá na série histórica de 1948/1998 foram maiores do que o período de operação da APM-Manso de 2002/2005, que ocorre também nos meses de março e abril, indicando retardo de inundação e esvaziamento precoce da planície pantaneira, influenciando no nível da água e estabelecendo um menor período do “Pulso de Inundação” resultando em desordem ao
delicado sistema ecológico do pantanal com implicações negativas ao processo
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2012) não fora observado, porque a região pantaneira setentrional, com sua característica de alagável, não está sofrendo apenas os efeitos do aquecimento global, mas também pela tentativa de mitigar o problema através da produção da energia limpa da APM-Manso.
O município de Barão de Melgaço, distante 125 km de Cuiabá, capital do Estado de Mato Grosso, juntamente com o município de Poconé, faz parte da sub-bacia do Rio Cuiabá e é denominada de Baixo Cuiabá. É uma região de planícies cuja ecodinâmica das terras baixas depende das terras altas (Moura, 2006), tornando necessário um aproveitamento sustentável que considere um paradigma que englobe dimensões políticas, econômicas, sociais, tecnológicas e ambientais e que tenha por pilar a visão sistêmica do caminho humano, nas perspectivas das ciências naturais e do comportamento em uma abordagem multidisciplinar na busca do equilíbrio (Reis et al., 2012).
Assim, Claude Lévi-Strauss (1996) descreve sua percepção sobre o pantanal: “...de avião, essa região de rios serpenteando por entre as terras planas cria o espetáculo de arcos e meandros onde estagnam as águas. Em terra ... torna-se uma paisagem de sonho...” (p. 151). Muito embora, sua experiência tenha se passado no trecho sul-mato- grossense do pantanal entres os anos de 1935-6, narra sua percepção do ambiente em duas dimensões, do avião e da terra, de tal maneira que sua interação com o ambiente apreende símbolos que pertencem a uma realidade pantaneira sem dicotomias geográficas.
Talvez também esteja a realidade ambiental pantaneira descrita nas palavras do poeta pantaneiro Manoel de Barros, “No pantanal não se pode passar régua. Sobremuito quando chove. A régua é existidura de limite. E o pantanal não tem limites”. Duas perspectivas resultantes de dimensões comprometidas, uma com a ciência e outra com a
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experiência do espírito, com a incerteza, mas ambas se confundem. Para Kuhnen (2011), a percepção ambiental não está circunscrita apenas ao ambiente, este não é somente um elemento exterior, mas uma interação com o mundo, que é um só e visto por vários olhares e disciplinas, assim, a vivência sensório-motora e as interações sociais, possibilitam construir avaliações, impressões e significados sobre uma determinada realidade geofísica.
Talvez, ainda, essas sutis emergências, mediadas pela percepção, resgate a lembrança da conexão humana com o meio ambiente natural. Para tanto, as ações, que começam com o indivíduo, com viés sustentável devem satisfazer às necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem suas próprias (Schmuck & Schultz, 2002). Portanto, a preocupação com o meio ambiente para o sustento da vida humana no planeta não pode ser estacionada em um tempo e um espaço presente sem que o indivíduo sinta-se conectado, cuidadoso e compromissado com a natureza e, principalmente, com sua espécie.
No entanto, o Estado de Mato Grosso, que se apresenta como o maior celeiro do agronegócio, ostentou também, em agosto de 2012, o primeiro lugar da “lista suja”, que é atualizada semestralmente, do trabalho escravo. Foram adicionados à lista, 28 novos nomes de pessoas físicas e jurídicas flagrados explorando mão de obra em condições comparáveis à escravidão, com 225 pessoas libertadas dos empreendimentos que passaram a constar do cadastro (ONG Repórter Brasil, 2012), talvez a voz do “Menino de arame farpado”, poema de Dagnon Odilon da Silva, conduza os números para uma instância mais profunda da percepção social desse antigo e atual problema:
Aquela pedra do menino Mudo e calado
Aquele homem
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Triste, como o coração dos
marginalizados,
Fragilizados, como a minha fé. O Silêncio constante do vazio, Esperando o grito: liberdade!
Aquela pedra do menino de arame farpado,
Marcado pela riqueza do rei do gado, Rasgada como a mente dos produtores de soja,
Empobrecida no que realmente é viver.
Lutador, realmente, no quesito
sobreviver.
A pedra do menino mudo e calado, Chorando sangue
Que jorra das plantações do trabalho escravo.
Não és de pedra, talvez de madeira, de carne.
De sangue estás manchado, calado, sofrendo,
Com as dores dos mártires do cerrado. Percebe-se que dos estudos relativos aos impactos ambientais e sociais, sejam em regiões de conflitos ou não, no Estado de Mato Grosso, emergem discussões sobre questões muitas vezes postas em segundo plano por interesses às vezes díspares, não obstante estarem intrinsecamente inseparáveis das questões econômicas. Nesse sentido, a relevância das pesquisas ambientais para a realidade mato-grossense é de vital importância, pois pode contribuir com a conscientização da convivência homem- ambiente e a consequente preservação dos mesmos.
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