2 Teoretisk perspektiv
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A fim de se contextualizar esse estudo, descrever-se-á, em caráter exemplificativo, alguns eventos que levam a concluir que a atual conjuntura social encontra-se em crise, compreendida como um fato, uma ação ou omissão, que, a despeito de sua causa, acarreta uma instabilidade, anormalidade ou insegurança no sistema do direito ou no social. Corresponde, portanto, ao sentido léxico, conforme já exposto.
Quando se afirma que a hodierna conjuntura é caracterizada por uma situação de crise, quer-se dizer que diferentes situações excepcionais ocorrem de forma grave, com elevada frequência e atingem os mais diversificados setores da sociedade, tornando propensa, a qualquer instante, a utilização de um sistema de crise. Logo, busca-se, nessa pesquisa, analisar se, uma vez instituída essa legalidade extraordinária, será possível um controle jurisdicional eficaz para controlar as medidas excepcionais aplicadas.
Essa situação de crise é observada tanto no contexto nacional quanto no internacional. Na história do Brasil, há nítidos exemplos de violações a direitos fundamentais em situações de guerra (como a do Paraguai) e de ameaça externa, como a suposta “ameaça comunista”, que ensejou na ditadura militar. Contemporaneamente, no Brasil, constata-se um aumento vertiginoso da violência, a ascensão do crime organizado e instabilidades econômico- financeiras, pois esse país se mantém em uma condição de subdesenvolvimento sem condições de competir nos mercados de livre comércio com os países desenvolvidos82.
Alguns exemplos extraídos da Revista “Veja” tornam mais evidentes a mencionada afirmação. No Brasil,
82 “A globalização acompanhada de mercados livres (...) trouxe consigo uma dramática acentuação das
desigualdades econômicas e sociais no interior das nações e entre elas. (...) Este surto de desigualdade, especialmente em situações de extrema instabilidade econômica como as que se criaram com os mercados livres globais na década de 1990, está na base das importantes tensões sociais e políticas do novo século” (HOBSBAWN, 2007, p. 11).
as cidades da serra fluminense sofreram duas catástrofes seguidas neste ano. (...) Em 12 de janeiro elas submergiram sob os 2,6 bilhões de litros de agua despencaram sobre a Região Serrana do Rio. A chuva varreu encostas, carregou casas, arrancou postes e transformou bairros inteiros em montanhas de escombros (LOPEA, 2011, p. 107).
Ainda,
São bem terrenas as causas dos desastres naturais que se multiplicam no Brasil, revelam novas pesquisas. Após um 2011 de devastação na Serra na Fluminense, enchentes avassaladoras no Sul e no Sudeste e um início de 2012 com a pior seca em três décadas no Nordeste, não resta lugar para o mito de que este é um país imune aos desastres naturais. Na verdade, somos muito vulneráveis. (...) No Brasil, alagamentos e enchentes representam a maior parte dos 34 grandes desastres naturais registrados em dez anos. Esses desastres provocaram US$ 2,8 bilhões em perdas. (...) De acordo com o relatório, de 2004 a 2010, o Brasil investiu US$ 280 milhões em prevenção, ou seja, em obras e em tecnologia de previsão e remoção de áreas de risco, por exemplo. No mesmo período, o governo brasileiro gastou US$ 2,6 bilhões em ajuda emergencial a cidades afetadas por cheias e desmoronamentos (AZEVEDO, 2012).
Lado outro, quanto à crise econômica, ocorrida em 2008, que afetou os países do globo, as medidas para superá-la pareceram modestas no Brasil. Os dados estatísticos e as notícias divulgadas pela mídia demonstraram a insuficiência da economia interna de enfrentar o problema. “Incapaz de apresentar um projeto coerente para aumentar a competitividade externa da indústria brasileira a longo prazo, o governo oferece incentivos financeiros que saem caro para os contribuintes” (GUADALINI, OYAMA, 2012, p. 70). Ademais,
avaliada pelos últimos indicadores de desempenho econômico e em vista de seu brilhante passado recente, a economia brasileira inspira preocupação. Milhares de profissionais valiosos perderam seu emprego nas indústrias mais dependentes do ambiente externo, como a Embraer, em que 4200 demissões foram anunciadas – 20% de toda a força de trabalho da empresa. A inadimplência das famílias atingiu em janeiro o maior nível desde maio de 2002. A desaceleração do PIB é severa. Parece, portanto, não haver espaço para otimismo (GUANDALINI et. al, 2009).
Essas crises atuais abrangem não apenas o Brasil, mais todo o Globo, repercutindo nas mais diversas e distintas esferas sociais, como a economia, altamente afetada pela crise europeia e pela recente depressão nos Estados Unidos que, por sua vez, repercutiu em multinacionais como a “General Motors”. As crises econômicas são cada vez mais intensas e frequentes de modo que alguns estudiosos, como Manoel Gonçalves Ferreira Filho (2007) e
Gilberto Bercovici (2004), defendem um estado de exceção econômico, compreendido como a adoção de medidas legislativas e administrativas de emergência a fim de se superar as depressões na economia. Outro motivo de crise social é a erupção de abruptas mudanças climáticas e calamidades naturais de grande repercussão, como “tsunamis”, enchentes, terremotos e secas.
Na América do Sul, uma crise econômica em 2012 afetou diretamente a Argentina, onde “eletrodomésticos, comida e até medicamentos somem das prateleiras, e o povo paga com a alta na inflação” (DALTRO, 2012, p. 74).
No Oriente Médio, a instabilidade institucional e os conflitos armados internos intensificam-se. No ano de 2011, presenciou-se uma mobilização “dos levantes populares que derrubaram como dominós governos ditatoriais no mundo árabe” de modo que “na Tunísia, no Egito, na Líbia, no Lêmen, na Síria, 2011 foi como um grande e contínuo movimento telúrico” (SALEM, 2011, 112).
O Japão, em 11 de março de 2011, foi acometido por um grave tsunami.
O grande terremoto que desatou a tríplice sequência de desastres foi tão violento que deslocou em até 2,4 metros uma parte da ilha principal do Japão. Enquanto a terra continuava a tremer, veio a onda negra, como um Godzilla erguendo-se do fundo do mar. Não é por acaso que o mundo inteiro usa uma palavra em japonês para descrever a grande muralha d’água. Mais mortífero e destrutífero que o terremoto, o tsunami de 14 metros de altura esmigalhou uma longa faixa litorânea, invadiu a usina e provocou a reação descontrolada nos reatores nucleares. Por causa dela, a Alemanha, a Suíça aprovaram a desativação gradual de seus programas de energia nuclear. E o Japão ainda lida com uma memória insuportável: o dia em que as coisas não funcionaram (TURKIA, 2012, p. 128).
Até a Europa não está isenta de instabilidade. A Grécia que
(...) deu ao mundo as palavras crise e caos, além dos dois componentes de pandemônio, (...) viveu em 2011 nomenclaturas coerentes. As más notícias se sucederam num ritmo quase diário: o governo cortava alguma coisa, as manifestações de protesto tornavam-se mais violentas e o buraco da dívida ficava maior (TZORTZINIS, 2011, p. 134).
Essas notícias são pontuais exemplos da situação de crise que assola o atual momento histórico. O noticiário demonstrou, ainda, que não é difícil se presenciar situações de instabilidade – basta acompanhar os folhetins diários. Nessas situações são postas à prova os direitos mais elementares do Estado Democrático Social de Direito, que são os denominados direitos de primeira dimensão, como a liberdade, a igualdade, os direitos-garantia, as garantias
institucionais, os direitos políticos e as posições jurídicas fundamentais em geral, estabelecidos na Constituição Brasileira de 1988, predominantemente no art. 5º.
Em alguns casos, a reação à uma situação de crise, gera-nos outras situações excepcionais a exemplo à resposta dos Estados Unidos aos ataques terroristas, sobretudo o ocorrido em 11 de setembro de 2001. Visando combater e prevenir a atuação terrorista, o Estado norte-americano impôs medidas drásticas de cunho altamente repressivo aos direitos fundamentais de liberdade, superando-se, em alguns casos, a distinção entre o direito normal e o excepcional.
Com base em simples suspeitas, permitiu-se: a detenção do indigitado; a censura às correspondências e aos meios de comunicação; perquirições em domicílio; quebra do sigilo bancário, dentre outras. Essas medidas anteriormente só eram possíveis depois de suspensas as garantias constitucionais pelo estado de sítio ou medida análoga. Em suma, permitiram-se graves violações aos direitos individuais, como liberdade, intimidade e privacidade em prol de um bem maior, qual seja, a “segurança social”. Naquela conjuntura histórico-social, visualizou-se o mundo fictício idealizado por Orwell (1977) em que o Estado, representado pelo “Grande Irmão”, coibia as liberdades e individualidades em prol de uma coletividade inerte, manipulável, passiva e submissa.
A explicação deste contexto de instabilidade é feita pelos pensadores que denominam o atual contexto histórico como pós-moderno, compreendido como a condição social, econômica, política, cultural, artística e científica, após grandes transformações ocorridas ao final do século XIX. Sua origem, segundo Anderson (1999), remonta à década de 1970. Não se deve, contudo, conceber a pós-modernidade, em sua acepção literal, como um momento posterior e contínuo à modernidade83, mas como um novo contexto que inova, na medida em que há uma brusca modificação nos mais diversos aspectos da vida humana84.
A pós-modernidade se erige com a consolidação do capitalismo e declínio que outras teorias, que propunham uma solução pronta, acabada e última para os problemas sociais, como o socialismo e o comunismo. Essas teorias, que buscavam fornecer um prognóstico da sociedade, como a de Marx, de Parsons, de Weber, o iluminismo e Kelsen, falharam. “Com a condição pós-moderna Lyotard anunciou o eclipse de todas as narrativas grandiosas. Aquela
83 Em síntese, a modernidade surge em contraposição às concepções sagradas, transcendentais e institucionais da
sociedade, que reprimiam a ciência. Assim, em um primeiro momento, a modernidade visou libertar a ciência, a arte e a moral, buscando-se a racionalidade. Visou, ainda, incorporar ao homem essas noções, dissociadas do “sagrado” e do “transcendental”. O sujeito deveria, assim, ser racional (HABERMAS, 1980).
84 Neste sentido, Anderson (1999, p. 38): “O pós-moderno não vinha depois do moderno; era um movimento de
renovação interna inerente ao moderno desde o início – aquela corrente cuja reação ao abalo do real era o oposto da nostalgia da unidade perdida, ou seja, uma alegre aceitação da liberdade de invenção que essa abalo liberava.
cuja morte ele procurava garantir acima de tudo era, claro, a do socialismo clássico” (ANDERSON, 1999, p. 39).
Outro fator de contribuição para as falhas dessas grandes narrativas foi a quebra da rígida estratificação das classes proletária e burguesa. Com a pós-modernidade, “as tradicionais formações de classe se enfraqueceram, enquanto identidades segmentadas e grupos localizados, tipicamente baseados em diferenças étnicas ou sexuais, se multiplicam” (ANDERSON, 1999, p. 75). Surgem minorias que, outrora desorganizadas, passam a reunir- se e a reivindicar de modo mais sistematizado seus direitos. Daí, tornam-se mais nítidas e presentes a atuação de categorias sociais hipossuficientes mais complexas, menos rígidas e estratificadas, como a mulher (movimento feminista), GLBT85, os idosos, negros e os silvícolas.
Na seara econômica, a consolidação do capitalismo trouxe uma elevada mercantilização da vida e das relações sociais. Logo, a arte, os livros, o cinema e padrões de beleza e de estética tornam-se produtos comercializáveis. Os centros de produção não mais se limitam apenas às indústrias, mas passam a ganhar espaço a prestação de serviços e o mercado financeiro. As multinacionais, que não se limitam às fronteiras do Estado, dominam o mercado capitalista ao mesmo tempo que o padroniza. Até o modelo dos center shopping– os grandes centros de consumo capitalista – são semelhantes. A produção de mercadorias passa a ser realizada nos países subdesenvolvidos onde a mão-de-obra e a matéria prima possuem um preço muito baixo. Tal situação acarreta uma quebra nas fronteiras dos tradicionais Estados nacionais com a globalização do mercado. Facilita, ainda, a criação de uma sociedade caracterizada por um frenético consumo de mercadorias em razão de baixos custos e de complexas técnicas de publicidade, facilitadas pelos meios de comunicação. Tal situação é catalisada pelo aumento demográfico, fornecendo uma abundante e infindável fonte de consumidores. Há, ademais, o surgimento e consolidação do pós-industrialismo, cuja principal característica é o foco na informação e no conhecimento que passa a tornar-se um produto altamente valioso e indispensável ao mercado do capitalismo hegemônico.
O foco na informação, na comunicação e no conhecimento é potencializado com os meios de comunicação com abrangência global, especialmente com as novéis tecnologias de informação, como o satélite, a televisão, a internet, os computadores (notebooks, netbooks, ipod, ipad, celulares, tablets etc.) de alta qualidade e velocidade. Há, portanto, uma redução das distâncias e uma democratização das informações que passam a alçar, inclusive, as
minorias. Essa ênfase na comunicação possibilita a transmissão, em tempo real, de emoções, discursos, ideologias de alcance global. Esse estímulo à informação possibilitou a consolidação de novos ramos do conhecimento, sobretudo as ciências humanas e sociais aplicadas em contraposição às ciências naturais, outrora predominantes. Artisticamente, a pós- modernidade é marcada pela flexibilidade e pelo hibridismo de técnicas, mormente quando se analisa o conceitualismo que se utiliza de imagens inclassificáveis. Há, nesse novo contexto, uma anti-arte, quebrando a simetria e a clareza da arte moderna.
Desta forma, na pós-modernidade, diante de uma grande complexidade dos fatos sociais, a teoria mais adequada para se explicar os eventos sociais é a do caos e não mais a da ordem, coesão, coerência, como era na época moderna.
Se são expressivas as características que culminaram nesse novo contexto histórico da pós-modernidade, mais impressionantes e preocupantes são suas consequências. A efemeridade das relações sociais, afetivas e de trabalho, associada à instabilidade econômica, tornaram os indivíduos mais focados no presente. As relações sociais passam a ser temporárias e superficiais, assim como os copos descartáveis. O ser humano passa a ser acometido de forma mais intensa por problemas psicológicos como depressão, transtorno bipolar e variações do humor. Os planos de vida, os projetos e a carreira perderam o sentido para uma relevante parcela da população e isso se reflete na juventude que não se vê construindo ou chegando a algum objetivo a longo prazo. Essa característica é potencializada pela grande onda do medo – sentimento este difundido socialmente. Tem-se medo de uma possível guerra que envolva armas nucleares, com o potencial de destruição global; do esgotamento dos recursos hídricos e naturais; do terrorismo e do tráfico de drogas. Tais fatores são, ainda, causadores de diversas crises nesse novo contexto pós-moderno.
Diante de todo esse contexto de instabilidade e risco, torna-se propensa a utilização do sistema de crise, caso os meios ordinários previstos no sistema do direito restem insuficientes. Entretanto, esse sistema de legalidade extraordinária torna suscetível a imposição de uma ordem autoritária – ditatorial ou totalitária, em razão da experiência histórica (ROSSITER, 2002). Posto isso, destacada a importância do estudo do sistema de crise, adentrar-se-á, a seguir, na forma como foi estabelecido no texto da Constituição de 1988.