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Ulempe- og skadeserstatning etter ekspropriasjonsretten

In document Tunneler og energibrønner (sider 53-56)

3.5 Overflateeierens rett til erstatning for følgeskader og ulemper

3.5.1 Ulempe- og skadeserstatning etter ekspropriasjonsretten

Alfacinha é uma garota de 20 anos, estudante de história e apaixonada por Por- tugal. O nick, criado em 4 de abril de 2000, é a forma com que os lisboetas chamam aqueles que são de fora de Lisboa. Pela Internet, ela encontrou Caminhando, um por- tuguês que desejava um relacionamento estável e parecia ter afinidade de pensamento com ela.

Ele lhe escreveu uma longa carta, que demorou algum tempo para ser respon- dida, pois a manutenção e a Internet nessa época eram um tanto quanto trabalhosas. No entanto, passado um mês de emails, ele lhe mandou um comunicador, uma espécie de ICQ para que eles pudessem conversar em horários determinados.

No segundo mês, ele lhe telefonou e o diálogo transcorreu bem. Eles se fala- vam constantemente, ela gastava cerca de 200 reais em conta telefônica que, em al- guns meses, chegou a 600. No terceiro mês, ele a pediu em namoro e os planos de ca- samento foram se organizando.

Alfacinha fez vários orçamentos mas ambos desistiram da ideia dele de vir ao Brasil para o casamento. O plano se modificou para que ela fosse para lá em definiti- vo. Um ano depois do primeiro email, ela estava despachando o enxoval e indo com passagem só de ida.

Não tenho o menor medo de conhecê-lo pessoalmente. Nossa ligação é muito forte, nosso contato é muito próximo. Não tenho qualquer receio do primeiro encontro, do primeiro abraço, do primeiro beijo – sou virgem, inclusive. Já conversamos bastante sobre isso e nunca tivemos medo, não entendemos por que todo mundo nos pergunta tanto sobre a questão física. Sei que não o conheço 100%, sempre haverá uma face oculta. Mas acho que chegamos aos 90%. (p.300)

Para este relato, há a versão de Caminhando, que inicia dizendo que apostava encontrar o amor no site. Morador de Torres Novas, uma pequena cidade de 500 a- nos, que fica distante 100km de Lisboa. Ele tinha vontade de conhecer uma brasileira pela simpatia que nutria pelo nosso país e cadastrou-se num site brasileiro, no qual en- controu Alfacinha. Ele dizia que começou a amá-la desde as primeiras palavras que leu dela, que sentia que “ela se apresentava de uma forma linda, pura, real e singela. Meu coração palpitou muito forte, senti uma energia pura de amor e carinho nas pala- vras escritas – foi sua forma bonita de entrar na minha vida que me deixou, como se diz, de quatro por ela”. (p.302)

Também ele se incomoda com as perguntas sobre como será quando eles se en- contrarem. Caminhando acredita que o pilar da relação está na frase que disse a Alfa- cinha, em sua primeira declaração: “Aceita-me como sou, que te aceito como tu és.”

Para nós não será estranho nos encontrarmos frente a frente. Nosso amor é capaz de transcender a tudo e a todas e até ao próprio tempo cronológico. Nós amamos em nível espiritual, e quando nos conhecermos o amor físico será o complemento de um grande e verdadeiro amor, que será durável por tida a eternidade. Posso garantir que quem ama primeiro espiritualmente nunca terá problemas em amar fisicamente. O amor espiritual é puro, sem mentiras nem segredos. Amar somente fisicamente é a desgraça de todos os males que existem no mundo e de tantos desentendimentos, tantos problemas e doenças. Amar é a sublimação. É pureza. É felicidade. É equilíbrio. Amar espiritualmente é a fonte vital e inesgotável dessa verdadeira energia cósmica que une os seres numa única comunhão. (p.303)

Em nota, a autora esclarece que os entrevistou em junho de 2001, a viagem de Alfacinha aconteceu em 5 de agosto e eles se casaram em 28 de setembro do mesmo ano. Ela relata que não houve estranhamento entre os dois e que aconteceu o que eles esperavam, sendo o amor físico um complemento ao que sentiam um pelo outro.

“Os interidiotas proliferam” foi o comentário feito pela psicóloga Rosely Sayão ao presente relato. O interidiota é uma referência ao livro “O videota”, de Jerzy Ko- sinski (1970), que deu origem ao filme “Muito além do jardim” (1979), dirigido por Hal Ashby e estrelado por Peter Sellers. O personagem principal é Chance, um homem ingênuo, que tinha como sua única forma de contato com o mundo real a TV. Sua ex- periência social era restrita ao seu patrão, ou seja, quase nula. Quase todo seu repertó- rio linguístico e imaginário se organizou pelo jardim, que cuidava e por aquilo que ob- servava em programas televisivos. Por uma sequência de acasos, Chance se tornar uma espécie de conselheiro, tudo o que ele dizia era entendido como sendo metáforas de profunda sabedoria e seu silêncio, genial. No entanto, todas as suas respostas estão baseadas no que viveu no jardim e no viu pela TV.

A alusão pretendida por Sayão ao usar este filme é como as pessoas podem fi- car isoladas e fechadas dentro de determinados meios, seja a Internet ou a Televisão. Esta forma de se trancar diante destas janelas artificiais não trariam a realidade, mas sim uma outra forma de se alienar.

Se no filme o personagem era restrito na formação de seu imaginário, o mesmo acontece em relação ao caso citado acima. A restrição da formação do imaginário é notória nos relatos de Sampaio (2002) que registra a euforia do encontro amoroso que vai além da geografia e possibilitado pela Internet. O mito da Cinderela continua e é isso que Sayão analisa sobre o presente caso. Ela estranha o fato de que a narrativa traz um amor moldado a idealizações, ‘uma coisa infantil’ de contos-de-fadas. O ca- sar-se e ser felizes para sempre não é responsabilidade da internet, mas do cotidiano. E ela ressalta três pontos: 1) o casamento, que traz o compromisso em relação ao amor e ao sexo; 2) a paixão ter acontecido pelas palavras e não pelo visual e 3) o projeto em que pensam como uma dupla, quando atualmente as pessoas tendem a pensar indivi- dualmente.

A construção do imaginário individual se dá, essencialmente, por identificação (reconhecimento de si no outro), apropriação (desejo de ter o outro em si) e distorção (reelaboração do outro para si). O imaginário social estrutura-se principalmente por contágio: aceitação do modelo do outro (lógica tribal), disseminação (igualdade na diferença) e imitação (distinção do todo por difusão de uma parte). No imaginário há sempre desvio. No desvio há potencialidade de canonização. O imaginário explica o “eu” (parte) no “outro” (todo). Mostra

como se permanece individual no grupo e grupal na cultura. (SILVA, 2003, p.14)

Ao relacionarmos a história de Alfacinha e Caminhando com a problemática do imaginário exposta por Silva (2003) vemos como que repercussãode histórias bem sucedidas de amor, que tiveram a Internet como potencializadora, formaram um ideal. As pessoas não precisariam se ver para se amar, a libertação de certos padrões estéti- cos, afinal, o que importaria mais é aquilo que se é para além da materialidade do cor- po. As virtudes e modos de encarar a vida seriam mais importantes. E é este o desvio, a canonização da Internet como a potencializadora das relações.

Essa possibilidade imediatamente elevou a estranhos a identificarem afinidades e, consequentemente, a estabelecerem relacionamentos virtuais nos quais essas afinidades era exploradas a médio ou longo prazo (e requeriam os usuários passassem longos periosodos de tempo conectado). Para que uma exploração mais minuciosa acontecesse, as comunicações rapidamente migravam do ambiente muitos-muitos para ambiente um-um (como ambientes privados dos

webchats ou do IRC, ou das trocas de mensagem por ICQ, Messenger e outros programas semelhantes). (NICOLACI-DA-COSTA, 2006, p.28)

Estar em relação, o eu estar implicado com um Outro, o verdadeiro self man- ter-se em simbiose com outro verdadeiro self, tudo isso é passar por um estado de au- tencidade (conforto) em expressar os sentimentos, tê-los aceitos e encarar o verdadeiro self . Esta seria a principal diferença entre o estar junto falsamente e o verdadeiramen- te. As trocas devem ocorrer tanto psíquica quanto corporalmente. O relacionamentos devem ser mantidos com o mundo externo para que haja certa “elaboração imaginati- va de funções corporais”13, ou seja, ligações entre o que já foi vivenciado e a expectati-

va de futuro, um em relação ao outro, fatos esses que dão sentido ao sentimento do eu e justificam nossa percepção de que dentro daquele outro corpo existe um indivíduo e não apenas caracteres numa tela.

A pessoa para incluir a realidade externa deve ser capaz de criar e perceber as condições ambientais, não só para se adaptar mas também de se recusar a se adaptar. Ela deve ser capaz também de se transformar numa criatura com atributos que lhe permitam fazer escolhas. Ou seja, a pessoa não pode estar aprisionada a modelos e a

13 (BELMONT, 1995)

um imaginário que a enclausurem em sonhos românticos. Por motivos variados, nem todas as histórias foram e são bem sucedidas como a relatada. No caso deles, o tempo e a reflexão teriam sido atropelados pela velocidade do compartilhamento. Não houve tempo de sentir medo nem de recuar.

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