4.3 Eastern Atlantic
4.3.2 UK-Scotland
Como dito, ao longo da pesquisa identifiquei usuários em vinte e duas cidades da região. São elas: Araraquara (35 km)5, Matão (73 km), Ibitinga (112 km), Rio Claro (66 km), Ribeirão Preto (103 km), Piracicaba (102 km), Torrinha (86 km), Santa Cruz das Palmeiras (86 km), Santa Rita do Passa Quatro (82 km), Porto Ferreira (60 km), Boa Esperança do Sul (70 km), Pirassununga (80 km), Corumbataí (55 km), Itirapina (39 km), Américo Brasiliense (56 km), Santa Lúcia (63 km), Rincão (62km), Ibaté (19 km), Ribeirão Bonito (47 km), Dourado (60 km), Descalvado (44 km), Analândia (49 km), além de São Carlos, base da pesquisa. Existem ainda usuários contatados que residem em áreas mais afastadas do centro de São Carlos, como é o caso dos que moram nos subdistritos de Água Vermelha (8 km) e Santa Eudóxia (35 km), ambas localizadas em áreas que integram a chamada zona rural da cidade.
A cidade de São Carlos, fica localizada na região central do Estado de São Paulo e pode ser descrita como uma das cidades em que são perceptíveis os efeitos do intenso processo de urbanização iniciado no Sudeste desde 1950. Nesse período, o surgimento de centros de pesquisa ligados à Universidade de São Paulo (USP) e à Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) rendeu parcerias com a Embrapa e o Parque de Tecnologia. Nessa época, corporações industriais, como Volkswagen, Eletrolux e Faber Castell, também foram atraídas para a região.
5 A notação da quilometragem entre parênteses indica a distância de cada cidade em relação a São Carlos, cidade
O tripé transportes, atividades industriais e núcleos urbanos deu a tônica do desenvolvimento desta região. Em meados da década de 1970, o inchaço urbano da Capital Paulista, o alto preço dos solos urbanos e a deterioração das condições de vida em São Paulo resultaram no que autorxs como Sposito (2007) têm classificado como um fenômeno de “desconcentração”.
As dificuldades administrativas decorrentes do inchaço urbano, a formação de bolsões de pobreza, a poluição e a precarização do pagamento da mão de obra são apontados por Sposito (2007) como elementos que atuam em conjunto intensificando o fluxo de migração da capital para o interior nas décadas seguintes de 1980 e 1990.
Nesse período, pessoas que viviam na capital se deslocaram em direção às cidades menores do interior, caracterizadas pela “melhor qualidade de vida”, tranquilidade e segurança. A partir da desconcentração industrial, as cidades médias passam a ocupar novas posições na rede urbana paulista, que antes era reservada apenas à cidade de São Paulo. De acordo com Lencioni (1994), o interior paulista assume uma importância industrial que o eleva ao segundo espaço industrial do país, atrás somente das regiões metropolitanas de São Paulo.
O que essas pesquisas descrevem e analisam são os processos de expansão das cidades por intermédio da oferta de trabalho na indústria o que incentivou processos migratórios. Graças à malha viária desenvolvida pela demanda decorrente do crescimento das indústrias na região, atualmente pessoas conseguem se deslocar diariamente entre uma cidade e outra. Por assim dizer, a malha viária e a arquitetura urbana conectam algumas destas cidades, como é o caso de São Carlos, Ibaté e Araraquara, de maneira que incentivam os deslocamentos e o trânsito cotidiano de pessoas pelas mais diversas razões.
As vinte e quatro cidades abarcadas no recorte da pesquisa estão distribuídas em um raio de aproximadamente 100 quilômetros de distância da cidade de São Carlos. Entre elas, muitas pessoas viajam em função do trabalho, do estudo, em busca de lazer ou pelas variadas razões como, por exemplo, fazer compras. Em cerca de uma hora ou, em alguns casos, alguns minutos, é possível se deslocar de uma cidade a outra.
A densidade variada entre as cidades, assim como as restrições em torno dos serviços locais e aqueles oferecidos em cidades maiores, também atua como incentivo no deslocamento interurbano e na composição de um circuito de serviços, lazer e trabalho. Para fornecer parâmetros quanto ao tamanho das cidades compreendidas no recorte da pesquisa, a maior delas, Ribeirão Preto tem aproximadamente 650 mil habitantes, enquanto a menor, o município de Analândia, tem a sua população estimada em menos de 5 mil habitantes.
Figura 1 - Mapa da região com as cidades dos interlocutores
Fonte: Google Mapas
As transformações econômicas, sociais e políticas ocorridas desde a década de noventa refletem no arranjo sociotécnico que situa a pesquisa. Considero que essa reestruturação produtiva no território paulista gerou uma ampliação não apenas demográfica das cidades, mas também intensificou, nos últimos anos, a relação entre os núcleos urbanos dessa região. Desse modo, não quer dizer que as pessoas se desloquem pela região apenas à procura de parceiros, mas que o deslocamento é uma prática corrente e que, para algumas pessoas, é intensificado diante da fácil mobilidade entre as cidades.
Acompanhando a definição do sociólogo Louis Wirth (2001), entendo que o grau de “urbanidade”, com o qual podemos caracterizar uma cidade, não se mede totalmente pela sua dimensão territorial tampouco pela sua densidade demográfica. Para este autor, raramente as cidades são capazes de eliminar completamente os traços de sua forma anterior. De outro modo, Wirth (2001, p. 45) sintetiza as cidades como um “agregado relativamente extenso, denso e estável de indivíduos socialmente heterogêneos”, de modo que os traços do mundo rural permanecem presentes nos núcleos urbanos e nas vidas dos seus habitantes.
Durante o trabalho de campo, encontrei-me face a face com dezessete interlocutores distribuídos em onze destas cidades da região. Nessas cidades, o estilo de vida e os níveis de predominância das características rurais e urbanas são bastante variáveis. A saber, encontrei
um interlocutor em Ribeirão Bonito, dois em Ibaté, cinco em Araraquara, dois em Ribeirão Preto, um em Brotas, um em Matão, um em Descalvado, um em Ibitinga, um em Sertãozinho, um no Distrito de Água Vermelha e um no Distrito de Santa Eudóxia. Como dito, todos estes encontros foram previamente agendados e precedidos por conversas via Skype©, Whatsapp© e, em alguns casos, por Facebook©.
Em geral, os encontros ocorreram em praças ou enquanto caminhávamos pelo centro da cidade. Como não conhecia alguns dos municípios mencionados, especialmente aqueles interlocutores que tinham carro fizeram questão de apresentar parte da cidade, o que permitiu também conhecer alguns lugares por onde esses homens circulam e algumas preferências que revelavam sobre o estilo de vida.
Os outros vinte e cinco encontros ocorreram em São Carlos, cidade onde resido atualmente. Destes, onze aconteceram na UFSCar ou na USP, durante o dia ou ao final dele e, nesses casos, se tratavam de estudantes. Oito foram no centro da cidade – dois na Catedral, um no Mercado Municipal, dois na quadra esportiva próxima dali e três na rodoviária. A duração média das conversas foi de uma hora e meia.
Mantive, ainda, contatos esporádicos com outros sessenta e seis homens através do Whatsapp© e, em alguns casos, também através do Skype©. Embora estes dados tenham ficado à parte, considero importante mencioná-los, pois de alguma maneira eles também se dispuseram a participar da pesquisa e eu não disponho de recursos que permitam uma mensura sobre o tempo que duraram essas interações.
No total, durante todo o período em que realizei o trabalho de campo, estabeleci contato com um total de cento e trinta e nove homens que, informados sob as condições da pesquisa, consentiram em colaborar com essa investigação. Os perfis destes homens foram fotografados e armazenados em um banco de dados que permitiu, mais tarde, estabelecer algumas inferências quantitativas sobre a amostra.