4.3 Eastern Atlantic
4.3.9 Schedule for 2007
O período pelo qual se estendeu o trabalho de campo foi o suficiente para que eu estabelecesse contato com um considerável número de pessoas, tendo em vista os limites de uma pesquisa qualitativa e etnográfica exequível no contexto de um mestrado. Posso dizer que não encontrei grandes dificuldades para estabelecer contatos de pesquisa. A velocidade das interações digitalmente mediadas e a minha disposição para conversar indiscriminadamente com todas as pessoas que me procuravam foram elementos que colaboraram para um crescente número de interações.
No entanto, trabalhar de modo qualitativo com mais de uma centena de pessoas é algo impensável para alguém com a minha experiência, considerando o tempo hábil que eu dispunha e a metodologia empregada. Mesmo coletando dados sobre a maioria dessas interações, decidi extrair desse quadro – que considerei mais geral e que serviu como fator de controle – um conjunto de categorias recorrentes que poderia funcionar como indicador capaz de guiar a análise dos elementos mais gerais até as narrativas individuais.
Desse modo, não quer dizer que eu tenha trabalhado de maneira qualitativa com mais de uma centena de homens, mas que interagi e dialoguei com eles e isso permitiu extrair recorrências sobre as convenções em torno do desejo, da negociação, da masculinidade e do segredo vistos a partir dos aplicativos.
Durante a pesquisa, tive a oportunidade de me aproximar com mais intensidade de quatro usuários. Generosamente, estas pessoas – a quem sou grato – consentiram que eu “invadisse” suas vidas, compartilhando comigo parte de suas histórias, reflexões e momentos memoráveis. Esses quatro interlocutores me permitiram acompanhá-los em atividades diárias e corriqueiras como, por exemplo, ir ao supermercado, almoçar durante a semana no intervalo do trabalho, caminhar ou beber algumas cervejas no final da tarde, rir e desfrutar da sua companhia. Estas quatro narrativas, expostas ao longo do trabalho, permitem compreender
como são articulados na vida cotidiana tropos como segredo, discrição, família, segurança, trabalho, masculinidade e homossexualidade e mobilidade.
Os dados obtidos nas relações com os interlocutores foram sistematizados e depurados da seguinte maneira: dezoito usuários com quem mantive contato por um maior período de tempo, especialmente on-line, viabilizaram a produção de fichas individuais com informações levantadas em entrevistas e em conversas informais, tais como dados biográficos e anotações sobre interações, avaliações, percepções, formulações e encontros. Orientei os dados por uma linha cronológica seguida por uma breve descrição etnográfica que os situava e também sobre as minhas interações e diálogos com cada um deles.
Foram possíveis trinta e uma interações via Skype©, sobre as quais não foram autorizadas gravações. Procurei, na medida do possível, logo após o término destas conversas, reconstruir partes desses diálogos no caderno de campo. Em média, esses diálogos não passaram de trinta minutos. Sete desses contatos se repetiram por mais de duas vezes e com quatro deles pude me encontrar face a face.
No total, ao longo da pesquisa aconteceram quarenta e dois encontros face a face. Nas situações em que o gravador se tornou inconveniente, compreendi que, para alguns homens, em especial os casados, permitir que eu gravasse a entrevista seria o equivalente a gerar provas concretas contra si mesmo. Desse modo, até quando foi possível, posteriormente reconstruí esses encontros também sob a forma de descrições no caderno de campo.
Dez entrevistas com mais de duas horas de duração foram gravadas e, posteriormente, transcritas. Todas foram previamente agendadas e se passaram na casa de interlocutores ou em espaços públicos, tais como o centro da cidade, bares, praças e nas universidades (USP e UFSCar). Entre elas, estão incluídas as gravações das entrevistas com os quatro interlocutores centrais e aquelas realizadas em outras cidades.
Ainda no começo da pesquisa, resolvi fotografar e armazenar em um banco de dados à parte cento e trinta e nove perfis dos homens com quem conversei e que consentiram colaborar com a pesquisa. Os usuários estão distribuídos entre os três aplicativos e localizados em vinte e quatro diferentes cidades. Apresentar todos aqui seria inviável e considero que tornaria o trabalho por demais repetitivo. Os perfis registrados permitiram, mais tarde, inferências numéricas sobre a amostra dos contatos que eu havia estabelecido.
Na depuração dos dados, os perfis foram divididos em duas classes mediante o critério que separava i) os usuários que deixavam o rosto à mostra na fotografia; e ii) os que ocultavam o rosto nas imagens do perfil. Daí em diante, foi possível inferir questões gerais
como, por exemplo, a proporção de usuários contida na amostra que mostrava ou não o rosto, assim como as faixas etárias que concentravam o maior número de interlocutores da pesquisa.
Em cada um dos dois grupos, os dados informados por todos os perfis foram cruzados e permitiram informações, em termos quantitativos, sobre aqueles que buscavam em segredo e aqueles que buscavam abertamente. Com isso, foi possível também contabilizar a proporção etária dos usuários, a proporção de perfis que se descreviam com referência à masculinidade, a proporção das forclusões expressas nos perfis, bem como as proporções entre as preferências sexuais autodeclaradas pelos usuários em cada um dos grupos. A análise deste material é apresentada e esmiuçada ao longo do quarto capítulo. Os dados quantitativos são articulados às informações de cunho qualitativo e etnográfico com o intuito de apontar a fluidez e a dinâmica do próprio campo.