“Que espantosos pedagogos nós éramos, quando não nos preocupávamos com a pedagogia!” (Pennac, 1995, p. 19)
Uma das saídas que realizei com as crianças, enquanto acompanhante, e não organizadora, foi ao teatro. O espetáculo era longo (cerca de 1h40), referia-se a conceitos bastante abstratos e, na sala, onde estavam mais de 400 crianças, nós ficámos sentados a uma distância que tornava impossível ver claramente os atores. Nas minhas notas de campo (cf. Anexo IV. h. 14.12.2014) pode ler-se:
«No final, uma das crianças do grupo disse-me, com ar de desalento: “Gostei muito do teatro, eles cantavam muito. Não gostei foi do tesouro, e tenho fome porque já é tarde.” Questiono-me que conhecimento da infância tem alguém que aconselha (e vende!) um espetáculo desta natureza, com estas caraterísticas, para crianças a partir
dos três anos?»
Foi daqui que surgiu a pergunta, que fiz depois aos entrevistados, sobre a necessidade de ter noções de desenvolvimento infantil para escrever ou contar histórias para crianças.
De acordo com Brazelton (2008), os 4 anos são a idade do novo poder e dos novos medos. Esta é a idade de viver fantasias, de brincar ao faz de conta, de ser super-heróis, a idade dos amigos imaginários e do pensamento mágico. É também a idade em que a linguagem começa a ser capaz de acompanhar as ideias mais complexas e através dessa expressão de si própria e dos seus sentimentos, a criança ganha um poder do qual passa a ter consciência. Com essa noção de poder vem também a consciência da sua pequenez e fragilidade perante um mundo muito maior e a sua dependência dos pais ou de outros, especialmente em momentos críticos. A criança de 4 anos está dividida entre os medos “dos monstros debaixo da cama” e o desejo de dominar o mundo que, apesar de todos os medos, a impele para a frente.
6 A minha Prática de Ensino Supervisionada foi desenvolvida numa sala de Jardim de Infância com
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Aos 4 anos a criança é ainda confrontada com sentimentos novos sobre a sua identidade de género. Há também o despertar da consciência, a perceção de uma capacidade para decidir o que está certo e o que está errado e um consequente aumento de responsabilidade. Dohme (2010) afirma:
As histórias podem ir além do encantamento. Quando escolhidas, estudadas e preparadas adequadamente, podem ter a função de educar. (…) Estas narrações, tão saborosamente recebidas, desencadeiam processos mentais que levarão à formação de conceitos capazes de nortear o desenvolvimento em valores éticos e voltado para a formação da autoestima e cooperação social. (p. 7).
Brazelton (2008) aponta algumas diretrizes para a disciplina nesta fase da vida da criança e que acho importante referir aqui, por identificar como tendo sido linhas de atuação com o grupo de crianças com quem realizei a minha prática supervisionada e com quem implementei atividades no âmbito das histórias: Disciplinar é educar, não é castigar; O objetivo é desenvolver o autocontrolo; As crianças sentem culpa e precisam de reparar o seu erro; As crianças precisam de uma abordagem que não as envergonhe; Cada «não» precisa de um «sim»; Os pais/educadores têm de ter em conta os seus próprios sentimentos; Tente compreender o significado do comportamento; Uma resposta firme e consistente a um mau comportamento revela interesse; Partilhe responsabilidades com a criança por forma a encontrar soluções; Uma abordagem carinhosa e compreensiva é poderosa.
Estando atenta ao grupo e seguindo aquilo que Oliveira-Formosinho (2013) refere como importante para planificar com a criança – a observação, a escuta, a negociação de cada criança e do grupo - é possível em cada momento perceber o que o grupo precisa de desenvolver, o que é importante explorar, debater, estimular, e estas ações podem ser “patrocinadas” por histórias nas quais as crianças se projetem, se questionem, se debatam e nas quais encontrem respostas tranquilizadoras.
Vygotsky (2013) afirma que os contos de fadas favorecem o desenvolvimento psíquico da criança. Ao ouvir as histórias, as crianças absorvem lições que contribuirão para o seu desenvolvimento. Quando a criança, nos seus jogos, reproduz o comportamento social de um adulto, já está a fazer uma combinação do que observa na realidade com o que conhece da ficção. Tanto no ouvir das histórias, como nesses jogos, segundo Vygotsksy (2013), a criança exercita as funções psicológicas superiores tais como a atenção, a memória e a imaginação. A criança tem que dar significado àquilo que aprende, tem que analisar e
discutir as suas experiências e vivências, tem que ser encarada com um ser capaz, ativo e participativo nos seus próprios processos de desenvolvimento e aprendizagem.
Cunha (1989) refere como um dos Princípios da relação pedagógica, o respeito - aquilo que se espera das crianças tem que ser pautado pelo respeito das suas caraterísticas, pelo seu estádio de desenvolvimento, pelos seus interesses emergentes; Respeito pelo que a criança é, e de esperança pelo que ela venha a ser. Outro dos princípios, segundo Cunha (1989) é o encorajamento - as crianças precisam muitas vezes de uma mão no ombro; A boa educadora vai de criança em criança animando aqui, corrigindo acolá, explicando ali; Não é tanto a explicação que interessa, é a presença, a lembrança, o cuidado. Essa presença pode ser realizada de muitas formas, e uma delas é esse momento de comunhão em que “O importante não é a história, o importante é quem conta e quem escuta.” (AF, p. 123, l. 12- 13). É sobretudo a aposta na relação que está em jogo. E por vezes é tão simples introduzir, até nos momentos de transição de atividades, nas passagens das fases da rotina diária, “rituais” em que o caminho é feito ao ritmo de uma lengalenga rimada, de um trava línguas que se repete com cambiantes sugeridas (piano, forte, lento, rápido: Sei um ninho de nafagafos, com sete nafagafinhos, quando a nafagafa sai, ficam os nafagafos sozinhos). Seguir para o refeitório a dizer em grupo: “Um, dois, três, quatro, a galinha e mais o pato, fugiram da capoeira, foram ter com a cozinheira, que lhes deu sopa num prato” ou “Bati à porta número seis e estava o M. a dançar com os reis.” Ou, como afirma Dohme (2010):
As histórias são excelentes ferramentas de trabalho na tarefa de educar e vários motivos existem para isso: as crianças gostam muito; levam a uma empatia entre contador e ouvinte, a variedade de temas é praticamente inesgotável; pouca exigência de recursos materiais para sua aplicação; os vários aspetos educacionais podem ser focados. (p. 18).
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