4.2 Uhensiktsmessig arrondering
4.2.3 Forholdet til ulovlige tiltak
A literatura para a infância é o conjunto de obras com potencial receção infantil. Rocha (1992) afirma que “se reconhecermos que a noção de criança teve nascimento no século passado5, é natural consequência aceitarmos que o livro para crianças só pode ter
assumido real autonomia num momento seguinte.” (p. 21). Podemos por isso considerar que esta “secção” da literatura é ainda muito recente. No entanto a ideia de “conto de fadas”, que inicialmente não seria “para crianças” mas dos quais as crianças se foram apropriando, é já muito antiga, a sua génese perde-se no tempo e no espaço. Diz-nos Calvino (2010):
Desde que Claude Lévi-Strauss chamou a atenção para a teoria enunciada em 1928 pelo folclorista Vladimir Propp, segundo a qual todos os contos de fadas do mundo seriam apenas variantes de um único modelo de conto popular, teve grande sucesso entre os estudiosos a ideia de reconstruir a fórmula de um conto de fadas universal. (p. 145).
Se estivermos atentos a esta área dos livros e da literatura, percebemos que é cada vez mais comum vermos secções dedicadas à infância e juventude nas livrarias, nas bibliotecas e até mesmo nos supermercados, onde deixámos de ter uma ou duas “tímidas” prateleiras e passámos a ter salas inteiras dedicadas a este tipo de livros.
Por vezes são usadas indistintamente as expressões “literatura para a infância” e “literatura infantil”. Neste trabalho tentei abordar alguns dos entrevistados sobre essa questão, sem insistir nesse ponto, e houve quem reagisse, tendo duas das entrevistadas então balizada a diferença entre as duas designações. Uma das entrevistadas em questão referiu que se deve dizer “Literatura para a infância. Literatura infantil é aquilo que eles fazem… até porque eu sou do tempo em que se discutia teatro infantil e teatro para a infância…” (MR, p. 103, l. 30-31).
A outra entrevistada deu-me a conhecer uma terceira possibilidade e, depois das pesquisas, de todas as entrevistas e reflexões feitas durante este processo, penso ser por essa “terceira via” que faz todo o sentido optar.
Embora, com algum rigor, eu ache que a designação correta não pode ser literatura infantil porque a literatura não é infantil. Penso que essa não é a melhor designação, prefiro utilizar literatura para a infância ou literatura de potencial receção infantil,
porque se for literatura de potencial receção infantil significa que ela também pode ter outros destinatários e eu sou um exemplo disso, eu consumo essa literatura em grandes doses, pelo prazer de a consumir e não por questões profissionais. Eu gosto mesmo da literatura para a infância e há muitas pessoas, muitos adultos, que gostam de literatura que habitualmente se podia pensar que era literatura para a infância. (ES, pp. 108-109, l. 28-5).
Concordo com as duas participantes neste estudo, no que se refere à leitura da expressão “literatura infantil” como algo que seria escrito pelas crianças, talvez seja mais fácil entender isto quando se fala de um grupo de teatro infantil ou um coro infantil – em que são as crianças a realizar essas ações – representar ou cantar. Ora estamos a referir-nos não a esses escritos mas a uma prática intencional, realizada maioritariamente por adultos, muitas vezes profissionais, e que tem como recetores privilegiados, mas não únicos, as crianças. Será então assumida neste trabalho a utilização de duas expressões: Literatura para a infância e Literatura de potencial receção infantil.
A lógica da separação dos livros nas “categorias etárias” tem que ver com preocupações pedagógicas de receção dos livros, no sentido de adequar temáticas, estética, legibilidade, simplicidade, etc. Mas também com uma lógica de mercado. Porque se torna mais simples para o comprador menos informado seguir o rótulo e efetuar a sua compra sem necessidade de conhecer o conteúdo, vejamos:
Havia pais que se preocupavam em perguntar o que é que seria aconselhável. Os pais preocupam-se muito com as classificações das coisas, às vezes preocupam-se demais, às vezes querem mesmo saber: 9 anos, o que é que tem que ler aos 9 anos? E às vezes nós ficamos sem saber o que responder. (SG, p. 133, l. 9-12).
É muito comum encontrar-se, nas livrarias, os livros separados por idades, por vezes numa divisão quase a roçar o proibitivo, ou seja, há placas nas secções a informar “Para ler dos 6 aos 8 anos”, “Para leitores dos três aos quatro anos”. Quer dizer que se tiver mais ou menos idade do que aquela não devo ou não posso ler aqueles livros? E o que dizer da livre exploração dos livros, sem etiquetas de idade, o livro como objeto de desejo? O escritor Álvaro de Magalhães expressa bem essa ideia: “Dizer que é só para crianças é uma coisa um bocado redutora. São também para crianças, as crianças também os leem, mas um livro para crianças, se um adulto não gostar dele (…) não serve para as crianças.” (AM, p. 217, l. 21- 23).
10
Vários dos participantes neste estudo referiram a importância de ter crescido entre livros ou de se lembrarem da sua ausência. Uma das autoras referiu mesmo:
Tinha um fascínio pelos livros dos meus pais, que também eram poucos, mas o meu pai tinha umas enciclopédias com animais, tinha umas enciclopédias de História, e eu lembro-me de ficar fascinada, só pelo exterior. As dos animais ainda explorava por dentro, porque tinham ilustrações. Mas era um contacto de que eu gostava, mesmo sem perceber muito bem o que é que ia por ali. (SG, p. 130, l. 1-5).
Também outra das entrevistadas refere:
Não havia livros, nem na minha casa nem na casa de ninguém, o livro estava completamente ausente daquela comunidade. Os únicos livros que havia eram os manuais escolares e naquela altura ainda não havia esta proliferação e os livros iam passando de irmãos para irmãos e portanto era o livro único. Eu comecei a gostar de ler através do contacto com a narração oral, através de ouvir contar histórias, que eu tive o privilégio de ter com várias pessoas, mas sobretudo houve uma pessoa que me marcou particularmente, que era um primo que eu tinha, que era o primo Augusto (ES, p. 107, l. 1-8).
Sobre este deslumbramento por um objeto ou por um ato que tem lá dentro tesouros, que permite correr mundos sem sair do mesmo lugar, Rocha (1992) afirma que se pensa e se fala pouco dos livros que se constituem como elemento atuante, quer pela sua presença quer pela sua ausência, para a criança. Embora a criança esteja rodeada por muitos outros estímulos, os livros são potenciais agentes modeladores dos seres do futuro que são crianças. No entanto esses livros (para crianças) aí estão, aí têm estado há dezenas de anos, conseguem espalhar emoções, deixar recordações, operando segundo vetores variados, raramente reconhecidos como força atuante. Os contos, as ilustrações, os poemas – ou ausência de tudo isto – condicionam quem dessa força nem se apercebe.
Não me proponho fazer aqui um estudo longitudinal sobre a importância dos livros na infância, mas, quer pelas pesquisas feitas, quer pelos depoimentos recolhidos, reconheço que o livro pode funcionar como objeto de desejo desde a infância. E a literatura de potencial receção infantil pode ser marcante na vida das crianças e adultos, independentemente do rótulo que se coloque nessa secção da literatura.