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3. METODE

3.3 U TVALG

A partir de aspectos gerais, Sedução e Vingança e Valente são filmes muito parecidos. Ambos constroem suas narrativas a partir da figura de uma mulher que depois de sofrer uma agressão torna-se uma assassina. O termo vigilante aparece como uma atribuição da mídia em ambas as narrativas, remetendo a um assassino que faz justiça com as próprias mãos, desprezando a lei e a justiça. Em certo sentido, a ideia do filme de retaliação – ou do vigilante – acaba por guiar grande parte das análises de

Sedução e Vingança102. Valente tende a ser analisado na mesma chave, ainda que a

102 A este respeito, ver: Christensen, Terry; Hass, Peter J. Projecting Politics: Political Messages in

American Film. Armonk: M.E. Sharpe, 2005, pp. 269-270; Clover, Carol J. Men, women, and chain

- 65 - obliteração do conteúdo sexual da violência construída pela narrativa tenha levado, no meu entender, críticos a compararem-no a filmes como, por exemplo, Desejo de Matar (Death Wish, Michael Winner, 1974)103. Minha interpretação, no entanto, estabelece-se a partir da percepção de que essa generalização encobre as especificidades destas narrativas104.

Duas principais diferenças chamam atenção. A primeira refere-se aos atributos que fazem com que, de um lado, Thana apareça como um personagem mentalmente desequilibrado e Erica não. As duas mostram-se confusas, têm crises nervosas no trabalho e tornam-se insones. O fato de Erica ter uma voz que expressa seus conflitos internos parece-me ser fundamental para que sua figura torne-se capaz de despertar uma maior identificação com o espectador do que a figura de Thana. A violência expressada por Thana é, neste sentido, mais visceral. O poder da fala atribuído a Erica torna a expressão de sua violência mais inteligível, ainda que se apresente como uma força interna que ela não consegue controlar.

Assim, traça-se um interessante paralelo entre os dois personagens: a chance de Erica exprimir o que pensa e sente através da voz a humaniza, ao mesmo tempo em que torna o filme explicado em demasia – tudo parece passar pela palavra; a ausência da fala em Sedução e Vingança erotiza a vingança de forma a que a violência que daí emerge a supera. Tudo aquilo que escapa à “razão” e que está provocativamente presente na elaboração da fantasia masculina em Sedução e Vingança, aparece plenamente justificado em Valente. Se Valente recusa-se a elaborar essa fantasia, dá, por sua vez, voz ao ato de vingança, elaborando a violência através da palavra.

A segunda refere-se às relações que os personagens estabelecem nas narrativas. A inserção profissional de Erica confere-lhe um lugar muito diferente do ocupado por Thana. Suas relações são mais substantivas – ela não deixa de ser uma mulher solitária, mas por razões completamente diferentes das que fazem Thana o ser. Deste modo, a reação de Erica à agressão é construída numa chave mais melodramática do que a de Thana. É por isso que Valente só termina quando os agressores de Erica são mortos. Erica encontra a redenção na morte de seus agressores, é dessa forma que sua vingança se completa. Thana, ao contrário, ultrapassa os limites da vingança. A violência a

103 A este respeito, ver: Scott, A.O. “Packing Heat After a Coldhearted Crime”. In: The New York Times, 14/09/2007. Disponível via URL: http://movies.nytimes.com/2007/09/14/movies/14brav.html; acessado em 17/06/2009.

104 Não deixa de ser curioso, no entanto, que haja entre as narrativas certas “coincidências” em relação aos personagens que integram as tramas. Os dois filmes utilizam-se de cachorros, de vizinhas e de chefes para compor o rol de seus personagens.

- 66 - completa.

Considerar que os filmes integram a mesma temática, seria de algum modo reconhecer que a ideia da retaliação é a que mais orienta a construção de suas narrativas. Minha interpretação é de que essas narrativas superam essa delimitação. Se, como foi mostrado, o problema de Sedução e Vingança reside no corpo feminino, o problema de Valente é o que se imagina que este corpo seja capaz de fazer. Valente, neste sentido, evidencia o principal problema sobre o qual me debruço aqui: as transformações, ocorridas no cinema do período, no imaginário que associa violência à figura feminina. Transformações estas que possibilitaram que a violência feminina deixasse de ser punida na tela do cinema.

Ao sediar a violência na figura de uma mulher, a ideia da retaliação revela, contudo, sua importância. Filmes que apresentam vigilantes, como Sedução e Vingança e Valente, exacerbam um elemento que se faz presente em muitas narrativas que apresentam mulheres violentas. A partir dos anos 1970, atos violentos cometidos por mulheres começaram a ser justificados por um evento anterior que serve de motor à ação. Neste contexto, são as circunstâncias que forçam ou levam a mulher a manifestar sua violência. Ao justificar a violência feminina desta maneira, a ideia da retaliação, por um lado, permite que um personagem feminino mostre seu conteúdo agressivo, amenizando – às vezes mais, como em Valente, às vezes menos, como em Sedução e

Vingança – a estranheza causada pela associação da violência ao corpo feminino. Por

outro, colabora para a permanência, no imaginário, da ideia de que a violência é exterior à figura feminina, que ela não lhe é “natural”, reiterando os efeitos da docilização do corpo feminino pelo seu contrário. Ao fim, a mulher violenta se apresenta como outro. Não um outro que é masculino, mas um outro-feminino, que se desdobra tanto da loucura de Thana, quanto da reinvenção de Erica. Os caminhos que tornam possível considerar Thana e Erica como outros-femininos, do e no cinema, são abordados no capítulo seguinte.

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C

APÍTULO

II

O

SURGIMENTO DA GUERREIRA COMO PERSONAGEM CINEMATOGRÁFICO

Na constituição das diversas possibilidades de narrativa fílmica, a linguagem cinematográfica incansavelmente atribui formas às sensações e emoções, aos comportamentos e movimentos. Por um lado, no que se refere às histórias relatadas, criam-se conjuntos que, ao se reproduzirem em diversos filmes, padronizam tramas e tipos de personagens, algo que, não raro, acaba por encobrir suas singularidades. Por outro lado, grande parte das características da narrativa diz respeito não a sua história, mas às opções de sua constituição, e às estratégias utilizadas na proposição de seus sentidos – como a captura das imagens e dos sons, os enquadramentos e, especialmente, a montagem. A narrativa compreende, portanto, não apenas a história contada pelo filme, mas as estratégias utilizadas para a construção de suas articulações, e, portanto, para a proposição de seus sentidos, cujos significados dependem não só do que se vê, mas de como se mostra o que se vê1.

A maneira como cada filme constrói suas articulações e propõe seus sentidos revela-se especialmente relevante no que tange à significação da violência. Paulo Menezes chama atenção, ao dedicar-se à análise de Laranja Mecânica, para a fluidez da definição de violência neste filme, apresentada que é a partir de várias formas e imagens diferentes, tanto no que se refere à violência física propriamente dita, quanto à psicológica e política2. Considerando ainda o mesmo filme, Edilson Atsuo Saçashima lembra que suas imagens mais sugerem que mostram a violência, de modo a que, se os espectadores as tomam como violentas, isto se dá pela projeção de valores sobre aquilo que se vê na tela3. A respeito de como se mostra e como se percebe a violência no cinema, Hilary Neroni diz que há uma inegável dimensão espetacular relativa à violência fílmica, dimensão esta que se realiza, contudo, apenas por meio da narrativa4.

1 Cf. Carrière, Jean-Claude, A linguagem secreta do cinema, op. cit., 1995, p. 58.

2 Cf. Menezes, Paulo, À meia-luz: cinema e sexualidade nos anos 70, op. cit., 2001, pp. 56-57.

3 Cf. Saçashima, Edilson Atsuo, A Questão da “Violência” no Cinema de Stanley Kubrick, op. cit., 2007, p. 116.

4 Neroni, portanto, contrapõe-se tanto aos autores que veem na violência um elemento não-narrativo, ou seja, como puro espetáculo – um elemento distinto do filme, dotado de uma lógica, estrutura e relação própria com o espectador –, bem como aos autores que vem na violência um elemento fílmico como qualquer outro, indistinto. Para ela, há, neste sentido, uma narratividade associada à violência fílmica. Considerando a importante função ideológica do cinema, Neroni vê na violência um elemento que pode tanto reforçar quanto desafiar a funcionalidade de ideologias. Cf. Neroni, Hilary. The violent

- 68 - Deste modo, por ser um conceito fluído, impregnado de moralidade, cada narrativa estabelece o pano de fundo sob o qual a violência adquire sua importância e significado. Desde o aparecimento de Alien (Ridley Scott, 1979), afirma-se que o cinema vem construindo um novo padrão de exercício da violência feminina na tela. Este padrão teria, de acordo com uma série de autores, ganhado fôlego durante a década de 1990, espalhando-se por vários tipos de narrativas fílmicas durante a primeira década dos anos 2000. Dessa maneira, para Neroni, até muito recentemente, a violência aparecia na tela como uma atividade primordialmente masculina, embora tenha havido períodos em que diferentes tipos de narrativas apresentassem, esporadicamente, mulheres violentas. De acordo com ela, é a partir dos anos 1980 que a violência feminina teria se espalhado por uma variedade de tipos de narrativas5. Já para Neal King e Martha McCaughey foi durante a década de 1990 que isto efetivamente aconteceu. Antes confinada em filmes de baixo orçamento, principalmente durante as décadas de 1960, 1970 e 1980, Alien e O Exterminador do Futuro 2 (Terminator 2: Judgement

Day, James Cameron, 1991) foram os filmes que teriam marcado o aparecimento deste

novo padrão no cinema hollywoodiano. Estes filmes, bem como Nikita (Luc Besson, 1990), O Silêncio dos Inocentes (The Silence of the Lambs, Jonathan Demme, 1991) e

Thelma e Louise (Thelma & Louise, Ridley Scott, 1991) teriam sido os primeiros a

despertar o interesse dos meios de comunicação de massa e dos estudiosos sobre o cinema para as transformações que fizeram com que a figura feminina deixasse de se apresentar como vítima da violência para tornar-se algoz6. Por outro lado, Sherrie A. Inness identifica, neste mesmo período, uma explosão de aparições da violência feminina também em outros meios, como a televisão, os quadrinhos e os videogames. Ao considerar todas essas manifestações e produtos culturais, Inness chama atenção para a longevidade de uma figura feminina forte na cultura norte-americana. Para ela, contudo, o sucesso de personagens como Ellen Ripley de Alien e Sarah Connor de O

Exterminador do Futuro 2 foi responsável pela explosão que se deu no cinema dos anos

seguintes. Assim, nos termos de Inness, se mulheres fortes já faziam parte de um imaginário norte-americano, a especificidade do momento mais recente, além do aumento dramático do número de suas aparições, advém da utilização de uma estética woman: femininity, narrative, and violence in contemporary American cinema. Albany, NY: State

University of New York Press, 2005, pp. 2-8. 5 Cf. Neroni, Hilary, op. cit., 2005, p. ix.

6 Cf. King, Neal; McCaughey, Martha. “What’s a mean woman like you doing in a movie like this?”. In: _____ (eds.) Reel knockouts: violent women in the movies. Austin, TX: University of Texas Press, 2001, pp. 4-5.

- 69 - diferenciada, em que a figura feminina aparece mais musculosa e agressiva do que no passado. Além disso, essa nova mulher mostra-se independente, pois já não precisa de uma figura masculina para vir em seu socorro ou resgatá-la do perigo. Desse modo, para esta autora, as imagens de personagens deste tipo apresentam-se como imagens da liberação feminina das restrições da estrutura de dominação de gênero7. Já Dominique Mainon não parece estar tão segura a este respeito. A autora conta, entretanto, como tais imagens despertaram seu interesse na primeira metade dos anos 2000, ao dar-se conta da “naturalidade” com que a violência dos personagens femininos dos dois volumes de

Kill Bill fora construída nas tramas. Mainon percebeu esta mesma “naturalidade” em

vários outros filmes dos anos imediatamente seguintes, como Rei Arthur (King Arthur, Antoine Fuqua, 2004), Sr. e Sra. Smith (Mr. & Mrs. Smith, Doug Liman, 2005),

Resident Evil – Apocalipse (Resident Evil: Apocalypse, Alexander Witt, 2004), O Clã das Adagas Voadoras (Shi mian mai fu, Yimou Zhang, 2004), Quarteto Fantástico

(Fantastic Four, Tim Story, 2005), Anjos da Noite – A Evolução (Underworld:

Evolution, Len Wiseman, 2006) e Sin City – A Cidade do Pecado (Sin City, Frank

Miller, Robert Rodriguez e Quentin Tarantino, 2005). Suas imagens, inseridas, portanto, em diversos tipos de narrativas, aliam, segundo ela, força e sensualidade à figura feminina, de modo que as mulheres desses filmes deixam de aparecer simplesmente como as vítimas gritantes de antes, para converterem-se em personagens guerreiros, vingativos, furiosos e maus8.

Em face destas diferentes percepções, este capítulo dedica-se, em primeiro lugar, a reconstruir o percurso que tornou possível considerar este padrão de exercício da violência como novidade e os problemas que, a partir dele, se apresentam, de modo a discutir de que maneira este novo padrão pode ter engendrado uma possível ressignificação do feminino por meio de um novo tipo de personagem. Para tanto, num primeiro momento, serão abordados alguns dos principais tipos de personagens femininos construídos pelo cinema, chamando a atenção para aqueles que possivelmente contribuíram para o surgimento do tipo de personagem que expressa este novo padrão. Em segundo lugar, neste capítulo problematiza-se a maneira como diferentes autores perceberam o surgimento de personagens femininos violentos no

7 Cf. Inness, Sherrie A. “'Boxing gloves and bustiers': new images of tough women”. In: _____ (ed.).

Action chicks: new images of tough women in popular culture. Nova Iorque: Palgrave Macmillan,

2004, pp. 1-9.

8 Cf. Mainon, Dominique; Ursini, James. The modern amazons: warrior women on-screen. Pompton Plains, NJ: Limelight Editions, 2006, pp. xi-xxi.

- 70 - cinema, de modo a sublinhar, em relação ao imaginário, a especificidade da violência que expressam.