• No results found

3.   TEORI

3.2   U TDANNINGSSYSTEMET

Aqui, diferente do que acontecia em outras épocas, o jornal se utiliza com muita força das imagens. Se no passado os ataques terroristas eram descritos a fim de se criar imagens mentais sobre o ocorrido, agora, eles são mostrados. E as imagens se tornam a parte mais importante da notícia, juntamente com as chamadas de capa em letras grandes e outros artifícios que misturam imagem e texto, como os chapéus e os infográficos. Observando-se as páginas de cobertura dos atentatados de Nova York em jornais e revistas e também na Internet, podemos ver que as fotografias e os gráficos ocupam a maior parte das páginas. Todas as páginas são ilustradas por eles. Na TV, a cobertura também explorou as imagens de forma excessiva. As edições rápidas de programas como o Jornal Nacional e o Jornal das Dez, da Globo News, privilegiou os cortes dinâmicos e a troca rápida das imagens que cobriam as falas dos apresentadores e repórteres. Sabe-se que existem níveis diferentes de leitura emqualquer veículo. No caso dos impressos, o primeiro nível é feito a partir das informações que chegam inicialmente ao leitor, fotografias e outras imagens, chamadas, linhas finas e janelas formam esse primeiro nível de leitura, no qual muitos dos leitores param. Ou seja caso opte por não ir adiante na leitura da matéria, por falta de tempo ou desinteresse, o leitor já se consideraria minimamente informado pela leitura rápida dos elementos primários de compreensão. E é exatamente nesses elementos primários que a opinião do veículo / jornalista se impõe. Para o leitor comum, é muito mais difícil perceber a manipulação ou o direcionamento da matéria a partir da leitura de imagens, que se mostra muito menos transparente que nos textos. Se no texto é possível perceber com maior ênfase a presença de declarações de determinadas fontes ou de uma edição que direcione o leitor

[143]

/ espectador, nas imagens, fotografias e gráficos e na utilização de cores tudo parece muito mais natural ao leitor, afinal, ele tem as sensação de estar vendo “com seus próprios olhos”.

Voltando ao início de nossas colocações, vamos retomar a história que começamos a contar. Até aqui, fomos desenhando as peças do quebra-cabeças que nos permite entender, em grande parte, o efeito obtido com o ataque à torres gêmeas em setembro de 2001. Vamos agora, juntá-las, a fim de compreender como as estratégias dos terroristas, apesar vestirem uma “roupagem nova”, foram montadas a partir de estruturas profundas de nossas camadas culturais:

- A expansão das imagens foi feita de maneira espetacular, através dos nossos grandes distribuidores de símbolos – os meios de comunicação de massa. Os mesmos meios de comunicação que propagam e difundem o ideal estadunidense difundiram a imagem que os inimigos tanto queriam ver.

O intervalo entre os ataques no 11 de setembro muito provavelmente foi minuciosamente calculado para que houvesse tempo de “convocar” a imprensa para presenciar ao vivo a destruição da segunda torre. Como na “guerra” da qual trata Pross (1989), o inimigo se impôs sem precisar ocupar cada canto do mundo ocidental fisicamente: ele o fez simbolicamente, através da estrutura de comunicação do país atacado e de nossos próprios aparelhos de TV.

Essa guerra foi feita, sobretudo, pela criação de imagens. Quando as imagens foram geradas, ninguém precisou de explicação, de longos textos para entender que o que se passava ali era um ato proposital, muito bem sucedido, que só poderia vir de um grande inimigo dos EUA.

Esse episódio foi exemplar para entendermos o funcionamento do terror no Séc. XXI e, mais que isso, para as guerras do Séc XXI. E aqui estamos nos referindo a todo o tipo de guerra: entre nações, entre grupos de nações, entre ideologias e religiões. Falamos ainda da guerra urbana. Guerras que não é mais física simplesmente. A ameaça não repousa sobre a destruição dos alvos e a morte de pessoas. Mais que em qualquer outro momento da história, nossas guerras são simbólicas. São guerras feitas, sobretudo, a

[144]

partir dos meios de comunicação. A principal arma não está nas mãos de soldados que destroem alvos e vidas, mas no discurso simbólico que é construído, muitas vezes, a partir da simples ameaça da destruição, disseminada pela imprensa do atacado.

Acreditamos que, dessa forma, conseguimos compreender em grande parte como se deu a construção do fato 11 de setembro e como essa imagem serviu tanto aos propósitos dos terroristas, quanto aos interesses do governo dos EUA e do jornalismo espetáculo do Séc. XXI.

Fechamos aqui parte da história que nos dá pistas para entender o que aconteceu nos anos que se seguiram, na imagem do terrorismo, na construção do terror e na forma como isso foi utilizado por diversos setores, desde a imprensa até o governo dos EUA, passando pela indústria bélica e de seguros.

O dia de pânico alimentou a chamada cultura do medo, com todas as consequências que isso pode trazer: o mundo, ao se apresentar pelos olhares midiáticos como um lugar mais perigoso para se viver, criou seres humanos mais fechados e medrosos, e nações mais xenofóbicas e agressivas com o estranho.

Para concluir este capítulo, queremos resgatar algumas imagens de Veja utilizadas aqui e onde são retratados terroristas genéricos, homens que representariam todo o seu grupo. A primeira imagem é de 13 de agosto de 1969, a segunda, é de 26 de setembro de 2001 e a terceira é de 03 de novembro de 2001.

[145]

A semelhança no recurso utilizado para mostrar a imagem do terrorista, em épocas diversas, é muito grande. Em todas, homens aparecem com os rostos cobertos e olhos escuros e ameaçadores. Mais de trinta anos depois da capa que mostrava os terroristas comunistas e da qual tratamos no início deste capítulo, e já na época dos atentados assinados, vemos o retorno da imagem ameaçadora, encoberta, desconhecida e generalizante, que mostra que o terror pode estar em qualquer lugar.

[146]

[ QUATRO ]

“The day after”

e o mundo que não era mais o mesmo

Neste capítulo procuramos levantar alguns dos episódios que envolveram terrorismo após 11 de setembro de 2001, até os dez anos do evento, em setembro de 2011. Não pretendemos, obviamente, abarcar todos os momentos em que o terrorismo esteve em pauta. Fizemos uma seleção que inclui os episódios que receberam mais destaque na mídia e que tiveram maior importância na construção da imagem do terrorismo e na propagação do terror nessa década.