3. TEORI
3.3 F ORFREMMELSE
3.3.2 Forfremmelse av NCOs
Em 07 de outubro de 2001, menos de um mês após os ataques terroristas, EUA e Inglaterra declararam guerra e invadiram o Afeganistão. O grande argumento era que o governo Talibã, então responsável pela administração do país, era um grande apoiador de Osama bin Laden, que teria ali desenvolvido seu plano de ataque aos EUA. Toda a cobertura midiática do 11 de setembro favoreceu os argumentos dos que eram pró- invasão do Afeganistão. Ali, tinha-se criado uma imagem distorcida e maniqueísta de todo o povo árabe e, de maneira particular, dos afegãos. Era preciso atacá-los para vingar e extirpar o mal que tanto havia ferido os EUA. O que aconteceu naquele período
[154]
foi que não havia de fato um país para quem declarar guerra, já que os ataques haviam sido praticados por um grupo específico e não por um país. Passou-se a caçar esse grupo e seu líder, mas isso não era suficiente para melhorar a imagem ferida e cambaleante do governo dos EUA. A nosso ver, era necessário fortalecer a ideia de vingança. Para tal, elegeu-se como inimigo o país que supostamente apoiava o idealizador dos ataques. Outro argumento para a invasão era que o Afeganistão escondia Osama bin Laden, o grande alvo dos EUA. Entrar no país significaria ter acesso a ele. Acreditava-se, ainda, que a Guerra duraria pouco tempo, já que o país atingido era miserável e já estava destruído por uma série de invasões estrangeiras e guerras civis anteriores.
Boa parte do mundo – e inclusive a ONU – foi contrária a essa invasão. O argumento
dos contrários era que não havia nenhuma declaração de guerra feita por aquele país, que não poderia ser atacado sem motivo.
O fato é que a guerra no Afeganistão foi bem mais dura que se esperava. Os exércitos dos EUA e aliados encontraram muita resistência. Em 2012, as tropas estrangeiras continuam no Afeganistão.
A guerra no Afeganistão, especialmente entre os anos de 2001 e 2005, aconteceu simultaneamente no local e pela imprensa. Por um lado, EUA e aliados mantinham jornalistas com informações favoráveis às suas intenções: cidades já ocupadas pelas
tropas aliadas, número de “radicais” presos ou mortos. Poucos correspondentes
internacionais se aventuraram por terras afegãs, já que, como veremos mais adiante, os jornalistas acabaram se tornado importantes alvos dos talibãs. Dessa forma, as informações chegavam à maior parte do mundo filtradas e direcionadas pelas mesmas fontes. E as notícias que vinham dessa forma, em geral, eram positivas: cidades estavam sendo tomadas pelas tropas aliadas, civis estavam sendo poupados, líderes talibãs estavam sendo presos. Tudo era mostrado como se as operações tivessem precisão cirúrgica. E as vozes a contar essas histórias eram poucas: as redes de televisão estadunidenses, especialmente a CNN, que já havia sido muito bem utilizada pelos EUA em outras guerras e as agências de notícias internacionais. Do outro lado, obviamente sem poder contar sua versão da história à maior parte do mundo, e sem uma estrutura de comunicação semelhante à dos inimigos à sua disposição, os atacados encontraram na estrutura da mídia contemporânea as brechas de que precisavam para mostrar um pouco
[155]
do seu lado. Violência, espetáculo de sangue e corpos mortos foram alguns dos ingredientes utilizados para ganhar espaço na mídia. Já que não adiantava mostrar corpos de afegãos para conseguir os olhares do mundo, pois a morte de afegãos nada mais era do que um “efeito colateral” da vingança necessária, eles passaram a expor corpos dos próprios estrangeiros, considerados invasores na mídia.
O exemplo mais claro disso aconteceu em 31 de março de 2004. Na ocasião, a mídia toda divulgava, a partir da versão dos EUA, que as tropas aliadas haviam tomado Fallujah, considerada uma das áreas mais difíceis e “rebeldes” do país. Tomar Fallujah era praticamente vencer a guerra. Diante dessa informação, houve o fato: dezenas de afegãos atacaram quatro estrangeiros, trabalhadores de empresas de Engenharia dos EUA. Eram, portanto, civis e não soldados, o que ampliou o poder da ação. Os corpos foram mutilados e afixados no alto de uma ponte.
O ataque aos civis virou notícia imediatamente, como mostra a matéria abaixo, produzida a partir de material da agência de notícias France Press e publicada no site Uol, pertencente ao grupo Folha, ainda no dia 31.
Mas a grande repercussão ainda estava por vir: as imagens dos corpos sendo mutilados e, mais que isso, pendurados como bandeiras em uma ponte de Fallujah, com pessoas comemorando ao redor, foram gravadas pelos próprios afegãos que, sem ter uma rede de notícias que pudesse atingir o grande público, as divulgaram através da Internet, via e-mail e sites de compartilhamentos de vídeos. Corpos-bandeira são visíveis e ajudam a marcar território. A intenção era, segundo eles, vingar a morte de um líder religioso,
[156]
mostrar o que haviam feito e contrapor as informações de que Fallujah estava tomada. Assim, utilizando a estrutura e a tendência da mídia do inimigo, eles conseguiram o que queriam, burlaram os filtros e deram seu recado. As imagens dos corpos foram reproduzidas por vários veículos de comunicação pelo mundo, como a Folha de S. Paulo de 1 de abril de 2004 e a revista Veja de 7 de abril do mesmo ano:
Os corpos-bandeiras pendurados nas pontes ganharam muito mais destaque que qualquer outra noticia provocada pelos afegãos à época. Obviamente, o olhar da mídia ocidental foi negativo para o episódio, mas ele serviu exatamente ao que os afegãos queriam: entraram na mídia dos inimigos com uma notícia criada por eles mesmos e mostraram que a situação não era tão tranquila e positiva como tentavam fazer crer os estrangeiros. Os corpos expostos causaram repulsa, mas, ao mesmo tempo curiosidade e apontaram para as mentiras que vinham sendo ditas por quem controla a imprensa ocidental. Na falta de outros elementos que pudessem lhes dar voz, os inimigos se utilizaram dos corpos dos para atingir o público que almejavam. Como vimos no capítulo 1, segundo Pross, o corpo é nossa primeira mídia, é a nossa “mídia primária” na construção da comunicação humana. Ao utilizar corpos dos inimigos para ampliar suas mensagens, os homens de Fallujah usaram a mídia primária do outro para que eles próprios mostrassem, de forma indireta, o que estava acontecendo. Neste caso, também foi utilizada a mídia terciária do inimigo, com toda a estrutura e a velocidade patrocinadas pela Internet.
[157]
O episódio de Fallujah evidenciou todo o ciclo da comunicação contemporânea: homens estadunidenses foram atacados. Seus corpos pendurados como bandeiras apontaram que essas mortes não acontecerem simplesmente para que os responsáveis por elas se livrassem dos inimigos, mas para servirem como exemplos darem visibilidade a uma realidade pouco conhecida pelos inimigos, uma prática antiga e comum entre os homens. Ao utilizar corpos dos outros para passar informação, os homens de Fallujah mexeram com pontos cruciais da nossa cultura: o corpo de um dos nossos, assim apresentado e exposto, nos atinge diretamente. Ao mesmo tempo, esse material forneceu aos produtores de consumidores de notícia, material rico em valores-notícia: violência, inusitado, medo. A violência que, como já vimos, ajuda a aplacar nosso desejo por sangue, e, ao mesmo tempo, quando praticada contra um dos nossos, faz com que temamos ser os próximos. E tudo isso foi feito com a utilização da mais atual tecnologia, alimentada e alimentadora do desejo de velocidade e visibilidade, estudados aqui no capítulo 2. Assim, utilizando as mais recentes ferramentas de informação dos inimigos e as estruturas mais profundas da cultura humana, simultaneamente, os homens de Fallujah entraram rapidamente e sem chance de censura, nas casas de milhões de pessoas em diversas partes do mundo.
Outra forma de atingir os holofotes ocidentais foi com o sequestro de jornalistas. Dezenas morreram nos conflitos e vários foram sequestrados e tiveram seus pescoços decaptados em imagens gravadas que depois foram divulgadas via Internet para o público no resto do mundo.