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Paulo Freire nos trouxe a importância do pensar reflexivo necessário para construir a consciência coletiva. Estes ensinamentos, que também estiveram presentes na nossa formação de educadores do campo, s ajudaram-nos a estruturar um pensamento organizado, investigativo, crítico sobre as coisas e sobre o ser docente, nos comprometendo com a construção da consciência crítica, com uma nova maneira de educar que contribuísse para que as pessoas pudessem melhor a realidade vivida e fossem capazes de agir sobre essa realidade, transformando-a. Desse forma, Freire (1987) foi-se fazendo presente em nosso pensamento e em nossas ações desde o início de nosso trabalho coletivo com os jovens na escola. A Pedagogia do Oprimido caminhou passo a passo em nossa constituição enquanto coletivo.

A pedagogia do oprimido, como pedagogia humanista e libertadora, terá dois momentos distintos. O primeiro, em que os oprimidos vão desvelando o mundo da opressão e vão comprometendo-se na práxis, com a sua transformação; o segundo, em que, transformada a realidade opressora, esta pedagogia deixa de ser do oprimido e passa a ser a pedagogia dos homens (e mulheres) em processo de permanente libertação. (FREIRE, 1987, p. 23)

A Pedagogia do Oprimido é uma pedagogia que tem compromisso com a melhoria das condições de vida das populações oprimidas. E essa pedagogia não seria construída ignorando a realidade em que estavam inseridos os educandos a quem ela se dirigia e tão pouco ignorando a consciência que dela eles faziam. Ela tem que ser forjada com eles e não para eles, enquanto homens e mulheres trabalhadores camponeses na luta incessante de recuperação de sua humanidade.

Assim como Freire (1987), a nossa prática em sala de aula (ou na escola) pretende partir sempre de como os educandos compreendem a realidade e não apenas a forma como nós educadores a interpretamos. A transformação da sociedade e da educação passa, necessariamente, pela reestruturação do processo produtivo, da educação e de todas as relações implicadas neste processo.

Freire (1987) critica o adestramento e a mecanização da educação, como forma pura e simplesmente voltada para a produção de mercado. Tendo como contraponto uma educação que desenvolve a consciência crítica, que promove a mudança social, Freire vai contribuir dizendo,

Em verdade, não seria possível a educação problematizadora, que rompe com os esquemas verticais característicos da educação bancária, realizar-se como práticaprática da libertada de, sem superar a contradição entre o educador e os educandos. Como também não lhe seria possível faze-lo fora do diálogo. (FREIRE, 1987, p. 39).

Nessa perspectiva dialógica, trazer para o debate a compreensão de que não existe uma única forma de ver o mundo é muito importante, pois as leituras de mundo são diferentes e muitas vezes influenciadas pela prática social, não podem ser determinadas. Elas devem ser compreendidas em suas especificidades e trabalhadas de forma a expandir as possibilidades de leitura da realidade.

O aprendizado da leitura e da escrita, associado ao necessário desenvolvimento da leitura crítica da realidade não é apenas conteúdo didático. Assim, é necessário compreender que, refletir sobre educação é refletir sobre o ser humano, educar é promover a capacidade de interpretar o mundo e agir para transformá-lo. Para Paulo Freire(1987), a relação dialógica e com o mundo no processo educativo é fundamental. Não basta ler o contexto em que vivemos, é preciso também ler o estar sendo inserido nesse contexto, ou seja, considerar, simultaneamente, as dimensões individual e social na compreensão da história como possibilidade e não como determinação. Freire afirma que “Através de sua permanente ação transformadora da realidade objetiva, os homens, simultaneamente, criam a história e se fazem seres histórico-sociais. “(1987,

p.55) Educandos e educandas devem ser conscientes de que são seres inacabados, sujeitos da história e que mudar é possível.

O pensamento de Paulo Freire (1987) traça um paralelo no sentido da desconstrução, visando nos conscientizar do processo de desumanização causada pela ação destrutiva do capitalismo nos sujeitos, que, inconscientemente vivendo situações de opressão, hospedam também o opressor. Dessa forma, ressalta-se que precisamos reconhecer primeiro a nossa condição, para depois nos tornarmos sujeitos da nossa própria transformação. Freire (1987) diz que temos que ter disposição de aprender o novo, reconhecendo nossas limitações, de nos reconhecer como seres inacabados, que nos vamos construindo no processo vivido, na relação com o mundo e com os outros.

Assim, tornando-se sujeito coletivo que se constrói a partir das contradições, o ser humano é um ser social. Dessa forma, a consciência e transformação do meio deve acontecer em sociedade, no meio em que vive, meio que transforma e é transformado num movimento dialético.

Freire (1987) nota que o ensino deve sair do pretexto, entrando dessa forma no contexto da realidade dos alunos. Infelizmente, há um grande predomínio tanto no campo como na cidade, de uma alfabetização, de um ensino sem sentido, conformado com os interesses que a elite impõe. Freire (1987) diz que a educação é um ato políticopedagógico, sendo assim, vencer o modelo domesticador é um desafio que é possível de ser superado. Para que isso ocorra é necessário a dialogicidade, essência para que a educação se efetive com mais qualidade, desaprisionando e proporcionando a liberdade.

A comunicação não se faz simplesmente por palavras jogadas e sem propósito. Essas palavras têm significados, sentidos que nos revelam o mundo. Portanto, antes de ler uma palavra é importante ler o mundo. O mundo é construído por relações sociais, dinâmicas e composto por diferentes classes sociais.

Podemos afirmar que, a partir de Freire (1987), ensinar exige rigorosidade metodológica, pesquisa, respeito aos saberes dos educandos, consciência, inacabamento, risco, disponibilidade para o

diálogo. Exige reconhecer que a educação é dialógica. (FREIRE,1987) E nessas palavras é que se faz inicialmente necessário ao educador que em trabalho coletivo faça o levantamento preliminar da realidade local, em outras palavras significa que é preciso que haja a compreensão da história como possibilidade e não como determinação.

As práticas pedagógicas no ProJovem Campo, a partir desses olhares, mostraram-nos que ambas as pedagogias, a Pedagogia Revolucionária que por meio da prática está comprovado que a Escola do Trabalho e a Práxis Educativa não percorrem caminhos distintos, andam lado a lado e como aconteceu e acontece na nossa prática educativa no ProJovem Campo - Saberes da Terra se encontraram. Molina e Ferreira (2014) fazem uma reflexão deste encontro de mestres revolucionários:

Se por um lado Pistrak desenvolveu sua teoria pedagógica a partir dos Sistemas de Complexos, presentes no plano social, que tinha intrínseca relação com a realidade social em que os sujeitos que trabalham, ensinam e aprendem, estão inseridos, por outro lado, Paulo Freire, em sua práxis educativa e social, focalizou os temas geradores originados da realidade concreta dos sujeitos. Freire deu testemunho de uma pedagogia humanista, ancorada em fecundos processos de comunicação, diálogos e problematização do trabalho, das ações e situações vividas pelos sujeitos na sua relação com a realidade social e com o mundo. A realidade social implica o trabalho e a vida das pessoas, assim como o trabalho e a vida refletem a realidade concreta em movimento dialético. Aqui, encontra-se um elo importante entre os dois pensadores, duas referências fundamentais para o trabalho formativo docente de perspectiva interdisciplinar, pelo movimento efetivo da práxis. (MOLINA e FERREIRA, 2014, p.145).

A práxis reflete-se na constituição da Educação do Campo, na proposição de Políticas Públicas, na Formação de Educadores do Campo e na Transformação da Escola do Campo na perspectiva de construção de um projeto de sociedade. Ao se somarem na nossa formação, os mestres desta Pedagogia Revolucionária, que adiante e anteriormente também bebem e beberão de outras fontes, ensinam-nos que é preciso trazer a realidade para

projetar o futuro, assim se forjam os intelectuais coletivos da classe trabalhadora.

4. A materialização do Trabalho Coletivo e a Interdisciplinaridade