Os fenômenos místicos que se realizam na cidade de Jacareí, desde 1991, têm muita semelhança com os de Fátima, Angüera e Medjugorje, já referidos neste trabalho.
Na cidade paulistana, o “vidente” é um jovem chamado Marcos Tadeu, cujo nascimento ocorreu no dia 12 de fevereiro de 1977.
Cinco dias antes de completar 14 anos, ou seja, no dia 7 de fevereiro de 1991, numa quinta-feira, o adolescente Marcos Tadeu, voltando do centro da cidade onde fora fazer algumas compras, entrou na Matriz da Imaculada Conceição. Ajoelhou-se e, ao terminar as orações do Pai Nosso, Ave Maria e Glória que, segundo ele, eram as únicas que sabia rezar, sentiu uma brisa suave que agitava sua roupa, ao mesmo tempo em que viu acima do altar uma cruz mais clara que o sol, em forma de globo, e ouviu uma voz feminina doce e terna:
Meu filho, meu filho! É preciso santificar-se. A santidade é um caminho difícil, mas o seu fim é real e glorioso.
Assustado, sem entender o que estava acontecendo, Marcos Tadeu, dirigiu- se para sua casa, prometendo a si mesmo jamais revelar a ninguém a experiência que tivera. No entanto, daí por diante, começou a notar que algo diferente estava ocorrendo em seu interior: sentia-se envolvido numa intensa paz e fortemente impelido para a oração. Encontrando, então, um terço em uma das gavetas de sua mãe, passou a rezá-lo várias vezes por dia.
Doze dias após o fenômeno a que assistiu na Matriz, Marcos Tadeu rezava o terço na sala de sua casa, quando vislumbrou novamente aquela luz “mais brilhante que o sol” e, saindo do interior, dessa luz, uma jovem aparentando uns 18 anos que lhe fazia sinal para aproximar-se dela. Mas, como o medo o retinha imóvel, a jovem encaminhou-se até o adolescente sorrindo. Tomando coragem, Marcos Tadeu, perguntou-lhe: “Quem é a senhora?” Mas, ao invés de dar a resposta esperada, a “visitante” apenas sorriu. O adolescente fez, então, nova pergunta: “Deseja que eu esteja aqui com a senhora?” Desta vez, a resposta foi dada: “Sim, meu filho, porque eu o amo. Mas não quero que venha sozinho; traga aqui muitos dos meus filhos que eu amo”. Em seguida, a personagem desapareceu e tudo voltou
ao normal. Dessa vez, porém, Marcos Tadeu, não suportando mais conservar em segredo tudo o que “vira” e “ouvira”, contou para uma tia. Esta aconselhou-o a aspergir a personagem misteriosa com água benta, caso ela voltasse. E em agosto do mesmo ano, a “Figura Luminosa” voltou, parando diante do “vidente” que, seguindo o conselho da tia, respingou-a com a água benta que trazia num pequeno vidro, dizendo: “Se vem de Deus, fique! Senão, vá embora!” A Bela jovem, porém,
reagiu sorrindo e disse: “Meu filho, eu não sou do mal. Eu vim do céu!” Ditas essas palavras, desapareceu.
Na quarta “aparição” que se deu no dia 18 de setembro do mesmo ano, às 22h30m, quando Marcos Tadeu voltava da escola, a Personagem Celeste apenas sorriu e desapareceu sem nada dizer.
Na quinta, que ocorreu na véspera do Natal do mesmo ano de 1991, ela pediu ao “vidente” para consagrar-se ao Imaculado Coração de Maria e para trilhar o caminho da penitência e da oração, o que foi posto em prática, imediatamente, por aquele adolescente.
Após o Natal, passaram-se cinco meses sem que a nobre “visita” acontecesse. No dia 07 de maio de 1992, porém, a Jovem Celeste voltou a se comunicar com Marcos Tadeu. Mas, nesta sexta visita e nas outras que a seguiram, até a décima quinta, ela não revelou sua identidade, embora o jovem continuasse perguntando o seu nome. Somente no décimo quinto encontro que aconteceu no dia 19 de fevereiro de 1993, foi que, surgindo durante a oração que o “vidente” fazia com alguns amigos, disse:
Sou a Senhora da Paz. Sou a mãe de Jesus. Meus filhos, desejo-lhes a minha paz! Rezem! Rezem! Peçam perdão pelos pecadores. Rezem com o coração. ”Abram-se a Deus e ao seu amor! Vivam felizes e que a paz encha suas vidas. Plantem a paz em vós mesmos e difundam aos outros esta paz. Eu os amo e quero dar-lhes a minha paz do céu. Eu os abençoo..
De posse da confirmação de que a pessoa que o “visitava” era realmente a Mãe do Senhor Jesus, Marcos Tadeu sentiu-se mais seguro não só para falar sobre o assunto como também para reunir-se em oração com aqueles que foram tocados pelas mensagens.
Como acontece em Medjugorje e em Angüera, de acordo com o vidente, os fenômenos místicos em Jacareí continuam e são muitos os sinais que os confirmam. Elencaremos aqui alguns dos mais notáveis:
• No dia 05 de março de 1993, uma roseira da casa de Marcos Tadeu amanheceu florida, embora na noite anterior ela estivesse totalmente desprovida de flores. Esse fenômeno havia sido anunciado por “Nossa
Senhora”, no dia 27 de fevereiro, ou seja, uma semana antes de sua realização.
• Na festa dos Anjos da Guarda do mesmo ano, dia 02 de outubro, a Virgem se fez presente num monte próximo à casa do “vidente”, como havia notificado. Era noite, quando Marcos Tadeu e um grupo de fiéis começaram a galgar a encosta do monte, rezando o rosário. À certa altura, ouviram vozes confusas e agitadas. Chegando ao cume do monte, onde iriam aguardar a “ Excelsa Visitante”, foram agredidos com palavras e pedradas por um estranho grupo que foi identificado como constituído por protestantes. De repente, às 22h30m, surge a “Rainha do Universo” e, apontando para o céu, ordenou que todos olhassem para a lua. Esse astro tomou uma coloração avermelhada e, aumentando consideravelmente o seu diâmetro, parecia vir descendo em direção à Terra. O espetáculo provocou pânico na maioria dos presentes: os protestantes saíram correndo morro abaixo e muitos católicos rezavam e choravam de medo. Em seguida, a “Rainha” apontou novamente para a lua e tudo voltou à normalidade. Essas “aparições” no monte continuam acontecendo todas as quintas-feiras, às 22h30m.
No dia 21 de novembro de 1999, no novo local das “aparições” que foi denominado de Santuário das aparições de Jesus e Maria (Marcos Tadeu tem visões também de Jesus Cristo), a Virgem “aparece” sobre uma colina. Além do “vidente” e de um grupo de devotos de Jacareí, estavam presentes vários peregrinos de outros municípios.
Segundo o “vidente”, a Virgem Maria é belíssima. Apresenta ter uns 18 anos. Seu rosto é suave e sereno. Tem os cabelos negros e seus olhos são de um azul fulgurante. A voz é melodiosa, carinhosa e materna. Traja um vestido cor de cinza azulado e um manto de intensa alvura. Na cintura traz uma larga faixa branca atada à frente e, na cabeça, uma coroa de doze estrelas. Tem sempre nas mãos um longo terço de contas luminosas. Durante o tempo de sua permanência na Terra, fica sobre uma nuvem branca que não toca o chão. De seu corpo exala um delicioso perfume de rosas.
De acordo com Marcos Tadeu, ele pode tocá-la e até beijá-la, pois a Mãe de Jesus lhe “aparece” em seu corpo glorioso (cf. Marcos Tadeu, 2000).
Após este breve relato introdutório, fixar-nos-emos na análise de uma das mensagens que tem, como palco, a cidade de Jacareí. Escolhemos a do dia 19 de março de 1993, festa de São José, por ter um conteúdo diferente daquelas já contempladas, neste trabalho. Enquanto as outras tratam de conversão, de penitência, da oração, essa última exalta o justo esposo de Maria Virgem e pai adotivo do Homem Deus:
(8) Meus queridos filhos, hoje a Igreja celebra a festa do meu esposo São
José. O´como São José era fiel! Eu o via com amor, dedicado no trabalho e na guarda da nossa sagrada família. Via-o no seu trabalho humilde, pobre e penoso, ensinando a Jesus o seu oficio de carpinteiro. O primeiro exemplo de José é a confiança em Deus. Ele não ousou difamar-me ante a minha gravidez miraculosa. Retirou-se à parte e se entregou à meditação e à oração, até que veio o Anjo do Senhor e lhe explicou o plano divino. Depois, recebeu-me como esposa, dando-me o amor e educando e guardando a vida de Jesus. Ele foi o sustentáculo precioso no nascimento de Jesus em Belém, na fuga para o Egito e na perda no templo. Nenhuma reclamação sua ao longo do caminho! Sigam o exemplo de José! Recolham-se à parte para orar e meditar. Só assim poderão saber o plano que Deus tem para cada um. Imitem José, dedicado operário! Cumpram com amor todos os seus trabalhos por mais pequenos e insignificantes que sejam (...), pois o trabalho feito com amor comove o coração de Deus. Hoje na Festa de São José, meu castíssimo esposo, eu os abençôo em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
No jogo enunciativo aqui instanciado, o sujeito falante, instaurando-se como locutor, e o seu parceiro na função de alocutário, inscreve ao mesmo tempo, um duplo sujeito da referência (a Igreja e São José ).
(8.1) Meus queridos filhos, hoje a Igreja celebra a festa de meu esposo São
José.
Diferente dos outros discursos já analisados cuja concentração está no locutor ou no alocutário, neste é a figura do delocutário que aparece em relevo.
Embora recheado de descrições, o discurso não se apresenta envolto numa atmosfera de estaticidade, por se tratar de caracterização relativa ao passado. O emprego abundante de verbos no pretérito (era, via, ousou, etc) confere-lhe o dinamismo da narração sem deixar de projetar a cena descrita. Portanto, podemos caracterizar essa estrutura discursiva como narrativo- descritiva.
Uma vez que a linguagem está centrada no referente, no tocante às suas funções, a proeminência é da função referencial. Confirmam-na, os dêiticos pronominais (o, seu, ele, se, lhe) e verbais (retirou, entregou, recebeu, ousou,
difamar, foi). Não obstante tal predominância, as funções emotiva e conativa
marcam também significativamente o discurso. A primeira representa-se pelos pronomes pessoais (eu, me) e possessivos (meus, meu, nossa, minha) e pela desinência verbal (abençoo).
Já a função conativa, está sinalizada:
a) pela expressão vocativa que abre o discurso (Meus queridos filhos); b) pelos dêiticos pronominais (se, os);
c) pela forma imperativa (Sigam, Recolham-se, Imitem, Cumpram); d) pela flexão do auxiliar “poderão” (poderão saber).
É na referência também que se concentra a intertextualidade bíblico-eclesial, claramente perceptível na superfície do texto, como por exemplo:
- A alusão ao ensinamento da profissão de carpinteiro a Jesus por José encontra eco nas duas primeiras estrofes do Hino de Laudes (Liturgia das Horas) da Festa de São José Operário, em 1º de maio:
Anuncia a aurora o dia, Chama todos ao trabalho; Como outrora em Nazaré, Já se escutam serra e malho. Salve, ó chefe de família! Que mistério tão profundo Ver que ensinas teu oficio A quem fez e salva o mundo.
- A referência à postura assumida por José perante a concepção milagrosa de Jesus, remete-nos a Mt. 1,18-25:
Eis como nasceu Jesus Cristo: Maria, sua mãe, estava desposada com José. Antes de coabitarem, aconteceu que ela concebeu por virtude do Espírito Santo. José seu esposo, que era homem de bem, não querendo difamá-la, resolveu rejeitá-la secretamente. Enquanto assim pensava, eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe disse: “José; filho de Davi, não temas receber Maria por esposa, pois o que nela foi concebido vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho a quem porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo de seus pecados (...)” Despertando, José fez como o anjo do Senhor lhe havia mandado e recebeu em sua casa sua esposa (...). __ (Bíblia Sagrada, p. 1285)
- O excerto
(8.2) Ele foi sustentáculo precioso no nascimento de Jesus em Belém, na
fuga para o Egito e na sua perda no templo,
reporta a: Lc 2,1 – 7 (Bíblia Sagrada, p. 1347 - 1348); Mt 2, 13 – 15 (Bíblia
Sagrada: p. 1285 – 1286); Lc 2, 41 – 52 (Bíblia Sagrada, p.1349), respectivamente
Já as palavras:
(8.3) -Recolham-se à parte para orar e meditar
fazem alusão a um dos ensinamentos de Jesus inserido no Sermão da Montanha: Quando orardes, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai em
segredo; e teu Pai que vê num lugar oculto, recompensar-te-á (Mt 6,6 – Bíblia Sagrada, p. 1290).
No tocante à polifonia “stricto sensu”, podemos perceber, nesta cena discursiva, um curioso imbricamento de vozes. A personagem celeste,
apresentando-se como esposa e mãe, além da função de locutor L, assume
também o papel de locutor LP e instala seu interlocutor primeiro como alocutário
AL e depois, como alocutário ALP: meus queridos filhos...
Mas, ao enunciar que a igreja celebra a Festa de São José, esse protagonista celeste fala do lugar da Igreja militante, o que o caracteriza como enunciador
Fechando o discurso,o sujeito celeste abençoa o alocutário “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Ora, se a bênção é concedida em nome da Santíssima Trindade, é dela que procede. Neste caso, pois, o sujeito da esfera celeste configura-se como enunciador da Santíssima Trindade – EST.
Na referência, além de José - delocutário sagrado (DS) e da Igreja - delocutário eclesial (D E) aparecem ainda o Anjo – delocutário angelical (DA), além de Deus Pai e Deus Filho – delocutário divino (DV).
O sujeito da emissão está sinalizado pelos pronomes pessoais: eu e me (Eu
o via com amor; Eu os abençoo; ele não ousou difamar-me; Depois recebeu-me como esposa, dando-me amor) e possessivos: meus, nossa, minha (Meus queridos filhos; meu esposo; nossa sagrada família; minha gravidez miraculosa) e ainda pela
flexão verbal: abençoo.
Quanto ao alocutário, ele está representado lingüisticamente pelo vocativo: (Meus queridos filhos), pela forma imperativa que ocorre quatro vezes (Sigam o
exemplo de José; Recolham-se à parte; Imitem José; Cumpram com amor todos os seus trabalhos) e também pela flexão do verbo poderão saber e dos dêiticos
pessoais: se e o (Recolham-se; eu os abençoo) que, no contexto, estão
identificando o sujeito da recepção e não o da referência.
No tocante ao delocutário, as marcas que o identificam são os lexemas (Igreja, José, Deus, Anjo do Senhor, Jesus) e os dêiticos pronominais: o (Ex: via
o); seu (Ex: seu ofício); ele (Ex: Ele não ousou); se (Ex: Retirou-se); lhe (Ex: lhe
explicou); sua (sua perda; reclamação sua).
Apenas o determinante do nome “perda” refere-se a Jesus: a perda de Jesus no Templo; todas as demais são alusivas ao delocutário José o que comprova ser ele o centro do discurso.
No diagrama, a seguir, apresentamos, configuracionalmente, o cruzamento vocal analisado.
LOCUTOR ENUNCIADOR ALOCUTÁRIO
E M I S S Ã O R E C E P Ç Ã O
J O G O E N U N C I A T I V O
L LP EE EST AL ALP
N. Sra. Rainha N.Sra. Rainha N.Sra Rainha N.Sra. Rainha Filhos Filhos
da Paz da Paz da Paz da Paz
DS DA DE DV
José Anjo Igreja Santíssima Trindade
Pai Filho Espírito Santo
R E F E R Ê N C I A
D E L O C U T Á R I O
FIGURA 9 – Multiplicação de sujeito nas mensagens de Nossa Senhora Rainha da Paz em Jacareí (São Paulo)
O objeto de dizer, o delocutário sagrado (José), é alvo de encômios. Por isso, vários recursos retóricos são empregados na orientação de argumentos que testificam as virtudes do pai adotivo de Jesus.
O primeiro deles é a lexicografia atributiva, pois conforme afirma Bellenger (1987, p.27), “Todos os qualificativos têm sobre as palavras o papel do martelo que desce sobre o prego.”
Portanto, a adjetivação aplicada a José aponta-o como senhor de um caráter sedimentado:
b) na dedicação ao trabalho e à família - Eu o via com amor, dedicado no
trabalho e na guarda de nossa sagrada família;
c) na intrepidez e responsabilidade - Via-o em seu trabalho humilde, pobre
e penoso ensinando a Jesus o seu oficio de carpinteiro;
d) numa firme confiança – O primeiro exemplo de José é a confiança em
Deus;
e) no altruísmo - ele não ousou difamar-me (...);
f) no recolhimento místico – Retirou-se à parte e se entregou à oração e
meditação;
g) na escuta à voz de Deus – Depois, recebeu-me como esposa; h) na generosidade – Ele foi o sustentáculo precioso;
i) no silêncio – Nenhuma reclamação(...).
O segundo recurso é o do testemunho, mais significativo que o anterior, pois no dizer de Pedrini (1995, p. 101),
... o testemunho é uma grande força para convencer, para confirmar. Um testemunho convence mais, muito mais do que palestras, livros ou escritos. Exatamente porque o testemunho é prova, é fato, e traz a força da experiência pessoal, da certeza experimentada, de verdade presenciada, comprovada pessoalmente.
É exatamente o que acontece em relação às virtudes do delocutário sagrado
(José): o locutor fala do que viu, ou seja, de uma verdade pessoalmente comprovada: Eu o via.
Essa firmeza e autenticidade do sujeito da referência provoca no sujeito falante um efeito de retorno ao passado que se apresenta imerso numa atmosfera de enlevo, atmosfera esta que se manifesta, principalmente em três enunciados:
a) Naquele que revela o envolvimento afetivo do locutor – Eu o via com
amor;
b) No enunciado exclamativo – Ó como José era fiel!
c) No enunciado de estrutura nominal – Nenhuma reclamação sua ao longo
Os dois últimos enunciados produzem uma sensação de estaticidade como acontece com a fotografia, o que resulta numa fixação no objeto rememorado ou numa prazerosa contemplação.
O argumento, porém, mais forte, mais significante em prol da magnanimidade de José é, sem duvida, a paternidade (segundo a lei) do Verbo Encarnado e o fato de ser esposo Daquela que concebeu , deu à luz e amamentou o Filho de Deus.
Outra realização lingüística digna de destaque diz respeito ao emprego do performativo explicito consignado no ato de abençoar:
(8.4) - Hoje, na festa de José, meu castíssimo esposo, eu os abençôo em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo!
O quadro vocal aqui apresentado, como aconteceu nos discursos apreciados anteriormente, constitui-se de vozes acionadas pelos diferentes papéis assumidos pelos sujeitos da enunciação.
Com a análise de umas das mensagens que tem como cenário a paulistana cidade de Jacareí, chegamos ao fim de um mergulho na tecelagem vocal de algumas das “mensagens” da Virgem Maria codificadas em Língua Portuguesa.
Neste último capítulo, procuramos examinar quatro discursos de “vidências” da contemporaneidade e produzidos em solo brasileiro: dois em Angüera (1987/2000); um de Itaperuna (1995) e um em Jacareí (1993). Embora esses discursos originados no Brasil distem, de modo considerável, diacrônica e geograficamente daqueles de além-mar, existem notáveis semelhanças entre eles, no tocante:
a) ao jogo polifônico aí engendrado (polifonia “stricto sensu” e intertextualidade);
b) ao conteúdo central das mensagens (amor, oração, penitência e conversão);
c) aos interactantes (“vidente” e a “Virgem Maria”) e sujeitos da referência mais freqüentes (Deus em suas Tríplices Pessoas, Igreja, o ser humano = pecadores, devotos, filhos);
d) à doutrina da Igreja Católica (céu, inferno e purgatório; maternidade e poder de intercessão de Maria, a Mãe de Jesus; Eucaristia).
e) Ao eco à voz da Sagrada Escritura, especialmente do Novo Testamento. No entanto, um cotejo entre os discursos dos dois países, sob outro olhar, revela que há neles algumas diferenças, embora sem muita signicação, como por exemplo: nos discursos contemporâneos, a interação se processa sem alternância de turnos, enquanto nos lusitanos ocorre a dialogicidade . Esses últimos têm como sujeito da recepção os três videntes (Lúcia, Francisco e Jacinta), como testifica a locução: Vim para vos pedir que venhais aqui seis meses seguidos (...). Depois vos
direi quem sou e o que quero (Cf. p. 91); já no Brasil, o alocutário são todos os
católicos, ou seja, os filhos do locutor, conforme atesta o vocativo “filhos” que aparece nas quatro mensagens (cf. ps. 123, 131, 143 e 155).
Todas essas características, porém, tanto as comuns aos discursos das duas nações, quanto aquelas peculiares a cada um deles apontam para o objeto que constitui a hipótese desta tese – o discurso da “vidência”, em qualquer época ou nação, reflete e propaga a ideologia da Igreja Católica.
CONCLUSÃO
Nesta atividade investigativa norteada pelo tema: O Discurso da Vidência –
Cruzamento Vocal na Interlocução entre Céu e Terra, assumimos como meta
prioritária mostrar o “rosto” dessa interlocução, extraindo do discurso as vozes internas que aí se cruzam, quer seja na interação (locutor/enunciador X alocutário/destinatário), quer seja na referência (delocutário) como também aquelas externas que se imiscuem na enunciação pela via da intertextualidade.
O elemento desencadeador desse percurso analítico foi a hipótese de que o discurso da “vidência” espelha o da Igreja Católica, em sua ideologia, uma vez que tal discurso está impregnado da doutrina e dos ensinamentos dessa Instituição. Para fundamentar essa suposição, procuramos demonstrar que a crença na possibilidade de um diálogo entre os mundos espiritual e temporal tem suas raízes no Antigo Testamento e atravessa o povo da Nova Aliança, destacando dentre essas teofanias, a vocação do patriarca Abraão, a anunciação do nascimento do Messias e as manifestações de Jesus, após a sua ressurreição. E, como herdeira dessa fé bíblica, a Igreja pós-apostólica sempre aceitou que céu e terra podem interagir não só no plano espiritual, mas visivelmente também. Sendo assim, ela estabelece critérios para o julgamento da autenticidade de tais fenômenos e, a partir de sua comprovação, institui devoções (Sagrado Coração de Jesus, Medalha Milagrosa, Imaculado Coração de Maria, Divina Misericórdia), constrói Santuários (Fátima,