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2. Crowdfunding

2.1. Types of Crowdfunding

O trabalho de escrita de Sylvia Plath evidencia que ela, ao insistir em traduzir todas as suas experiências, deparou com um limite em que a própria língua se apresenta impotente. Esse ponto de encontro com o vazio, no caso de Plath, foi desastroso, e a pulsão de morte revelou-se executando radicalmente seu trabalho. Se o suicídio não é a única saída possível, que elementos podemos evocar para vislumbrar outras direções?

O entrelaçamento pulsional nos permite pensar o processo de criação como conseqüência da ação concorrente, ou mutuamente oposta, entre as duas classes de forças pulsionais. À desfusão pulsional sucede a fusão pulsional num movimento reiterado a cada novo ato criativo.

A pulsão de morte foi vista por Freud como um grande empecilho ao desenvolvimento cultural, na medida em que o objetivo da civilização coincide com os objetivos de Eros, ou seja, reunir indivíduos, famílias, comunidades e nações tendendo a uma grande unidade. O aspecto destrutivo da pulsão de morte, para o qual a guerra é um bom exemplo, inverte o processo, fragmentando as nações e sucessivamente todos os agrupamentos, reduzindo-os a pequenos aglomerados. De outro lado, Eros evidencia seu caráter conservador, pois, além de criar as grandes unidades, trabalha no sentido de mantê-las. Eros impulsiona na direção da formação de uma grande unidade a partir das individualidades, concernida na constituição da humanidade. Garcia-Roza, sobre esse aspecto, ressalta que “da

singularidade individual à totalidade da humanidade, teríamos uma crescente indiferenciação” (GARCIA-ROZA, 1990, p.136). Nesse sentido, realça-se o aspecto conservador de Eros que trabalha contra a diferença: “O projeto de Eros seria a eliminação das diferenças e, portanto, do desejo, numa indiferenciação final que é a humanidade.” (GARCIA-ROZA, 1990, p.137). Ele conclui que a verdadeira morte corresponde à morte do desejo, e essa é agenciada por Eros.

Garcia-Roza (1990) apóia-se nessa função de Eros em relação à cultura para mostrar que a pulsão de morte desempenha uma função renovadora ao recusar a permanência, impedindo a repetição do mesmo. Segundo o autor, esse foi o aspecto destacado por Jean Hyppolite na análise que fez do texto freudiano “A negativa” (1925/1996).22

A força erótica, ou pulsão de vida, faz valer sua potência criadora ao possibilitar novas ligações. Ao fundir-se com a pulsão de morte neutraliza sua força destrutiva e possibilita a criação de novos objetos. A vitória do erotismo depende, assim, da capacidade de nova fusão pulsional.

A criatividade depende da ação silenciosa da pulsão de morte, cuja ação que, nesse caso, presta um valoroso serviço à cultura e à vida, não perde, entretanto, seu aspecto perigoso. Sua potência destrutiva é preservada.

É pertinente indagar, assim, se algumas formas de sublimação, em especial aquelas mais comprometidas com a criação e renovação cultural, não se desenvolveriam em constante enfrentamento com as desfusões pulsionais e as angústias que lhes são concomitantes. Os artistas que, além de produzir uma obra extraordinária e original, chegam a subverter o próprio referencial artístico de seu tempo, não teriam experimentado os efeitos angustiantes, ou nefastos, da força pulsional destrutiva, já que é a ela que se devem os desligamentos e

rupturas? Não teriam eles se aproximado, radicalmente, de uma experiência limítrofe e perigosa?

O artista pode, na melhor das hipóteses, mesmo experimentando a angústia, propiciar o nascimento de algo grandioso e, na pior versão dos acontecimentos, enlouquecer e destruir- se. O eu, em sua relação com o supereu, pode obter sucesso ao impor às pulsões um destino que lhe seja favorável, sem recorrer ao recalque; mas pode também, na pior hipótese, ser ultrapassado pela força motriz do processo, podendo ser alvo da destruição, desintegrado por essa força sobre a qual não conseguiu o controle, ou desviar a força destrutiva para o exterior, onde o alvo pode ser a própria obra. O equilíbrio do processo depende das relações do eu, ou, de outro modo, depende da constituição do eu e de suas relações com as instâncias ideais.

O conflito se instala internamente, pois o objeto amado, uma vez retornado ao eu, deste se diferencia e passa a tratá-lo com toda a agressividade que se satisfaria em outras pessoas:

A agressividade é introjetada, internalizada; ela é, na realidade, enviada de volta para o lugar de onde proveio, isto é, dirigida no sentido de seu próprio ego. Aí é assumida por uma parte do ego, que se coloca contra o resto do ego, como superego, e que então, sob a forma de ‘consciência’, está pronta para pôr em ação contra o ego a mesma agressividade rude que o ego teria gostado de satisfazer sobre outros indivíduos, a ele estranhos (FREUD, 1930/1996, p.127).

A potência destrutiva se volta, portanto, contra o próprio indivíduo. O supereu, como substituto do pai, inverte a relação: “Se eu fosse o pai e você fosse a criança, eu o trataria muito mal.” (FREUD, 1930/1996, p.132).

Freud evidenciou que a ação da pulsão de morte se relaciona ao supereu, especialmente ao supereu sádico do melancólico. A partir disso, nos perguntamos se não seria o Ideal do eu o responsável pela fusão pulsional. O jogo de forças de vida e morte é imprescindível para o desenvolvimento de qualquer forma cultural e está presente em toda ação humana. Assim como o supereu favorece o trabalho da pulsão de morte, o Ideal do eu

entendido como a versão amável do supereu sugere desempenhar uma importante função a favor da vitória do erotismo. O Ideal do eu sugere convergir com os objetivos de Eros, como o que visa unir e construir unidades cada vez maiores. Em Freud, um destino mais favorável vai depender da capacidade de “não deixar as pulsões de morte com as mãos livres”, o que o Ideal do eu parece tomar ao seu encargo. Para Lacan, uma estabilidade, mesmo que provisória, vai depender da amarração entre os registros. Portanto, amarrar as mãos da pulsão de morte, expressão freudiana, pode ter seu correlato, em Lacan, na amarração entre os registros. Pretendemos investigar até que ponto é acertado dizer que a proteção oferecida pelo Ideal do eu consiste na amarração do registro imaginário, um campo essencialmente mortífero, ao registro simbólico.

Capítulo 3