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4. Hypothesis Development

4.2. Literature and theory used to develop hypothesis

4.2.1. Funding goal

Voltemos nossa atenção ao momento específico em que João fez o furo no papel, instante em que é impelido a abandonar o caminho que vinha trilhando, para verificarmos em que nossos avanços na teoria da sublimação podem nos auxiliar na compreensão da razão pela qual o furo no papel produziu, pontualmente, o efeito angustiante e teve a força capaz de induzir uma modificação radical no processo que ele vinha realizando.

Valendo-nos da noção da fusão pulsional, compreendemos que, enquanto João estava às voltas com a criação de novos desenhos, ele obteve sucesso em conter a força silenciosa da pulsão de morte, que identificamos operando em todo o processo criativo. Esse período, no qual João foi capaz de dar vazão a um processo criativo intenso, nos sugere que a pulsão de vida e a pulsão de morte operavam em consonância com o que Freud identificou como fusão pulsional. A ação da pulsão de vida se apresentava com todo seu vigor, não deixando a pulsão de morte com as mãos livres para executar seu projeto.

Nos desenhos de João, evidenciamos a presença apenas de fragmentos: bicos, asas, olhos, madeixas femininas, que acabavam por formar uma composição inusitada de fragmentação. No entanto, ele se sentia bem, mostrava-se animado e confiante, o que nos leva a pensar, nesse momento, que a pulsão de vida ainda se fundia à pulsão de morte, permitindo a continuidade do trabalho e a constituição de laços sociais a partir deles.

Embora João já tivesse manifestado um incômodo com o resultado de seus desenhos, passando a considerá-los “muito loucos”, o encontro com algo que João não suportou se deu por acaso, no gesto de tentar apagar um traço com a borracha, que produziu, inesperadamente, o buraco na folha. João esboçou um esforço inicial de recobrir o furo, como um esforço de Eros para reparar a destruição, tentando um desenho na folha subjacente, no exato lugar para o qual o furo se abria. Contudo, ele desistiu, logo em seguida, manifestando muito desconforto e angústia. Recolheu então seus materiais e foi embora. Essa experiência sugere que a desfusão pulsional, própria ao processo de sublimação, despertou muita angustia no eu. Enquanto essa experiência lhe era favorável, deduzimos que a pulsão de vida e a pulsão de morte trabalhavam uma a serviço da outra. A pulsão de morte se restringia a abrir caminho. O surgimento inesperado do furo sugere ter ocorrido um corte em que as pulsões de morte se manifestaram no ato destrutivo que se apresentou repentinamente, produzindo um vazio, uma ausência de representação.

A força disruptiva, nesse ponto, foi evidente e se estendeu a várias ações do paciente, que rompeu com a proposta que há anos vinha desenvolvendo. Não sabemos se destruiu seu trabalho, mas cuidou de recolher todos os desenhos para que ninguém os visse, desfez os laços sociais que seu trabalho possibilitava e, em especial, interrompeu a criação, propondo-se a fazer apenas cópias, a partir de então. Essas ações denotam o perigo a que João pressentiu estar exposto. O furo no papel foi experimentado como um acaso desagradável e inesperado. O perigo desse encontro foi pressentido por João, que escolheu abandonar definitivamente os domínios da criatividade. Da experiência angustiante, ele cuidou de fugir, manifestando, claramente, de que maneira pôde se defender de algo insuportável. Ainda assim, ele foi capaz de escolher outro destino, inventando uma outra forma de lidar com seus materiais de pintura e desenho, que se ajustasse às tendências opostas. Isto aponta para a possibilidade de uma oposição entre a atividade de criar e a de copiar, que são funcionalmente diferentes uma da outra.

Considerando o papel da pulsão de morte na criatividade, arriscamo-nos a dizer que a estratégia da cópia favoreceu a ação organizadora de Eros. João decidiu tomar como base de sua criação uma matriz, um desenho que lhe serviria de modelo, tentando evitar, assim, alguma nova surpresa. Adotou e aderiu a um trabalho que toma algo já constituído como base. De um lado, a cópia implica uma tendência conservadora, de preservação e manutenção do que já existe, que parece coerente com o projeto da pulsão de vida, na medida em que não necessita desligar-se dos objetos já concebidos. Pelo contrário, adota-os como modelo. De outro lado, a nova atividade não pode prescindir do trabalho da pulsão de morte.

Freud nos mostrou, em O mal-estar na civilização, como o acaso pode reforçar a atitude de obediência ao supereu, conferindo-lhe ainda mais poder. O furo, no caso de João, não é uma representação, mas uma manifestação do acaso resultado de um ato inesperado e destrutivo. Freud relaciona o supereu, o sentimento de culpa e o acaso. Quando o destino

parece ser favorável a determinado homem, ele parece encontrar-se em posição de desprezar a severidade e as exigências do supereu. A pulsão de destruição, moderada e domada, e, por assim dizer, inibida em sua finalidade, deve, quando dirigida aos objetos, proporcionar ao eu a satisfação de suas necessidades vitais e o controle sobre a natureza (Cf. FREUD, 1930/1996, p.125). Entretanto, quando a vida não se apresenta para um determinado sujeito de forma amistosa, quando as contingências lhe reservam surpresas inesperadas e indesejadas, esse sujeito se volta para seu interior, reconhece sua culpa, julgando-se merecedor dos reveses de que se vê alvo. Essa atitude, identificada nos povos primitivos, é preservada no psiquismo como postura superegóica. De imediato, o sujeito reconhece a autoridade do supereu e lhe dedica grande devoção e obediência, acreditando-se abandonado por Deus por ser um pecador. Nesse caso, o supereu, revigorado pelas circunstâncias, volta sua força destrutiva contra o eu, tornando-se ainda mais sádico e severo contra ele (Cf. FREUD, 1930/1996, p.130).

Vimos que o perigo da experiência da sublimação, nesse caso, está em intensificar o poder mortífero do supereu. Porém, diante de uma experiência limítrofe, João se ajeitou de modo a se reconciliar com Eros. Devemos, então, nos perguntar de que depende o fato de um sujeito conseguir fazer valer a força de Eros, enquanto outro deixa que Tânatos assuma o comando, como parece ter sido o caso de Sylvia Plath.

Vimos, com Freud, que um grande número de fenômenos pode ser explicado pela ação concorrente de duas forças opostas, mas que o resultado da interação entre essas forças depende da constituição do eu. A complexidade do eu e sua organização estão relacionadas à constituição das instâncias ideais que pretendemos, a partir daqui, investigar através das elaborações lacanianas.