Ao concluir um trabalho acadêmico, sobretudo na área da educação, é esperado que se apresentem algumas alternativas de solução aos problemas que a pesquisa inevitavelmente suscitou. Entretanto, ao refletir sobre o referencial teórico utilizado, sobretudo para compor a análise dos filmes, que rejeita afirmações únicas e inquestionáveis, compreendo que fazer afirmações dizendo o que é certo e errado nas representações da cinematografia analisada, seria sinônimo de dizer: não acreditem nas ―verdades‖ dos filmes, pois, a ―minha verdade é mais verdadeira!‖. Além disso, é necessário continuar pesquisando, estudando, as representações dos docentes diante da violência produzidas por variados artefatos culturais, e não somente o cinema.
Nesta pesquisa, objetivou-se verificar como o discurso hollywoodiano representa a gestão docente em face à violência na escola e qual papel esse educador desempenha nas narrativas sobre o tema.
Para discutir essa questão, a primeira cena teceu considerações acerca da teoria do cinema, a história da violência numa perspectiva filosófica e relação do cinema com a violência, bem como se discutiram a violência na escola, e a instituição escolar como sendo mais um cenário para as histórias hollywoodianas.
A segunda cena tratou do caminho de investigação trilhado, pesquisou-se sobre técnicas cinematográficas necessárias para a decupagem e seleção das cenas de análise; apresentaram-se as películas e os critérios avaliados para a seleção e os referenciais teóricos na perspectiva dos estudos culturais acerca das teorias de representação e endereçamento.
A terceira cena trouxe a análise das representações feita pela cinematografia hollywoodiana acerca do/ professor/a diante da violência em dois filmes: A Onda e Escritores da Liberdade. Ao desmanchar o material fílmico, analisar a caracterização dos protagonistas e transcrever as falas dos personagens, ficou claro que os personagens principais de cada filme
analisado são devidamente caracterizados para corresponder ao desfecho das narrativas.
O professor Rainer Wenger, protagonista do filme A Onda, é cuidadosamente caracterizado como uma pessoa irresponsável. Para ajustar- se a esse papel, o docente é apresentado como um adulto que não corresponde às expectativas de sua idade cronológica, ou seja, sua conduta é justificada como a de um adultescente (FABRIS, 1999). Embora não seja mais adolescente, Wenger veste-se e comporta-se como um, sua vestimenta (boné, jaqueta de couro, calça jeans, tênis, camisetas de bandas de música) destoa dos demais docentes, e assemelha-se a dos alunos. Além disso, o filme evidencia sua residência não convencional, sua preferência musical (rock e punk), além de seu evidente desejo de ministrar o curso de Anarquia, cuja forma de demonstrá-lo induz ao pensamento de que ele mesmo é um anarquista.Esses elementos criam, se não um vilão, ao menos um anti-herói.
O oposto acontece na caracterização da personagem da professora Erin Gruwell no filme Escritores da Liberdade. Esta docente é uma mulher gentil, amorosa, dedicada e movida pelo sonho de ajudar os jovens que vivem na marginalidade. Sua doação integral à docência acarreta o fim de seu casamento, faz com que ela arrume dois trabalhos aos fins de semana para juntar dinheiro e fazer atividades extraclasse com os alunos, uma vez que a escola em que leciona não incentiva tal prática – ela é uma heroína e faz da docência um sacerdócio.
As narrativas dos dois filmes também são opostas: enquanto em A
Onda a violência no Ginásio Marie Curie parecia sob controle, limitando-se a
incivilidades, em Escritores da Liberdade a Escola Wilson servia de campo de batalha para os adolescentes resolverem seus problemas entre suas gangues. Contudo, em A Onda, a experiência inconseqüente do professor levou o filme para um trágico desfecho. Em Escritores da Liberdade, a dedicação total da professora acabou com a violência na turma 203.
Embora apresentem desfechos diferentes, essas duas películas têm como pano de fundo a mesma carga ideológica: O bom professor é aquele que se doa integralmente à docência, comportando-se como um herói; além disso,
ele é o principal, senão o único responsável pela resolução dos conflitos nas escolas.
É claro que o/a docente deve ter compromissos com seus alunos, mas, a pedagogia do herói da gramática hollywoodiana celebra o trabalho isolado. Isso significa dizer que toda a responsabilidade da gestão de conflito recai sobre o/a professor/a, deixando a este a mensagem que ele deve assumir o problema sozinho, e, ao resto da comunidade, o discurso de que estão isentos de qualquer responsabilidade, uma vez que, um bom professor, é capaz de fazer tudo por sua própria conta.
Esse discurso sobre a centralidade do professor evidenciado nos dois filmes, em particular na gestão da violência na escola, contraria os dados científicos. Estes apontam que para uma efetiva prevenção (à) e superação da violência na escola são necessários, sobretudo, a valorização do profissional da educação e o trabalho em equipe, fatores que levam a instituição, a família, os especialistas e toda comunidade a se envolverem no enfrentamento dessas violências (ABRAMOVAY et al, 2003).
É preciso lembrar também que os filmes que falam sobre a escola, não são assistidos somente fora delas, muitos fazem parte dos currículos das instituições. Eis aí mais um motivo para incentivar o exercício da análise desses filmes, pois, ensinando formas de ser e agir, o cinema está contribuindo para regular as condutas de docentes, discentes e comunidade. Instituindo valores e crenças, muitas vezes inatingíveis por quem é incumbido, neste artefato, a resolver o problema.
Costa (2006, p. 89) esclarece que os artefatos ―é que estão fabricando nossa identidade, regulando nossa forma de ser e de agir, determinando o certo e o errado, enfim, definindo quem somos e nos ‗representando‘ na política cultural‖. Fabricando identidades de professores heróis e vencedores versus professores vilões (ou anti-heróis) e fracassados, essa cinematografia trava uma batalha do bem contra o mal, destacando o profissional que trabalha isoladamente. Parece que Hollywood, embora tenha mudado ao longo dos tempos, continua aplicando sua velha fórmula infalível de
sucesso de bilheteria: a do cowboy solitário do western – qualquer semelhança não é mera coincidência!
Enquanto educadores, devemos ter ciência da constituição de docência que o cinema e todos os outros artefatos culturais procuram estabelecer em seus discursos, para não cairmos nas tramas dessa discursividade unilateral. Afinal, ninguém está isento do fracasso, tampouco é preciso ser mártir ou herói para ser bem sucedido na gestão pedagógica dos conflitos vividos na escola.