Até aqui, viemos ilustrando que alguns aspectos da teoria negativa de C & L – como as refutações contra os argumentos de variação contextual e de incompletude e os testes de sensibilidade – trazem problemas que, talvez, indiquem que o melhor caminho para um interessado em semântica seja olhar o minimalismo negativo com certa ressalva. Mas, e com relação à porção positiva da teoria – principalmente, no que diz respeito aos comparativos?
Como vimos (em 3.2.4), o minimalismo semântico nos recomenda que entendamos adjetivos como “alto”, “rico” e “baixo” em termos de seus sentidos mínimos: “alto/ rico/ baixo simplesmente”. “Alto simplesmente”, por exemplo, é o conteúdo compartilhado por todas as enunciações – ou melhor, por todos os atos de fala – que contêm “alto”. E a grande vantagem da posição minimalista, de acordo com C & L, está, justamente, em dar conta de tratar, ao mesmo tempo, da variabilidade de significados (dada a sensibilidade contextual de certas expressões) e da invariância do conteúdo compartilhado em diferentes contextos.
A primeira controvérsia com o minimalismo semântico encontra-se – como foi indicado nos dois capítulos anteriores – na noção de “X simplesmente”, que seria semanticamente fraca demais. Em contrapartida a ela, apresentamos exemplos com fortes intuições de que, na verdade, adjetivos como “alto” trazem consigo classes de comparação que geram alterações nas condições de verdade das frases que compõem. Mais, apresentamos algumas reservas com relação a algo como “alto simplesmente”. E uma delas, C & L reconhecem como uma objeção motivadora, à qual é dedicado o capítulo 11 de I.S.
Essa objeção é sobre o quê – que objeto, conjunto de objetos ou relação – “alto simplesmente” apreende no mundo. Se ele significa apenas “ter alguma dimensão vertical, a partir de uma superfície”, então expressa uma propriedade que objetos baixos, por exemplo, também podem instanciar – e se tal dimensão vertical se reportar a alguma média grupal, temos indício, mais uma vez, da presença ou de escalas de gradação ou de classes de comparação. A maneira como C & L se defendem é afirmando que os problemas que se originam dessa objeção não estão restritos ao minimalismo semântico: são problemas fundamentalmente metafísicos105 e afetam quaisquer teorias sobre expressões de propriedades. A questão, então, não é de linguagem e, enquanto semanticistas per se, C & L não precisam tratar dela, senão por mera cortesia filosófica:
A objeção metafísica é exatamente isto: é metafísica. É uma ‘preocupação’ que permanece não importa como optemos por fazer semântica. Se é uma preocupação, não é uma que surja por conta do Minimalismo Semântico e não é uma que possa ser resolvida por fazer-se semântica de uma determinada maneira. (C & L, 2005a, p. 159)
Eles insistem também em que a estratégia de se assumir que “alto” é uma expressão sensível a contextos não responde à pergunta sobre o que todas as coisas altas – como o Pico do Jabre, Kobe Bryant e João – têm em comum e, certamente, nem torna a pergunta menos sensata, nem tampouco a neutraliza.
105 E, inclusive, se “X simplesmente” soa fraco, nas condições de satisfação que estabelece, isso é
C & L até desenvolvem um procedimento especialmente para salientar o caráter paralelo e resistente da questão metafísica, cf.: C & L, 2005a, p. 170-75.
(1) Pensemos em girafas e em fatos sobre elas, como: poder esticar seus pescoços e ficar de pé apoiadas apenas nas patas traseiras;
(2) Agora, pensemos em girafas altas.
(3) E nos perguntemos o que é ser alta para uma girafa?
(4) Contamos das patas ao último pêlo das orelhas? Contamos quando elas estão de pé, apoiadas apenas nas patas traseiras? Estamos falando de todas as girafas? De todas as que existem, das possíveis? Mortas (com os corpos rijos), grávidas (com os corpos mais flexíveis)?
É perceptível, então, a confusão criada no estágio (4) – e esse é o resultado esperado no procedimento. Afinal, há muitos estados que girafas podem assumir e muitos fatos empíricos sobre elas. Mais uma vez, então, C & L insistem que não importa o quanto se limite as classes de comparação será insuficiente para deixar de fora a questão metafísica.
O que pode ser dito sobre o problema das girafas e a questão metafísica? Primeiramente, que C & L estão certos em que semanticistas ou interessados em semântica não precisam tomar prioritariamente questões metafísicas. Afinal, parece razoável supor que apenas constatar a sensibilidade contextual de uma expressão como “alto” diga muito pouco sobre o que é ser alto. Contudo, acreditamos que C & L tenham tangenciado o ponto crucial aqui.
E esse é que o que C & L precisam esclarecer, enquanto filósofos da linguagem, é como “alto simplesmente” possibilita uma interpretação pragmática. Afinal, estamos tendo atenção, aqui, ao processo de compreensão da linguagem comum, em toda sua dinamicidade106. Desse modo, C & L precisam estar atentos a como falantes parecem
compreender expressões como adjetivos comparativos e quais são suas contribuições para as proposições que compõem. O passo conseqüente, de tentar entender o que o modo como as expressões se comportam denuncia sobre o modo como as coisas são, realmente, pode ser até dispensável.
106
Não que eles não o façam. Afinal, eles têm uma posição quanto a ‘o que é dito’ por “alto” e a noção de ‘o que é dito’, para eles, é o mesmo que o ‘o que é comunicado’ (pelo ato de fala). Para eles, é necessário ir além do simples domínio de convenções lingüísticas para compreender uma linguagem: informações extralingüísticas determinam o que é dito. O ponto que desejamos salientar é que o que C & L tomam como uma objeção metafísica é, simplesmente, um pedido por maior elaboração e nós concordamos com tal pedido. E, mais, julgamos que a posição que tentamos defender não gera cobranças quanto a esse tipo de elaboração. Isso é sinal de vantagem (pelo menos em detalhamento).
Assim, o que C & L julgam ser uma objeção metafísica é simplesmente uma forma de perguntar como “alto simplesmente” contribui para o processo de compreensão. E, como viemos tentando mostrar, contextualistas podem oferecer respostas melhores a essa pergunta. Se bem que, eles nem procuram fazê-lo, pela simples razão de que a objeção metafísica não é comumente tomada contra o contextualismo. Será isso um indicativo de vantagem prévia? Um sinal de que o contextualismo tem menos fragilidades argumentativas?