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In document En naturlig avslutning på livet (sider 96-99)

Neste mesmo livro de Jorge Luis Borges, Otras Inquisiciones, do qual Godard retirou tantas citações em Alphaville, existe um ensaio que ele somente veio a usar cerca de trinta anos depois, em História(s) do Cinema: este texto se chama “La flor de Coleridge”. Nele, Borges descreve como basicamente a mesma metáfora307 foi usada por três autores diferentes: Samuel

305 Em Alphaville, somente este título é citado, num diálogo de Lemmy Caution, “eu, de toda maneira, viajo até o fim

da noite”. Em Pierrot le fou, a obra imediatamente posterior de Godard, Céline vai aparecer de várias maneiras: citação de seu nome, título desse mesmo romance que aparece em Alphaville, e a leitura de uma passagem de um outro romance, Guignol’s band.

306 Godard chegou a dizer sobre sua obra mais recente que nenhuma frase que escreveu nos roteiros (textos que os

personagens dizem ou lêem) é de sua autoria.

307 A primeira metáfora que Borges vai examinar é a de Coleridge, e é a que Godard usará no final do último

Taylor Coleridge, H. G. Wells e Henry James. Nesse ensaio, com a economia de recursos que é sua característica principal, Borges vai defender uma idéia que, embora bastante coerente com toda a sua obra, e talvez por causa disso mesmo, não é exatamente uma criação sua: nas suas próprias palavras, “todos os autores são um autor”.308 Ao longo deste texto, Borges usará de frases e idéias de vários autores, exatamente para negar a autoria, afirmar a autoridade e a autonomia da literatura e do texto. O primeiro autor arrolado por Borges é exatamente o poeta Paul Valéry 309:

A História da literatura não deveria ser a história dos autores e dos acidentes de sua carreira ou da carreira de suas obras, mas a História do Espírito como produtor ou consumidor da literatura. Esta História poderia ser levada a cabo sem mencionar um só escritor.310

Ao usar “Espírito” para designar um autor hipotético de todos os textos literários que possam existir, Valéry estaria usando uma metáfora para falar de algo facilmente reconhecível por qualquer leitor: os livros estão ligados uns aos outros, fatalmente. Seja através de comentários diretos sobre um autor; ou da citação de uma passagem de um livro por outro; ou da criação de personagens em um livro, moldados em outros personagens de outros livros. No caso de livro calcado numa tradição (escola, movimento, gênero), ele dialoga não somente com um outro livro, mas com vários outros, implicitamente. Ou, então, a reação a tudo isto, personagens, autores, livros, gêneros, escolas: ainda aqui estamos falando de diálogo, citação, dependência, quando o sentido e a significação de um texto passam pelo confronto com outro texto. Isto tudo talvez por

XIX: “Se um homem atravessasse o Paraíso num sonho, e lhe tivessem dado uma flor como prova que estivera ali, e se ao despertar encontrasse esta flor na sua mão... então, o quê?” “Si un hombre atravesara el Paraíso en un sueño, y le dieran una flor como prueba de que había estado allí, y si al despertar encontrara esa flor en su mano... entonces, qué?” BORGES. Obras Completas, p. 639.

308 “[...] todos los autores son un autor[...].” BORGES. Obras Completas, p. 641. 309 Grande amigo do avô de Godard, e figura freqüente na família deste (ver capítulo 1).

310 “La Historia de la literatura no debería ser la historia de los autores y de los accidentes de su carrera o de la

carrera de sus obras sino la Historia del Espíritu como productor o consumidor de la literatura. Esa historia podría llevarse a término sin mencionar un solo escritor.” BORGES. Obras Completas, p. 639.

ser impossível um autor escrever um texto que de alguma maneira não comente, retome, estenda, glose, cite, dialogue com outros textos, ou os modifique e subverta.

O próprio Borges nos adverte que não era a primeira vez que esta observação havia sido formulada. Em 1844, um outro amanuense do “Espírito”, Ralph Waldo Emerson, havia escrito: “dir-se-ia que somente uma pessoa escreveu todos os livros do mundo; existe uma tal unidade central neles que é inegável que são obra de um só cavalheiro onisciente311”. Já o poeta Shelley, vinte anos antes, teria escrito que “todos os poemas do passado, do presente e do futuro, são episódios ou fragmentos de um só poema infinito, erigido por todos os poetas da Terra”.312 Aqui, ao contrário, temos um só poema, um só texto, portanto, e muitos autores. Mas a idéia da unidade fundamental da literatura continua a mesma.

Borges termina este ensaio de uma maneira característica:

Aqueles que minuciosamente copiam um escritor, o fazem impessoalmente, o fazem porque confundem este escritor com a literatura, o fazem porque suspeitam que desligar-se dele em algum ponto é desligar-se da razão e da ortodoxia. Durante muitos anos, eu acreditei que a quase infinita literatura estava em um homem. Este homem foi Carlyle, foi Johannes Becher, foi Whitman, foi Rafael Cansinos-Asséns, foi De Quincey. 313

311 “Diríase que una sola persona ha redactado cuantos libros hay en el mundo; tal unidad central hay en ellos que es

innegable que son obra de un solo caballero omnisciente. BORGES.” Obras Completas, p. 639. A citação de Emerson, no original, é a seguinte: “I am very much struck in literature by the appearance that one person wrote all the books; […]; but there is such equality and identity both of judgment and point of view in the narrative, that it is plainly the work of one all-seeing, all-hearing gentleman.” O “Eu” do original em inglês se transforma, em espanhol, num sujeito indefinido; uma passagem que existe entre as duas frases que ele cita não é indicada; e “unidade central” e “cavalheiro onisciente” substitui uma passagem bem mais longa e palavras diferentes. Aqui, Borges traduz e interpreta criativamente o texto de Emerson. Mas se a literatura é o produto de um só “Espírito”, isto não faz a mínima diferença: é como se um mesmo autor escrevesse uma outra versão para a mesma passagem... Borges pratica neste texto exatamente o que está teorizando: tradução, mas também interpolação, diálogo de um texto com outro.

312 “[...] todos los poemas del pasado, del presente y del porvenir, son episodios o fragmentos de un solo poema

infinito, erigido por todos los poetas del orbe.” BORGES. Obra Completa, p. 639.

313 “Quienes minuciosamente copian a un escritor, lo hacen impersonalmente, lo hacen porque confunden a ese

escritor con la literatura, lo hacen porque sospechan que apartarse de él en un punto es apartarse de la razón y de la ortodoxia. Durante muchos años, yo creí que la casi infinita literatura estaba en un hombre. Ese hombre fue Carlyle, fue Johannes Becher, fue Whitman, fue Rafael Cansinos-Asséns, fue De Quincey.” BORGES. Obras Completas, p. 641.

À parte o fato de que Borges justifica até mesmo a “cópia”, deveríamos chamar a atenção para algo nestas citações e argumentações, algo que está explícito: a literatura estaria “em um homem”; mas Borges nos diz que ela era, na verdade, vários autores. Da mesma maneira, ele nos fala em um escritor, mas também, da “quase infinita literatura”. Esta dialética entre o “um” e o “outro”, entre o “um” e os “muitos” não seria exatamente o procedimento que produz o texto literário, sempre: um autor, um texto, chama outros textos, dialoga com eles, cita-os, comenta-os, e produz um texto “novo”, originário, realmente, de um autor “centralizador”, ou, para usar a metáfora borgiana, de um único “Espírito”? Exatamente: “um texto, escrito por todos, mas sob a inspiração de um só espírito”314, como escreveu Emir Rodriguez Monegal em Borges par lui-

même. Aqui, a literatura – não como algo da responsabilidade de um só autor, mas como um “sistema” de textos que podem se chocar ou se complementar, mas que estão sempre em relação, e somente ganham significado através desta relação – já é claramente entendida como uma multiplicidade de textos dependentes uns dos outros, e não meramente obras definidas, fechadas sobre si mesmas e autárquicas. Produto de uma só pessoa (metafórica ou não) ou de muitos, não importa: o importante é a relação. O importante é este entrechoque de textos, livros e obras.

O que todos estes autores estão afirmando, parece, é o poder, a impessoalidade da literatura, sua não personalização, o seu ser uma atividade da autoria de ninguém. É o que faz Maurice Blanchot quando escreve que o escritor

Não descobre a bela linguagem que fala honrosamente para todos. O que fala nele é uma decorrência do fato de que de uma maneira ou de outra, já não é ele mesmo, já não é ninguém. O “Ele” que toma o lugar do “Eu”, eis a solidão que sobrevém ao escritor por intermédio da obra315”.

314 “[...] un texte écrit par tous, mais sous l’inspiration d’un seul esprit”. MONEGAL. BORGES par lui-même, p. 27. 315 BLANCHOT. O espaço literário, p. 18

A literatura é, finalmente, realizada pelo “outro” (“quem escreve, o autor ou o outro?316”), uma força extremamente poderosa, porque impessoal, estranha e neutra, até mesmo terrível: a linguagem (“toda língua é de empréstimo [...]toda forma é recebida através do aprendizado e da apropriação317”). Esta capacidade de tudo dizer é a de um sistema literário todo-poderoso, pois “não é o sujeito que pensa, mas o Sistema por ele318”. Nas palavras de Michel Schneider, seria a própria linguagem a falar, não pessoas (“nada mais somos que porta-vozes”319): “o surgimento daquela voz de ninguém, aquela voz da própria linguagem”320. É esta conclusão a que chega Blanchot, quando escreve exatamente sobre Borges:

Borges compreende que a perigosa dignidade da literatura não é de nos fazer supor no mundo um grande autor, absorto em sonhadoras mistificações, mas de nos fazer experimentar a aproximação de uma estranha potência, neutra e impessoal. [...] o essencial, é a literatura, não os indivíduos, e na literatura, que ela esteja impessoalmente em cada livro, a unidade inesgotável de um só livro e a repetição cansada de todos os livros321.

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