Na discussão acerca da interação constituinte de homem e ciência, cabe ao nosso propósito refletir sobre a atual mutação em curso, neste período de grande culto e reverência à tecnologia. Partilhamos de um pensamento de constante dúvida e questionamento sobre o porvir, anunciadamente marcado pela tecnologia. Na sociedade, a velocidade e a aceleração social (ROSA e SCHUERMAN, 2009) imprimem um ritmo de mudança e renovação frenético. O homem é objeto dessas mudanças e mostra-se tensionado para acompanhar tudo com seu aparato orgânico, hoje considerado ultrapassado pelos circuitos digitais que apresentam a máquina como novo modelo a ser aderido. Este homem tem um grande desafio diante de si, sendo constantemente confrontado com o propósito de levar a cabo essa superação de si. Com o reforço do progresso científico contínuo, ele deve planejar seu upgrade e servir-se das tecnologias e saberes ofertados, com o fim de aumentar o seu desempenho, assemelhando-o as de uma máquina polivalente prescrito para desenvolver ao máximo certas valências, em detrimento de outras. Assim, consideramos a esportividade como uma valência que potencializa a submissão do homem aos ditames da sociedade regida por um Culto da Performance (EHRENBERG, 2010).
20 “A era do humanismo está terminando” – Achille Mbembe. Revista Prosa Verso e Arte, Rio de Janeiro, s/d. Disponível em: http://www.revistaprosaversoearte.com/achille-mbembe-era-do-humanismo-esta-terminando/ Acessado em13/03/2017.
Com a sistemática de produção industrial, o ritmo da transformação do homem também se acelera e demanda novos modelos e outras versões humanas aprimoradas, imprimindo ao homem a lógica das inovações. Como assinala Adauto Novaes (2009), ante o tamanho fardo de transformar a si, o homem deve: “[...] concluir o trabalho, o que o põe na posição de deus fabricante do mundo, o demiurgo, e ao mesmo tempo o condena a considerar- se superado. O orgulho e a desmesura de certo humanismo científico conduzem diretamente à obsolescência do homem” (p. 14). Segundo ele “[...] estamos em fase de transição e não temos conhecimento do que acontece: não se pode dizer mais, com o pouco de certeza que se tinha, ‘o que é o homem’, ‘o que é o mundo’ “(p. 16). Qual deveria ser o projeto de humanidade a ser implementado para o/pelo homem? De que modo as tecnologias teriam se descompromissado em relação a humanidade, sua criadora, em favorecimento da aceleração tecnológica e da produtividade como valores soberanos?
Ante tais perguntas, defendemos uma reflexão para que uma melhor compreensão seja obtida sobre esse processo que enseja uma maquinização do humano à revelia da nossa humanidade emancipada segundo o projeto iluminista. Desse modo, nossas reflexões serão permeadas por questionamentos sobre o homem e a sociedade que estamos constituindo para gerações futuras. Preocupa-nos o fato que, em vista do caminho observado no atual percurso da ciência, o próprio projeto de humanidade inclua a superação mesma do homem e que sejam exatamente os ideais de humanidade singular, autônoma e criativa, a se sacrificarem ou padronizarem em nome da soberania da dominação tecnológica repressiva.
O mundo como um todo é objeto dessas mudanças mas parece calar sem resistência ou argumentar sem eficácia para frear a “Invenção do Pós-Humano” (LEOPOLDO E SILVA, 2009) que se constitui gradualmente e é assistida com entusiasmo como espetáculo midiático ou uma nova mercadoria que se oferta projetada nas telas que estão por toda parte. Acreditamos que temos grande responsabilidade diante do que se insinua para a humanidade como protótipo tecnológico em contínuo reversionamento, pois,
[...] o pós-humano não é uma fatalidade histórica, nem uma consequência necessária da tecnologia, nem o destino ético da humanidade, mas uma produção humana da desumanização, o formidável poder que somente ao homem pode se atribuir, de comprometer-se com o percurso de mutação cujos resultados podem vir a ser a impossibilidade do autorreconhecimento ( p. 88).
A partir do exposto, percebemos que a evolução do homem e a transformação naquilo que optamos chamar de homem-máquina estão intimamente ligadas à evolução da máquina. Com isso, entendemos como relevante historicizar essa relação para perceber pontos
históricos em que a máquina foi introduzida pelo homem em seu projeto de sociedade, com o objetivo de dominação, que foi capaz de fragilizar ou paralisar a capacidade humana de criticar e resistir. Definhado de sua utopia e desejo revolucionário, o indivíduo é ideologica e factualmente destinado à submissão aos instrumentos pelos homens criados, originalmente para enfrentar as incertezas da natureza, suprir suas necessidades, mas também com o propósito de explorar, obter poder e instrumentalizar a coação econômica.
Como primeiro passo neste capítulo, apresentaremos uma contextualização histórica acerca da evolução, até o presente, dessa relação homem-máquina e como os cientistas têm pensado o futuro dessa relação e suas consequências para o homem. Deste modo, nos voltaremos à história para demarcar as mudanças qualitativas observadas no homem e na sociedade, que pela via do trabalho e acúmulo de conhecimento proporcionaram as condições para o estabelecimento da sociedade e da ciência moderna.
Desde as civilizações pré-históricas, temos constituído uma herança acumulada dos produtos do conhecimento e experiências humanas, intensificada com o advento da ciência moderna como organizadora e sistematizadora deste conhecimento. Tanto instrumentos quanto saberes propiciam melhor adaptação à natureza no combate das necesidades mais primordiais para a sobrevivência. Não é particularidade da contemporaneidade que o homem é transformado pelo meio, assim como, em contrapartida, o produz quando atua sobre a natureza. A interação do homem com o meio é transformadora de ambos e, nos escritos de Engels21, este retrocede ao estudo da evolução filogenética do homem e descreve a mão humana como uma transformação do corpo em um instrumento pelo trabalho, o qual foi necessário para a criação de outros instrumentos e para a efetiva adaptação à natureza. Segundo o autor citado, “[...] o trabalho criou o próprio homem” (ENGELS, 1876, p. 1); ou seja, antes mesmo de o homem primitivo se tornar constituído de racionalidade e consciência, tal como nos reconhecemos, podemos falar dessa construção de mão dupla entre natureza/meio e homem. Sobre essa passagem, Engels esclarece que
[...] a mão não é apenas o órgão do trabalho; é também produto dele. Unicamente pelo trabalho, pela adaptação a novas e novas funções, pela transmissão hereditária do aperfeiçoamento especial assim adquirido pelos músculos e ligamentos e, num período mais amplo, também pelos ossos; unicamente pela aplicação sempre renovada dessas habilidades transmitidas a funções novas e cada vez mais complexas foi que a mão do homem atingiu esse grau de perfeição que pôde dar vida, como por artes de magia, aos quadros de Rafael, às estátuas de Thorwaldsen e à música de Paganini (p. 1).
21
O Papel do Trabalho na Transformação do Macaco em Homem , de Friederich Engels (1876) in https://www.marxists.org/portugues/marx/1876/mes/macaco.htm
Resta evidente na exposição de Engels que o trabalho foi fundamental para a organização do conhecimento, que proporcionou ao homem o gradual controle das forças da natureza e a consequente constituição civilizatória. Definido como “[...] atividade racional que adapta os objetos da natureza para satisfação das necessidades, dispêndio de energia física, mental e nervosa para criação de produtos (objetos de trabalho) necessários para a sua existência, gerador de transformação humana e do meio” (SÁVTCHENKO, 1987, p. 7), o trabalho foi capaz de singularizar o humano como ser social e consciente. Segundo Antunes e Braga (2009),
na longa história da atividade humana, em sua incessante luta pela sobrevivência, pela conquista da dignidade, humanidade e felicidade social, o mundo do trabalho tem sido vital. Sendo uma realização essencialmente humana, foi no trabalho que os indivíduos, homens e mulheres, distinguiram-se das formas de vida dos animais (p. 231).
Desde a relação do ser humano com o trabalho, a evolução das capacidades humanas é explicada a seguir como catalisadora de grandes criações da humanidade que aumentaram significativamente as obras com as quais os homens interagiam e se desenvolviam, alimentando um ciclo de mútua constituição, do homem e da sociedade. O salto qualitativo deste como operador das mudanças na realidade e a transformação cumulativamente precipitada por esse avanço da relação objetiva do ser humano com a natureza é exposto assim por Engels (1876):
graças à cooperação da mão, dos órgãos da linguagem e do cérebro, não só em cada indivíduo, mas também na sociedade, os homens foram aprendendo a executar operações cada vez mais complexas, a propor-se e alcançar objetivos cada vez mais elevados. O trabalho mesmo se diversificava e aperfeiçoava de geração em geração, estendendo-se cada vez a novas atividades. A caça e à pesca veio juntar-se a agricultura, e mais tarde a fiação e a tecelagem, a elaboração de metais, a olaria e a navegação. Ao lado do comércio e dos ofícios apareceram, finalmente, as artes e as ciências; das tribos saíram as nações e os Estados (p. 3).
Tal retrospectiva à história filogenética da espécie humana foi feita com o objetivo de corroborar a ideia apresentada de mútua trasformação que ocorre nas atividades sobre a natureza, afinal, “[...] cada gesto, ação ou comportamento interessam na exata medida em que transformam o indivíduo à imagem e semelhança do mundo e o mundo à imagem e semelhança do indivíduo” (CODO, 1994, p. 53). Deste modo, não podemos pensar que as mudanças hoje evidenciadas na sociedade tecnológica não tenham semelhante poder de
transformar as pessoas que, hoje, se relacionam com uma natureza complexificada pelas próprias criações humanas. Os instrumentos para o trabalho, como produtos e criações humanos, mudaram o mundo e transformaram o seres humanos. Uma importante constatação é feita por Ulrick Beck (2010), ao tratar da “sociedade de risco” e da natureza pelo homem transformada que o aflige e o tensiona para a adaptação bem-sucedida. Ele ensina que,
ao longo de sua transformação tecnológico-industrial e de sua comercialização global, a natureza foi absorvida pelo sistema industrial. Dessa forma, ela se converteu, ao mesmo tempo, em pré-requisito indispensável do modo de vida no sistema industrial. Dependência do consumo e do mercado agora também significam um novo tipo de dependência da ‘natureza’, e essa dependência imanente da ‘natureza’ em relação ao sistema mercantil se converte, no e com o sistema mercantil, em lei do modo de vida na civilização industrial (p. 9).
Desta maneira, diferentemente do exposto anteriormente como atividades focadas na sobrevivência da espécie, neste capítulo, direcionamos a atenção para o estado atual da ciência como atividade humana transformadora, em especial, a ciência que direciona o desenvolvimento da produção deste que chamamos homem-máquina. Na sociedade industrial avançada, as demandas e riscos que convocam o sujeito à atividade são outros, apoiados no sistema social em vigência nesta civilização que conta com alguns séculos de registros, acúmulos técnicos e descobertas sobre o modo humano de ser e viver. Resultante deste processo histórico, a realidade se positiva como a sociedade tecnológica e nova natureza. Por progresso, neste ponto, nos apoiamos na noção básica de Marcuse (2001):
progresso indica que, no decurso da revolução cultural e apesar de muitos períodos de regressão, as aptidões e os conhecimentos humanos aumentaram de uma maneira geral, ao mesmo tempo que, a sua aplicação, no sentido do domínio do mundo ambiente humano, bem como do mundo exterior se tem tornado cada vez mais Universal (p. 99).
Antes deste estabelecimento da sociedade indutrial tecnológica, milhares de anos se passaram e, se, antes, os processos de elaboração do conhecimento tinham interferência dos mitos, primitivos ou não, de uma certa aleatoriedade e casualidade e da falta de sistemática que o método científico eliminou, hoje não é de modo algum aleatório como nos voltamos para a compreensão e elaboração de conhecimento sobre a realidade. Ao contrário, a ciência moderna inaugurou um modo de pensar e tornou este trabalho de descobertas sistematizado e racionalizado para a melhor adaptação do humano à natureza e à sociedade. O homem da ciência é produto das várias criações anteriores que permitiram ao humano se dedicar a pensar sobre sua realidade e suas necessidades de modo metódico e também racional.
Sobre essa transição de ações desprovidas de objetivo ou finalidade consciente para as atividades com foco e intenção, características do trabalho humano, temos a concepção de que
o trabalho do homem aparece cada vez mais nítido quanto mais clara for a intenção e a direção do seu esforço. Trabalho neste sentido possui o significado ativo de um esforço afirmado e desejado, para a realização de objetivos; onde até mesmo o objetivo realizado, a obra, passa a ser chamado trabalho. Trabalho é o esforço e também o seu resultado: a construção enquanto processo e ação, e o edifício pronto (ALBORNOZ, 2012, p. 11-2).
Em cada produção humana inovadora e bem sucedida para adaptar o homem à natureza, estabeleceu-se uma vantagem perante as práticas correntes, na medida em que essa especialização era explorada na comunidade como excedente da produção. Os ofícios foram se desenvolvendo e o domínio das técnicas se converteu em dominação sobre os pares. Vale lembrar que, segundo Sávtchenko (1987), no trabalho, a união dos objetos de trabalho (recursos naturais que o trabalhador manipula) com os meios de trabalho (instrumentos, instalações etc), geram os meios de produção capazes de impor a dominação que mencionamos, restando aos sujeitos comercializar sua força de trabalho para aqueles que têm propriedade dos meios de produção. Cabe aqui um apontamento esclarecedor de Marx (1867/2013) sobre o objetivo da maquinaria empregada de modo capitalista. Segundo o autor, em sua obra O Capital,
tal como qualquer outro desenvolvimento da força produtiva de trabalho, ela há de baratear mercadorias e encurtar a parte da jornada de trabalho de que o operário precisa para si mesmo, para prolongar aquela outra parte de sua jornada de trabalho que ele dá gratuitamente ao capitalista. Ela é meio para a produção de mais-valia ( p. 67).
Com origem nessa constatação, Marx parafraseia Stuart Mill, ao citar a obra Princípios de Economia Política e exprimir que “É questionável se todas as invenções mecânicas já feitas aliviaram a labuta de algum ser humano não alimentado por trabalho de outras pessoas”. (MILL apud MARX, 2013, p. 67, grifos de Marx). Desta maneira, é reforçada a ideia de que “[...] o desenvolvimento do saber e sua aplicação tecnológica, e a busca de novas tecnologias levando a novo conhecimento, é um processo fecundo que - só em parte é desinteressado e lúdico, pois também é movido por objetivos materiais evidentes” (ALBORNOZ, 2012, p. 22).
A ligação entre ciência e produção material é descrita como distintiva da modernidade, uma vez que a burguesia foi responsável pela inovação de aplicar o conhecimento acumulado
sobre a natureza aos processos de produção e, assim, impulsionou o desenvolvimento econômico. Ainda nas palavras de Albornoz (2012),
entre as características da era moderna que a distinguem do passado está a aplicação da ciência à produção. Embora mantendo certa autonomia em relação às condições materiais, artes e Ciências acompanham de perto o desenvolvimento econômico. A performance histórica da classe burguesa em seu momento criativo teria sido, pois, a idéia de aplicar à produção os conhecimentos sobre a natureza e os fenômenos físicos e aplicar a ciência ao aumento da produção material (p. 21).
Inicialmente partindo da Europa, berço das transformações técnicas, culturais e econômicas no florescer da Modernidade, observamos que o domínio sobre o resto do globo se fez via colonização e tal acúmulo de riqueza proporcionou aos Estados europeus desenvolvidos um aprofundamento da dominação desde as primeiras conquistas técnico- científicas representadas pela chamada primeira revolução industrial, na Inglaterra. Gradualmente, o desenvolvimento técnico dos Estados convertia-se em dominação e exploração dos países/Estados que não detinham o conhecimento para aplicar como incremento da produtividade e permaneciam dependentes dos produtos da evolução tecnológica conquistada pelos países mais desenvolvidos. A seguir, verificamos breve descrição do momento histórico que nos é importante para identificar os primórdios da supremacia da técnica na dinâmica global:
depois de alguns séculos em que a colonização dos novos mundos descobertos carreara para a Europa riquezas consideráveis, e com a aplicação da ciência a produção, a expansão capitalista gerou o que se chamou de Revolução Industrial. Desde o início da era moderna podem-se reconhecer três estágios de desenvolvimento da tecnologia: O primeiro da invenção da máquina a vapor: é a revolução tecnológica do século XVIII. O segundo estágio do desenvolvimento da tecnologia moderna, no século XIX, se caracteriza pelo uso da eletricidade, que ainda continua a determinar a fase atual do reino do artifício humano. A automação representa o estágio mais recente da evolução tecnológica: a invenção do computador, a revolução industrial do século XX, ou a terceira onda da Revolução Industrial (ALBORNOZ 2012, p. 22).
Considerando esses elementos, justificamos o uso da expressão homem-máquina. Percebemos, assim, que essa relação a nos preocupar hoje é tornada complexa e materializada nos produtos da terceira revolução industrial, os computadores, mas que teve início nos primeiros passos dessa dominação da técnica que se converteu em dominação sobre os homens. Com a conectividade da internet hoje, com base no que nos diz Alves (2011) sobre a quarta idade da máquina, entendemos que uma nova Revolução Industrial se estabeleceu. Assim, entendemos como necessário remontar a história da relação homem-máquina para
evidenciar o papel da técnica nesse processo. Esse papel é descrito por Mumford (1934/2002) na citação seguinte:
na verdade, desde o princípio, as conquistas mais duradouras da máquina residiram, não nos instrumentos mesmo, que rapidamente ficaram antiquados, nem nos bens produzidos, que de imediato foram consumidos, mas nos modos de vida tornados possíveis graças à máquina e na máquina: o extravagante escravo mecânico [a máquina] era também um pedagogo (p. 03).
Portanto, nossa escolha pela dicção “homem-máquina” se baseia na percepção de que as transformações que hoje se dão na humanidade, objetiva e subjetivamente, no corpo e no psiquismo, são fruto da supervalorização e incremento de nossas máquinas, cujas características almejamos incorporar para controlar, e, quem sabe, até suplantar aquilo que restar de humano para permitir maior desempenho e eficiência. As máquinas ficaram complexas, do mecânico, ao elétrico, para o eletrônico e hoje no mundo digital portam grande capacidade de servir e, em contra-partida, transformar o ser humano, inclusive como fonte de inspiração, conforme exprime Sibilia (2002):
em todas as sociedades o corpo está imerso em redes que lhe impõem certas regras, obrigações, limitações e proibições. No caso específico da sociedade industrial, o biopoder se propõe a converter os corpos e os tempos dos individuos em força produtiva, tendo a máquina como modelo e metáfora inspiradora (p. 32).
Podemos supor que, no decorrer da história da evolução dos instrumentos, essa relação do humano com a máquina evoluiu de tal modo que o dispensou como operador da maquinaria para permitir uma automação da máquina. Inicialmente, a máquina substituiu a força humana para operar mecanicamente e hoje já substitui em atividades que necessitam da cognição, percepção e raciocínio lógico-matemático. Cada vez mais o homem se torna menos necessário ao funcionamento das máquinas automatizadas, que hoje já trazem em seus circuitos e memórias as capacidades para as quais foram programadas para realizar com rendimento calculado. Se a linha de produção manteve o trabalhador como operador de seus intrumentos, supomos que seja porque as condições de implantação das máquinas ainda não sejam favoráveis ou viáveis para abdicar totalmente da participação humana. É percebido, entretanto, em larga escala, a substituição não só da força do homem, iniciada nos primórdios da revolução indutrial, mas também de sua capacidade de responder a comunicações humanas mais recentemente com as máquinas em terminais de atendimento, centrais telefônicas de bancos, linhas aéreas e empresas de vários ramos que implementaram o chamado serviço de
atendimento ao cliente 2.0.22 Sobre esse organismo cibernético, mescla entre homem e máquina que temos nos tornado, Haraway em seu Manifesto Ciborgue afirma que
A cultura high-tech contesta - de forma intrigante- esses dualismos. Não está claro quem faz e quem é feito na relação entre o humano e a máquina. Não está claro o que é mente e o que é corpo em máquinas que funcionam de acordo com práticas de codificação. Na medida em que nos conhecemos tanto no discurso formal quanto na prática cotidiana, descobrimo-nos como sendo ciborgurs, híbridos, mosaicos, quimeras. Os organismos biológicos tornaram sistemas bióticos- dispositivos de comunicação como qualquer outro. Não existe, em nosso conhecimento formal, nenhuma separação fundamental, ontológica, entre máquina e organismo, entre técnico e orgânico (p. 100).
Os dualismos por ela citados são os mais importantes e problemáticos para nossa compreensão atual das lógicas e práticas de dominação operadas pelo “eu dominante” constituído historicamente. Os dualismos seriam: “eu/outro, mente/corpo, cultura/natureza, macho/fêmea, civilizado/primitivo, realidade/aparência, todo/parte, agente/instrumento, o que faz/ o que é feito, ativo/passivo, certo/errado, verdade/ilusão, total/parcial, Deus/homem