2 Teori
2.3 Tunnelstøy
O moderno sistema colonial, por mais brutais que sejam os seus métodos e mais egoístas os objetivos dos sujeitos que nele se apóiam, não pode prescindir de uma ideologia que o justifique. Para a estabilidade do sistema, não é suficiente possuir uma superioridade militar diante dos povos “atrasados e inferiores”. É preciso também poder contar com uma base de sustentação política e social no interior da metrópole – sobretudo quando se trata de uma democracia representativa burguesa – e também no seio da própria sociedade dominada. É importante contar com o apoio de setores da própria sociedade conquistada, pois isto
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Cf. ibid., p. 90. 170 Cf. ibid., p. 92. 171
contribui para reduzir os custos do empreendimento colonial. Pode-se dizer, nesse sentido, que a ideologia insere-se numa estratégia baseada na “economia da violência”.
A Inglaterra, pioneira da moderna colonização, foi também – e não se trata de uma mera coincidência – o “berço” da teoria que procurou dourar a pílula da opressão colonial. É praticamente impossível contar quantos foram os livros publicados por autores que, para defender a política colonial do Estado britânico, alegaram que a ocupação tinha o propósito de “educar e libertar” as raças que se encontravam num estágio evolutivo inferior (sem contar, obviamente, também os inúmeros artigos que foram escritos na imprensa e os pronunciamentos de deputados na tribuna do Parlamento).
Ideólogos do colonialismo britânico alegavam que a administração das colônias orientava-se de acordo com “metas” bem definidas: “promover ao máximo os interesses da colônia, desenvolver seu sistema de governo o mais rapidamente possível e elevá-la da situação de inferioridade à situação de associação”.172 Afirmava-se que o grau de “liberdade” alcançado pela população das colônias, sob a tutela da metrópole, jamais teria sido alcançado se aquelas sociedades continuassem sendo governadas de acordo com seus próprios costumes e suas tradições multisseculares. Com bastante exatidão, Hobson resumiu da seguinte maneira a lógica contida nos argumentos em defesa do sistema colonial: “nos encontramos aquí con la teoría de que los británicos, al igual que los romanos, representam una raza genialmente dotada para el arte de gobernar, de que nuestra política colonial e imperial está animada por la firme decisión de propagar por todo el mundo la ciencia del libre autogobierno que nosostros disfrutamos en nuestro país, y de que de verdad estamos llevando a cabo esa empresa”.173
Tais argumentos contrastavam com as medidas práticas (políticas e militares) que eram necessárias para implementar este tipo de “política exterior”. Predominou, para utilizarmos uma expressão bastante conhecida, a eficiente “diplomacia da canhoneira”, que funcionou não apenas para os Estados cujo status era o de colônias, mas também para países formalmente independentes (como atesta, no Brasil, o incidente ocorrido na Baía da Guanabara que comentarei no capítulo VIII). O princípio que deveria reger as relações internacionais – o direito à autodeterminação dos povos e nações – foi sistematicamente violado para atender aos interesses da nova camada plutocrática que controlava o poder político nos países de capitalismo avançado (ou, como afirmou Lênin: “quando a diplomacia falha, a esquadra intervém”).
172 Cf. HOBSON, Estudio del imperialismo, p. 122. 173
Hobson e, depois dele, os escritores marxistas que no início do século XX estudaram o imperialismo, denunciaram à exaustão os abusos, as violências e a opressão sofridos pela população dos países conquistados (política ou economicamente). Mas, excetuando-se justamente o primeiro deles – que não chegou a compreender o significado do imperialismo na sua complexidade dialética, ou seja, no fato de que os seus aspectos destrutivos criavam simultaneamente as condições objetivas para a sua superação positiva –, todos os demais notaram que o avanço das relações capitalistas para os mais distantes cantos do planeta trazia a perspectiva de saltar etapas de desenvolvimento e colocar em discussão a própria questão do socialismo (afinal, como disse Marx, os indivíduos só colocam os problemas cuja solução já
se tornou possível...).
Os limites contidos na análise de Hobson já haviam sido identificados por Lênin, que afirmou que o primeiro – um típico representante da ala esquerda do liberalismo britânico – não chegou a compreender “as forças que contrarrestam o imperialismo em geral”. Para o marxista russo, a coerção utilizada para “educar o negro para o trabalho” poderia gerar uma resistência em sentido contrário, “preparando deste modo a emancipação econômica e depois política das raças de cor”.174 O imperialismo, que exigia a utilização da força militar e a superexploração de trabalhadores totalmente destituídos dos direitos mais elementares, estava contribuindo para gerar uma contra-tendência: o despertar da consciência revolucionária, que consistia numa luta dotada de um duplo propósito: a emancipação nacional e a superação da ordem burguesa, antes mesmo que esta tenha sido completada. Esta tendência também não passou despercebida aos olhos de Hilferding:
Nos países recém-abertos, o capitalismo importado acirra por sua vez os antagonismos e excita a crescente resistência dos povos que despertam para a consciência nacional contra os invasores. Esta pode facilmente recrudescer a tomada de medidas perigosas contra o capital estrangeiro. As velhas relações sociais são totalmente revolucionadas, rompe-se a milenária vinculação agrária das “nações sem história”, que inclusive são submersas no turbilhão capitalista. O próprio capitalismo confere paulatinamente aos subjugados os meios e os caminhos para sua libertação. A meta que outrora era o mais alto ideal das nações européias – a criação do Estado nacional coeso, como meio de alcançar
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a liberdade econômica e cultural – torna-se também a meta dessas nações subjugadas.175
A dupla reconfiguração do equilíbrio de forças – tanto entre os países imperialistas e suas esferas de influência, quanto no interior de cada uma destas sociedades – fazia os socialistas de todo o mundo voltarem cada vez mais suas atenções para os países atrasados, sobretudo para a Rússia. Enquanto a perspectiva de uma revolução popular se avizinhava nos países atrasados, a contaminação da ideologia reformista nas economias industrializadas representava um refluxo do movimento anticapitalista. Esta situação só fez agravar ainda mais as tensões entre os países exportadores e importadores de capital, uma vez que os primeiros vinham tentando “expulsar”, por assim dizer, os custos da acumulação capitalista para todos os países que sofriam com a luta pela partilha do mundo. Quando a própria partilha do vasto território mundial foi concluída, já na primeira década do século, então a eclosão de uma disputa direta entre as grandes potências tornou-se uma mera questão de tempo: as coisas só poderiam ser resolvidas, nestes termos, na ponta da baioneta. Bukharin afirmou, a propósito, que não se tratava de outra coisa senão da tentativa generalizada de “resolver a fio de espada as questões litigiosas”.176
175 HILFERDING, O capital financeiro, p. 302. 176