Part I – Foundation
5 Methodology
5.3 Methodological considerations
5.3.1 Trustworthiness
Fonte: Esquema 10, Adam (2011a, p. 111). Conforme Adam (2011a, p. 109, grifos do autor):
As três dimensões complementares de toda proposição enunciada são: uma dimensão enunciativa [B] que se encarrega da representação construída verbalmente de um conteúdo referencial [A] e dá-lhe uma certa potencialidade argumentativa [ORarg] que lhe confere uma força ou valor ilocucionário [F] mais ou menos identificável.
Fica evidente, no esquema apresentado por Adam (2011a), que a proposição enunciada é constituída pelos níveis 4 e 5, ou seja, pelo nível sequencial-composicional. Desse modo, cabe-nos compreender que as proposições-enunciados – unidades textuais de base – funcionam como parte de um processo de construção do texto e não como o texto em si. Com essa mesma linha de pensamento, Passeggi et al. (2010, p. 271) afirmam que “as proposições-enunciados, ligam-se entre si através de diversos processos, entre os quais: correferência e anáforas; isotopias; colocações; elipses e implícitos; conectores, incluindo os organizadores textuais e os conectores argumentativos”. Esses elementos, nos níveis 6, 7 e 8, a depender do objeto de investigação, podem funcionar como categorias de análise para compreender as dimensões que a esses níveis correspondem. Diante disso, como o enfoque
desse trabalho é a noção de representação discursiva deter-nos-emos na parte A (nível 6), isto é, na representação discursiva construída pelo conteúdo referencial11.
Adam (2011a, p. 110) afirma que o ato de referência é uma operação construída no e pelo discurso, e que “o fato de se colocar o valor descritivo de todo o enunciado na parte [A] não implica sua separação dos outros componentes”. Dessa forma, observar o nível semântico (referência como representação discursiva) é atentar tanto para a proposição-enunciado na linearidade do texto, concepção do nível sequencial-composicional, quanto para a sua reticularidade, uma vez que é por meio dos movimentos de sentido que se constrói a referência na atividade discursiva.
De acordo com Adam (2011a, p. 113-114):
Toda proposição enunciada possui um valor descritivo. A atividade discursiva de referência constrói, semanticamente, uma representação, um objeto de discurso comunicável. Esse microuniverso semântico apresenta-se, minimamente, como um tema ou objeto de discurso posto e o desenvolvimento de uma predicação a seu respeito. A forma mais simples é a estrutura que associa um sintagma nominal a um sintagma verbal, mas, de um ponto de vista semântico, uma proposição pode muito bem se reduzir a um nome e um adjetivo.
Como vemos, Adam situa no valor descritivo de uma proposição enunciada o potencial de construir semanticamente uma representação, ou seja, de fazer referência ao mundo ou a um objeto no mundo e, para isso, aponta a relação entre tema e predicação como sendo a forma prototípica de manifestação dessa referência.
Sob essa ótica, Rodrigues, Passeggi, Silva Neto (2010, p. 173) afirmam que “[...] toda proposição, na condição de ‘microuniverso semântico’, constitui uma representação discursiva mínima”, isto é, por mais que uma proposição-enunciado apresente apenas um ou dois constituintes (nome e adjetivo, por exemplo), essa construção referencia algo no mundo, isto é, um objeto de discurso. Este, entendido, aqui, como o referente: entidade discursiva utilizada e atualizada no e pelo discurso pelos agentes de linguagem.
Sendo assim, compreendemos objeto de discurso12 como uma construção discursiva, isto é, um produto, uma representação que é alimentada pela atividade linguística, na qual locutores enunciam referentes (fundamentalmente culturais) e os colocam em circulação por
11 Esta posição teórica que assumimos em nosso trabalho tem caráter puramente metodológico, haja vista sermos reconhecedores da dissociabilidade das dimensões semântica, enunciativa e argumentativa para a construção dos efeitos de sentido do texto.
12 O conceito de objeto de discurso é muito caro para o estudo do nível semântico do texto, haja vista ser por meio dele que buscamos compreender como são representados, discursivamente, o locutor, o interlocutor e os temas tratados no texto.
meio dos textos. Por seu turno, esses referentes sofrem transformações na memória discursiva dos interlocutores, o que garante aos objetos de discurso uma intrínseca instabilidade13 (APOTHÉLOZ, REICHLER-BÉGUELIN, 1995; KOCH, 2002; 2006; CAVALCANTE, 2011).
Seguindo esse princípio de que os objetos de discurso servem para referenciar linguisticamente as entidades discursivas existentes na memória dos indivíduos, retomamos um posicionamento do idealizador da ATD, no qual afirma que “a atividade de referência constrói, semanticamente, uma representação, um objeto de discurso comunicável” (ADAM, 2011a, p. 113). Portanto, ao por em discurso um objeto (referente), o locutor produz uma proposição-enunciado que constrói, por meio dos sentidos possíveis a ela atribuídos, uma representação discursiva do conteúdo referencial.
A representação discursiva, doravante Rd, é colocada como uma das principais noções do nível semântico, ao lado de anáforas, isotopias, colocações, entre outras, que são responsáveis pelos entornos significativos regentes do texto. Rodrigues, Passeggi, Silva Neto (2010, p. 173), afirmam que “todo texto constrói, com maior ou menor explicitação, uma representação discursiva do seu enunciador, do seu ouvinte ou leitor e dos temas ou assuntos que são tratados”.
Para Adam (2011a, p. 113), uma representação discursiva é “a expressão de um ponto de vista [PdV]”. Portanto, para interpretá-la, devemos atentar para a representação que é construída pelo conteúdo proposicional.
Passeggi (2012, p. 232) admite que as representações discursivas “são de natureza linguística, manifestadas nos/pelos textos”. Desse modo, a representação enquanto referência do enunciador, do leitor ou dos assuntos tratados só pode ser percebida na/pela produção co(n)textual de sentidos, o que implica uma (re)construção do sentido por parte do interpretante. Sobre isso, Adam (2011a, p. 114) afirma que:
É o interpretante que constrói a Rd a partir dos enunciados (esquematização), em função de suas próprias finalidades (objetivos, intenções) e de suas representações psicossociais da situação, do enunciador e do mundo do texto, assim como de seus pressupostos culturais.
Assim, ao construir uma Rd em um dado texto, recai sobre o leitor/interpretante o papel de (re)construí-la com base em suas representações (psíquicas, sociais, culturais, etc.), a
13 A instabilidade a que nos referimos diz respeito à possibilidade de modificações do referente, em virtude dos valores culturais que constituem os sujeitos envolvidos na atividade de linguagem.
fim de obter os resultados semânticos ali atribuídos. Não significa dizer que o interpretante deverá agir simetricamente ao locutor, mas ele é solicitado a desenvolver uma atividade semelhante de (re)construção do sentido (ADAM, 2011a).
Ao tratarmos a Rd como algo passível de ser (re)construída pelo interpretante, através de suas representações sociais, cognitivas, etc., isto é, dos objetos de discurso que fazem parte, culturalmente, da memória discursiva dos interpretantes, esclarecemos que o princípio que rege a formulação do conceito de representação discursiva advém da lógica natural14 e, mais especificamente, da noção de esquematização proposta por Grize (1990; 1996).
A lógica natural é definida por Grize (1990, p. 65) como:
[...] o estudo de operações lógico-discursivas que permitem construir e reconstruir uma esquematização. O duplo adjetivo é para sublinhar o fato de que se está em presença de operações de pensamento, mas somente na medida em que esses se expressam através de atividades discursivas. Quanto ao termo operação, ele deve ser tomado em seu sentido matemático. Trata-se sempre de uma aplicação de um conjunto sobre ele mesmo (operação interna) ou em outro conjunto (operação externa).
Adam (2011b, p. 95), ao citar Grize (1996), afirma que “o conceito-chave da lógica natural [...] é o de esquematização, portanto, de representação discursiva”. Assim, com a esquematização, busca-se compreender as operações, isto é, as escolhas e os arranjos das palavras, orquestrados entre os interlocutores em uma situação de comunicação.
3.1.1 Da esquematização aos grupos da Representação discursiva
Para Grize (1990; 1996), a situação de comunicação entre interlocutores é um espaço sociodiscursivo de interação. Essa posição carrega, em sua base, os postulados bakhtinianos acerca da dimensão dialógica da linguagem, uma vez que, para o referido autor, a atividade de esquematização é constituída pelo caráter dialógico da atividade comunicativa. Além disso, outro postulado que assume a perspectiva dialógica, na lógica natural, é o:
da situação de interlocução, que admite que toda comunicação se desenvolve numa situação que apresenta duas dimensões. A primeira, concreta, enquanto atividade discursiva situada em certo momento, em certo
14 Assumimos essa posição por estarmos em consonância com os trabalhos realizados por Adam (1999, 2011b), Passeggi (2001, 2012), Oliveira (2013) e Queiroz (2013), para os quais a representação discursiva tem suas bases na lógica natural, de Jean-Blaise Grize, e mais especificamente no conceito de esquematização.
lugar, visando a uma finalidade e estabelecendo um conjunto de relações sociais e históricas; a segunda, a própria atividade discursiva, que contribui para a elaboração da situação. (PASSEGGI, 2001, p. 247, grifos nossos). É, portanto, considerando os postulados do dialogismo e da situação de interlocução que Grize começa a conceber o que ele entende por esquematização na situação de interlocução. Isto posto, cabe afirmar que, além desses postulados, outros três são apresentados pelo autor – das representações, dos pré-construídos culturais e da construção dos objetos –, todavia, estes vinculam-se mais diretamente à esquematização discursiva. De forma resumida:
O postulado das representações remete às “representações mentais” dos interlocutores. Embora a lógica natural não pretenda examinar a realidade psicológica das representações mentais [...] ela assume que os interlocutores têm representações e que estas são fundamentais na comunicação discursiva. O postulado dos pré-construídos culturais estabelece que os interlocutores mobilizam um conjunto de conhecimentos pré-construídos, de natureza cultural e social, a começar pela própria língua utilizada. [...] São os pré- construídos que fazem com que um texto seja, ao mesmo tempo, um produto verbal e um produto social. Finalmente, o postulado da construção dos objetos refere-se ao fato de que o discurso constrói objetos de pensamento, a partir da significação dos termos que utiliza. Esses objetos remetem aos referenciais do discurso, que devem ser, pelo menos parcialmente, comuns aos interlocutores. (PASSEGGI, 2001, p. 248).
Grize (1996), ao definir esquematização, articula esses postulados em um esquema que representa o seu entendimento sobre a situação de interlocução. Vejamos: