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Embola o coco no balanço do mineiro vou fazer um paradêro

para o pulmão descansar (Chico Caçuêra, Iguape: 2006)

Faço agora um “paradêro”, como dizem os mestres coquistas, quando realizam um pequeno intervalo para mudar o ritmo, o mote, tomar água ou qualquer outro líquido que lhes dê energia para retomar com mais fôlego. Assim o faço, com a intenção de retomar com mais fôlego a próxima empreitada acadêmica.

Nessas páginas abordei a questão da cultura popular porque não podia abdicar dessa discussão, de salutar importância ao estudo dos cocos. O caminho foi árido, posto que se trata de um assunto muito polêmico e, às vezes, infrutífero. Algumas vezes me senti perdido como se estivesse numa floresta, andando em círculos, à procura de uma clareira ou do caminho de volta ao lar. Me conforta saber que intelectuais renomados também se perderam nesse caminho, por se tratar realmente de um terreno pantanoso.

Para estudar os cocos foi preciso abrir mão de uma premissa básica, a de que os cocos constituíam uma manifestação da cultura popular, com todas as implicações que o termo denota. Para mim, os cocos são uma manifestação cultural, só isso, nem popular, nem erudita, nem qualquer outra coisa que queiram atribuir-lhe. Os cocos não fazem parte de uma “lógica cultural autônoma” (SAHLINS, 2003a: 8). Estão na história, com suas idiossincrasias, mudanças e permanências. Espero ter conseguido mostrar os limites desses termos, popular e erudito, que acabam falando muito mais do universo simbólico e das crenças nas ideologias científicas dos teóricos do que das pessoas estudadas.

Escolhi, seguindo a trilha deixada por Peter Burke, Sahlins e outros, concentrar o foco da compreensão na interação entre os brincantes e as outras pessoas que de uma forma ou de outra se fazem presentes no momento em que a brincadeira acontece. Espero ter mostrado os diferentes modos como os cocos são apropriados pelas pessoas que ocupam lugares específicos na brincadeira e que, portanto, trazem em seus corações sentimentos diversos em relação aos cocos.

algum juízo de valor, diria que todos são anjos e demônios, de acordo com o que é solicitado, estimulado... É claro, existem os que se controlam, desses nada tenho a dizer.

Prefiro acreditar (também tenho minhas crenças) que as pessoas agem de tal ou qual maneira, e não que elas são assim ou assado. Isso me ajuda a manter a esperança. O que nos falta, muitas vezes, é apenas uma mudança de atitude.

Afirmar que os cocos são uma manifestação atual, implica dizer que o passado presente nos temas e nas histórias de seus praticantes encontra-se num eterno fluxo da história. De acordo com Sahlins:

a ação simbólica é um composto duplo, constituído por um passado inescapável e por um presente irredutível. Um passado inescapável porque os conceitos através dos quais a experiência é organizada e comunicada procedem do esquema cultural preexistente. E um presente irredutível por causa da singularidade do mundo em cada ação: a diferença heraclitiana entre a experiência única do rio (ou fleuve) e seu nome (SAHLINS, 2003a: 189).

Um passado que é solicitado para legitimar uma tradição que só faz sentido porque é experimentada no presente. Assim percebo as narrativas que procuram explicar como surgiram os cocos. Isso nada tem a ver com a idéia evolucionista de folclore, não há o que preservar, já está preservado na memória corporal e nas emoções dessas pessoas. Não há o que resgatar, posto que está vivo. A brincadeira do coco precisa apenas ser vivida. E isso já acontece. E não são apenas os brincantes que fazem a festa, ela existe para criar laços de solidariedade, para criar vínculos emocionais entre as pessoas que se arriscam a ouvir o canto da sereia, sem que estejam atadas ao mastro da embarcação. Quem assim o faz, como Ulisses, jamais provará a veludez daquelas vozes...

Tentei separar, para fins didáticos, a música, a dança e a poesia dos cocos. O objetivo era explicar e tentar compreender um a um, para depois realizar a grande síntese interpretativa que revela os segredos do universo. Falhei nessa tarefa. Principalmente porque, como eu já sabia, esses três elementos não se separam nos cocos. Sempre que tentei concentrar o olhar em um deles, os outros dois surgiam. Era como se estivesse tentando segurar embaixo d´água algumas bexigas cheias de ar, quando segurava uma, outra vinha à superfície e assim sucessivamente, tentei em vão separar o que não se separa. Assim também o fazem os estudiosos que pelejam em separar as culturas.

Para finalizar, compartilho uma idéia do casal Ayala & Ayala. Referindo-se aos propósitos da ciência que procura estudar as motivações humanas, eles desabafam:

Estudar a literatura popular na escola, na universidade só tem sentido, a meu ver, se for para estabelecer um confronto com esses mecanismos de exclusão típicos da cultura hegemônica. Só tem sentido se for para sairmos dessa experiência menos ignorantes e mais humanizados (AYALA & AYALA, 2000: 40).

Espero ter conseguido, pelo menos, encontrar o início da vereda que conduz a essa experiência. Tive a grande felicidade de estudar algo pelo qual tenho uma imensa paixão, nem por isso fui menos cientista. Pelo contrário, a consciência desse fato me fez menos ingênuo e mais atento aos possíveis problemas que iria enfrentar. E eles vieram. E foram enfrentados com todo o respeito que um coquista tem pelo seu adversário. Aqui, como na brincadeira do coco, a gente acaba numa chuva de rimas, todas para elogiar e para agradecer a participação dos outros, pois sem eles talvez a vida não teria graça.

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