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2.4 Trondheim

Pro b le m a s d e g ê ne ro : fe m inis m o e s ub v e rs ã o d a id e ntid a d e . Jud ith Butle r. Rio d e Ja n e iro: Civiliza çã o Bra sile ira , 2 0 0 3 .

Sim one Perelson

Psicanalista, doutora em psicopatologia fundam ental e psicanálise pela Université Paris 7

Em seu livro Problem as de gênero: fem inism o e subversão da ident idade, Ju d ith Bu tler em - preen de, em prim eiro lu gar, u m a gen ea- logia crítica, fortem en te fu n dam en tada n o p en sam en to d e Fo u cau lt, d as cate- g o r ias d e g ên er o estab elecid as co m o u m a relação binária hom em - m ulher. Irá d e- m on strar qu e o bin arism o é u m produ - to reificado de práticas discu rsivas m ú l- tiplas e difu sas qu e fu n cion am com o re- gim es de poder, sen do o falocen trism o e a heterossexualidade com pulsória apon- tad o s co m o o s elem en to s d efin id o res desta produ ção/ con stru ção.

A genealogia crítica do binarism o dos gêneros conduzirá a autora à crítica da distinção sexo- gênero, à idéia de um sexo na- tural ou pré-discursivo, por um lado, e u m gên ero cu ltu ralm en te co n stru íd o , por outro. A construção do caráter natural do sexo, a produção da natureza sexuada com o anterior à cultura é, de fato, um a m an eira de assegu rar a m an u ten ção da estr utura binária dos gêneros. Vale obser- var, com o nota Butler, que o discurso que opõe o sexo natural ao gênero cultural concebe de m odo habitual que a nature- za é fem inina e precisa ser subordinada pela cu ltu ra, invar iavelm en te con cebida com o m asculina. A crítica de Butler à idéia de um sexo natural fundam enta-se na crí- tica de Foucault à concepção da cultura com o efeito de um a lei repressiva, na qual

encontraríam os, de um lado, um a sexua- lidade su bversiva ou em an cipatória, li- vre da lei, do discurso e do poder ( po- den do esta ser fem in in a ou n ão) e, de outro lado, a lei repressora.

Pelo con trário, sexu alidade e poder são co-extensivos e a concepção de um desejo com o original ou recalcado é um efeito da própria lei coercitiva. É n este sentido que Foucault afirm ará que a lei é produtiva: ela produz a ilusão da distin- ção entre predisposições prim árias natu- rais e livres e disposições secundárias le- gitim adas pela lei. Com o efeito destas três críticas, será a própria noção de um a iden- tidade com o fundam entada na divisão do gênero e, m ais ainda, com o fundam ento do gênero que será colocada em causa.

Segundo Butler, o eu de gênero per- m anente define-se por um estilo, por atos repetidos que constroem a ficção de um a id en tid ad e su b stan cial. Neste sen tid o , não há identidade de gênero por trás das exp ressõ es d o gên ero ; o s atrib u to s d o gênero não são expressivos m as perform á- ticos, isto é, constituintes da identidade que pretensam ente revelam .

Mas, face à inexistência de toda e qual- quer exterioridade com relação ao gêne- ro construído, com o é possível subvertê- lo? Com o é possível subverter a lei? Esta é a questão que interessa de fato à autora, pois o livro de Butler é antes de tudo um projeto político, e m ais ainda um projeto de form ulação de estratégias sustentadas, e não ideais, de subversão do gênero.

Em prim eiro lugar, a autora m ostrará que não se deve com preender a hegem o- nia do poder com o o fracasso da possibi- lidade de subversão, pois operar no in- terior da m atriz do poder não é o m esm o que reproduzir acriticam ente as relações de dom in ação. Além disso, a afirm ação de que a sexualidade, assim com o a iden- tidade e o gênero, são construções cultu-

rais, n ão deve ser com preen dida com o a afirm ação de seu caráter ilu sório ou ar- tificial — co m p r een são r esu ltan te d a postu lação de u m bin ário qu e opõe real a au tên tico. Mas sobretu do o qu e deve ser con siderada é a possibilidade de qu e a en u n ciação de u m sexo ou de u m a se- xu alidade an terior ao próprio en u n cia- do con tradiga perform ativam ente a si m es- m a, geran do altern ativas em seu lu gar, isto é, crian do de m an eira in advertida as co n d içõ es d e su a p ró p ria su b stitu i- ção cultural.

An tes de explicitar o m odo segu n do o qu al é possível, n este con texto, a pro- du ção de práticas efetivas de su bversão, Ju dith Bu tler propõe u m a an álise crítica d e alg u m as fo r m u laçõ es teó r icas n as q u ais u m a estratégia d e su b versão d o gên ero estaria em ação, de m odo a in di- car os lim ites de cada um a delas. Para em - preen der esta tarefa, a au tora abordará sobretu do algu m as form u lações de Lévi- Strauss, Lacan, Freud, Foucault, Kristeva e Monique Wittig.

Das fo r m u laçõ es d e Lévi- St r au ss, Butler critica a oposição natureza-cultura o que o levaria a “ ontologizar” o sexo. Em bora “ desontologize” o “ ser” do gê- nero e/ ou sexo, Lacan m ostra-se ideolo- gicam ente suspeito quando, ao invés de radicalizar a dim ensão côm ica da ontolo- gia sexual por ele apontada, desenvolve u m a id ealização religio sa d o fracasso. Freu d, por su a vez, am plia a n oção de predisposições libidinais prim árias, sen- do quem de fato produz a ficção lingüís- tica do desejo recalcado e a idéia de que a entrada no cam po cultural desvia o de- sejo do seu significado original. Kristeva, em bora estabeleça um a produção cultu- ral — a poesia — com o o cam po de sub- versão da lei patern a, ao con ceber esta subversão com o a m anifestação no dis- curso poético da m ultiplicidade e do caos

libidinal próprios ao relacionam ento pri- m ário com o corpo m aterno, naturaliza o corpo e faz do ato subversivo a m anifes- tação de um a realidade pré-cultural.

O Foucault que Butler critica é aque- le que, em sua introdução ao diário do herm afrodita Herculine, contradiria a si m esm o ao dem onstrar, através da sua com - preensão do suposto desaparecim ento do sexo de Herculine com o o lugar de um lim bo feliz de um a não-identidade, um deleite sentim ental e um ideal em ancipa- tório difícil de m anter. Em bora, enfim , a literatura de Wittig, ao seguir um a traje- tória narrativa de desintegração, revele a contingência do gênero, a autora m an- tém a pressuposição da condição univer- sal do sujeito, sustentando que este tem um a integridade pré-social e anterior a seus traços de gênero.

A partir da explicitação dos lim ites de cada um a destas estratégias subversi- vas, Butler pode, enfim , esclarecer no que consiste o que ela considera um a estraté- gia política capaz de subverter as noções naturalizadas do gênero e a ilusão da iden- tid ad e fu n d ad o ra. Em p r im eiro lu gar, m uito m ais do que m anifestar um repú- dio radical de um a sexualidade construí- da, as práticas efetivam ente subversivas são aq u elas q u e, ao p ro d u zirem u m a descontinuidade e um a dissonância sub- ver siva en tr e sexo , g ên er o e d esejo , questionam suas supostas relações e nos perm item desconstruir a aparência subs- tantiva do gênero e da identidade. Em se- gu n d o lu gar, o m eio eficaz p ar a esta desconstrução se encontra nas deform a- ções ou repetições parodísticas — n as perform ances dissonantes e desnaturalizadas que revelam que o original nada m ais é do que um a paródia da idéia do original e do natural. Em terceiro lugar, os atos políticos são atos que subvertem a partir de dentro dos term os da lei, revelando,

não o interior recalcado ou a base oculta da cultura, m as sobretudo um a outra ver- são dela própria, versão que surge quan- do a cultura se vira contra si m esm a e gera m etam orfoses in esperadas. En fim , para que haja um a ação política não é neces- sário suporm os a existência prévia de um a identidade, sede dos interesses políticos pelos quais se luta. Pelo contrário, o eu constrói-se perform ativam ente através de sua ação; ele é um a prática, e sobretudo um a prática discursiva.

Nestes tem pos do “fim da política”, Butler nos oferece não apenas um livro de extrem o rigor teórico, indicando de m odo preciso de que m odo são naturalizadas e reificadas noções construídas culturalm en- te, com o tam bém aponta um a nova dire- ção, renovando o ânim o que tem nos fal- tado, para retornarm os ao cam po hoje tão desprezado da ação política.

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Sim one Perelson

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