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A escrita foi fazendo sentido para os professores copesquisadores à medida que eles e elas foram anotando no Diário de Registro suas percepções e construções

que emergiam do diálogo nos Círculos. O registro foi se (re) significando pelo diálogo nos círculos. Os profissionais foram registrando, também, outros fatos e pensamentos ao longo dos seus dias, transcendendo os momentos coletivos; assim, transformando o Diário num instrumento de apoio à reflexão, como, de fato, era o objetivo. Desta forma, alguns argumentos são apresentados na análise e construção deste metatexto para validar sua utilização como apoio à reflexão. São eles: a constituição do Diário de Registro, a maneira e o motivo dos registros feitos e de que forma esse Diário contribuiu para a reflexão das práticas pedagógicas.

Segundo Zabalza (2010), “os diários oferecem uma via potente de acesso ao estudo ‘rigoroso’ e ‘vigoroso’ dos processos de ensino” (2010, p. 25). Entendemos, com isso, que, através do registro, cada professor/a pode ter acesso ao acompanhamento do processo de ensino e aprendizagem que desenvolve junto aos estudantes. Consequentemente, o registro fortalece o profissional, pois é também compreendido como uma possibilidade de autoformação. Isso, então, justifica a utilização dos diários como ferramenta de acompanhamento e reflexão da ação docente, já que, numa perspectiva freireana, a escrita vai para além da narrativa, constituindo-se, conforme Freitas (2010), em “dispositivos que convidam à atitude investigativa, com base nos conceitos de reflexão, registro, observação e escuta”.

Os conteúdos escritos nos Diários foram conhecidos e analisados por mim, enquanto pesquisadora, e revelaram a forma com que cada um se apropriou da autoria de produzir o seu próprio Diário, com as suas “coisas”, como disse a professora Jade que escreveu “nos dedicamos a anotar a nossa prática. Escrever sobre nossas coisas” (DRP2.1). Em diálogo, a professora Liz complementa “aqui é o lugar onde podemos escrever e falar sobre as nossas coisas com leveza e profundidade” (TCD5.2), referindo-se ao Círculo. Essas afirmações evidenciam que os professores conseguiram incutir, em sua prática cotidiana, a escrita do Diário como algo seu, como um lugar onde se pode escrever sem receio e em que a própria escrita representa elemento para a problematização. Além disso, demonstra como o Círculo Dialógico potencializou a escrita nos Diários, uma vez que também representou um lugar onde era possível “dizer as suas coisas”.

Os professores, na utilização dos Diários, foram escrevendo sua forma de se relacionar com os saberes constituídos no encontro com o outro, com o conhecimento e com o processo de ensino e aprendizagem que envolve diferentes questões que os inquietam. Por vezes, em forma de narrativas ou, ainda, discursivas, os docentes

foram fazendo a retomada das ações do dia a dia, de modo a tomar consciência da sua própria ação docente, conforme narra a professora Ágatha após encontro com uma família:

“Fiquei radiante em saber que após quase 30 anos esse diretor e sua esposa ainda lembravam do trabalho que desenvolvi na ACM durante 10 anos. Realmente me senti gratificante. Esse tipo de retorno é muito importante, pois me fez refletir sobre o quanto eu cresci na minha caminhada profissional.” (DRP3.15).

Tal narração concede oportunidade de o professor fazer memória da experiência vivida, retomando elementos dos seus saberes constituídos ao longo da vida.

As formas e os jeitos singulares com que cada professor utilizou seu caderno tornaram-se importantes para esta pesquisa, na medida em que se consolidou como um recurso que alimenta a reflexão sobre a ação. Isso só se tornou possível graças aos escritos em momentos diferentes do cotidiano docente, podendo ser visitados ao tempo em que o professor constrói para si a necessidade de fazê-lo, adicionando, na sua rotina, a escrita no Diário.

Segundo Freitas (2017, p. 11),

podemos perceber que o registro da reflexão na ação representa uma possibilidade de o professor distanciar-se epistemologicamente de sua própria reflexão, para melhor compreendê-la. Logo, consideramos o registro, na perspectiva proposta por Freire, um elemento fundamental ao permanente exercício de estudo, investigação e avaliação da prática profissional do “professor reflexivo” para qualificar o processo de reflexão sobre a mesma.

Confirmamos, assim, a proposição de Freitas (2017, p. 109) que articula a composição dos Diários de Registro como possibilidade reflexiva:

Ao buscar identificar os diferentes tipos de registro, também se identificou uma possível relação com os momentos de sua elaboração. Por exemplo, a elaboração de registros reflexivos, como maior extensão da escrita, verificou- se no momento posterior à aula, configurando o que Schön denomina de reflexão sobre a ação, assim como registro da escuta dos alunos ganhou densidade quando realizado durante a aula, subsidiando a reflexão na ação, bem como contribuindo para recuperar a memória da experiência e qualificar a reflexão posterior, ou seja, exercer a reflexão sobre a reflexão na ação. (FREITAS, 2017, p. 109)

Ancorado na memória, o registro ajuda a compreender como a participante foi se constituindo enquanto professora, valorizando, assim, a trajetória de aprendizagem

vivida. A escrita da professora Ágatha encontra eco no destaque de Zabalza sobre a característica narrativa da escrita como apoio à retomada das ações diárias, visando à aprendizagem sobre os fatos cotidianos, diários da sala de aula e do professor. Conforme o autor:

A redação dos diários leva consigo todo um conjunto de fases sucessivas que facilitam o estabelecimento de um processo de aprendizagem [...] (a) o processo de se tornar consciente de sua própria atuação ao ter de identificar seus componentes para narrá-los e (b) o processo de recodificar essa atuação (transformar a ação em texto) o possibilita a racionalização das práticas e sua transformação em fenômenos modificáveis. (ZABALZA, 2010, p. 27)

Desta maneira, essa experiência narrativa converge em aprendizagens ao tempo em que se apoia à dimensão reflexiva. De tal modo, numa perspectiva freireana assumida por esta pesquisa, a escrita na perspectiva reflexiva, é observada no registro do professor Quartzo, quando pontua que as questões cotidianas mobilizam para a reflexão constante, porque, segundo o professor, “é uma aprendizagem constante, quase que diária, das atitudes a tomar” (DRP1.13).

Em consequência disso, averiguamos a importância do registro também na perspectiva histórica, que favorece o professor a uma tomada de consciência de um processo que pode ser repetido em outros momentos. Assim, a autoavaliação vai além do pensamento, pois o registro é permanente e faz com que os docentes retomem, de maneira ainda mais coerente, sua prática. Esse argumento se confirma nas palavras de Freitas quando afirma ser “o recurso do registro como ponto de apoio à memória da reflexão realizada no momento da ação, a fim de lembrar aspectos a serem considerados na continuidade de seu planejamento” (FREITAS, 2017, p. 213). Sendo assim, identificamos a validação da importância do uso do registro, por parte dos professores, no acompanhamento da sua prática cotidiana nos recortes dos diários abaixo:

“É muita prova, plano, postagem... ufa! Às vezes, sentimento de “poderia ter feito melhor ou diferente”. Até que ponto atingi meus alunos? O que realmente levarão? Será que cumpri meu papel? Qual é o meu papel?” (DRP2.10).

“Saí da apresentação muito feliz e com a certeza mais uma vez de que faço o que eu acredito e mais, me empenho sem cansaço para que isso possa ser melhor. Me emocionei sobre o trabalho feito” (DRP5.3).

“Gostaria de falar sobre as saídas de campo. (...) Levar o aluno a campo significa levar o aluno a entender as relações existentes na natureza, na importância no nosso papel na preservação do ambiente” (DRP5.4).

“Isso me faz reconhecer quem sou no meu trabalho diante da aprendizagem dos estudantes” (DRP8.2.1).

Esses relatos remontam a perspectiva dos professores da sala de aula e dos demais espaços em que eles circulam e participam – como reuniões pedagógicas, saídas de campo, atendimento às famílias – trazendo à tona o posicionamento deles no enfrentamento cotidiano das questões que envolvem a docência. Com base nessa análise, coaduno com Freitas quando a autora defende que a utilização do Diário de Registros deve revelar a “intenção de problematizar as relações de ensinar e de aprender e apoiar a pesquisa em sala de aula, de modo a contribuir para o desenvolvimento de práticas crítico-reflexivas” (FREITAS, 2005, p. 11).

Ao longo desta pesquisa, o Diário se constituiu “instrumento de apoio à atitude crítico-reflexiva e investigativa”, como preconiza Freitas (2010), possibilitando que, através dele, o docente problematize as relações de ensinar e aprender, as relações que estabelece com seus pares, com os estudantes e o objeto do seu conhecimento, ou seja, seu saber.

Na continuidade, no 4º Círculo, a mobilização foi convidar os professores a retomarem seus escritos e responderem aos questionamentos: “O que vocês registraram? Por que registraram o que registraram?” (TCD4.4). Com essas perguntas, retomamos os objetivos dos Círculos Dialógicos como dinâmica de investigação e (trans)formação docente, visto que é nesse espaço que os temas da sala de aula e do cotidiano das práticas docentes são levantados e discutidos. Sendo assim, a questão motivadora “Por que registraram o que registraram?”desencadeou um exercício consciente de retomada da forma com que cada um estava entendendo o processo de escrita e como estava fazendo uso dos Diários. A essa pergunta, muitas respostas foram sendo compartilhadas nos Diários e nos Círculos, conforme seguem:

“São momentos e fatos que foram nesse tempo mexendo com minhas ideias e acionando os meus desafios como educadora” (DRP7.3).

“Fui registrando mesmo sem me dar conta. Só depois vi que podia ler tudo e tudo fazia sentido” (TCD5.8).

Através dessas colocações, verificamos que o registro foi acontecendo, ora individual, ora coletivamente, despertando formas singulares conforme o sentido conferido por cada um. Os participantes escreveram o que quiseram registrar, o que se sentiram à vontade de fazê-lo, o que mobilizou os seus pensamentos e, ainda, o

que precisava ser escrito para ser retomado depois. Registraram fatos, fotos, pessoas e situações que marcaram a suas vidas e constituíram seus saberes. Registraram as próprias angústias sobre o processo de reflexão, como, por exemplo, expressa a professora Júlia “acredito que reflexões são várias, mas o quanto de fato elas produzem algum efeito ou mudança no meu fazer pedagógico não sei ao certo” (DRP6.2). Entendemos, com isso, que o professor, quando registra a sua prática, potencializa suas possibilidades de refletir sobre ela, “compreende-se, portanto, que ao fazer de sua prática um elemento constante de reflexão, o professor constrói conhecimento e também a si mesmo” (FREITAS, 2017, p. 206).

Em vista disso, percebendo o que registraram e o porquê registraram, fomos evidenciando que o registro transforma a escrita da prática num constante conteúdo para a reflexão. Dizendo de outro jeito, o Diário de Registro é potente se considerado como um elemento para o acompanhamento docente, pois faz com que o coordenador pedagógico estabeleça diálogo com os diferentes saberes do educador expressos nesse instrumento.

Na busca pela resposta ao questionamento “De que forma o Diário de Registros pode servir como instrumento de acompanhamento?”, feito por mim no Círculo, construímos, eu, enquanto pesquisadora e coordenadora pedagógica, juntamente com o grupo de professores – copesquisadores – argumentos para elucidar o que emergiu das leituras dos Diários e da intervenção com cada um dos educadores após a leitura. Essa prática possibilitou verificarmos que o Diário de Registro pode se transformar num importante instrumento para o acompanhamento docente. Essa possibilidade fica evidenciada nas respostas e contribuições do grupo de professores. A professora Liz destaca que

“(...) o registro constitui e organiza a capacidade do professor compreender e entender o seu trabalho em etapas, percebendo as angústias e desafios originados a partir da prática. Assim, o registro torna-se uma ferramenta fundamental para o autoconhecimento do profissional que, também com este aporte, constitui-se como um sujeito ativo, que reflete sobre sua prática, a fim de repensar seus erros e acertos e, em decorrência disso, aprimora-se” (DRP4.15).

Nessa colocação, a professora marca a característica de organização e autoconhecimento docente presentes no ato do registro. Com base nessa e em outras respostas, a coordenação pedagógica consegue acessar os movimentos de ação e

reflexão desenvolvidos no aprimoramento de suas ações, de tal modo a fazer um acompanhamento pedagógico que ajude na qualificação das suas práticas.

Já a professora Violeta faz referência à importância do registro numa perspectiva de organização da vida escolar, envolvendo o estudante nesse contexto:

“Penso que o registro é fundamental na prática docente. Através dele podemos mapear as situações vividas pelos alunos, desde seu aprendizado até suas atitudes, reações... que podem ser de extrema importância para uma análise global do aluno. Planilhas são, para mim, a forma mais prática para este registro, além das observações que destaco de cada aluno. [...] Todos estes dados são de conhecimento do aluno e a partir deles é possível o aluno, junto com o professor, fazer uma análise de sua trajetória”.

Essa fala chama atenção para a necessidade de tensionar a funcionalidade do registro como instrumento de acompanhamento docente. A professora sinaliza a importância do registro no acompanhamento do aluno como um meio de acompanhá- lo na sua evolução da aprendizagem. No caso do registro que esta pesquisa se debruça, superamos a questão burocrática e puramente narrativa para adentrarmos num território onde o registro é propulsor de reflexividade. Ao invés de perguntarmos o que nossos alunos fizeram ou deixaram de fazer, vamos nos questionar sobre o porquê deles terem feito, com qual intenção, objetivando que tipo de reação. E, assim, as planilhas ganham vida; os relatórios apresentam, através dos números, significados; e as presenças ou ausências, indícios das trajetórias de suas aprendizagens.

Porém, observando o percurso dos anos que marcaram o desenvolvimento da profissão do coordenador pedagógico é complexo o processo de mudança da concepção e da prática, pois, originalmente, os papéis exercidos pela coordenação pedagógica e professores, no que tange ao acompanhamento docente, eram balizados por questões diretivas e pouco democráticas. Por isso, faz-se importante destacar o que trouxe a professora Jade na defesa do argumento:

“Acredito que esse pode vir a ser um instrumento muito útil para o acompanhamento do fazer pedagógico, na medida em que os docentes registram suas angústias, dúvidas, sucessos e projetos. Porém, para que isso se torne uma prática efetiva, creio que alguns passos devem ser planejados, tipo: os professores precisam estar à vontade para escrever. É preciso que o grupo confie na pessoa que os coordena, por isso a experiência dos Círculos é muito importante; a leitura deve servir para auxiliar o professor e não para puni-lo; conversas semestrais sobre os registros e práticas docentes podem tornar-se mais significativas e interativas que a mera observação em sala de aula.” (DRP2.12)

Nesta mesma linha reflexiva e inquieta, o professor Quartzo responde no seu diário:

“A minha resposta é não sei. Acho que pode ser um instrumento muito importante como acompanhamento, porém minha dúvida é sobre a espontaneidade. De que forma pode ser feito esse registro sincero, sem o receio de estar sendo avaliado, o de ser utilizado pelo professor para expressar somente aquilo que a coordenação quer ouvir, ou seja, para agradar as estâncias superiores. Acho que o registro deve ser um instrumento, uma via de duas mãos. Uma maneira da coordenação acompanhar e principalmente compreender o professor e o seu trabalho, assim como um registro que sirva de reflexão ao próprio professor. Mas para isso deve haver um contexto de extrema confiança.” (DRP1.14)

A resposta do professor enfatiza a importância da confiança, pois só assim é possível existir abertura para o diálogo, a fim de expor seus sentimentos e compartilhar seus saberes. Ao dizer “acho que o registro deve ser um instrumento, uma via de duas mãos”, o professor esclarece que ambos os sujeitos devem estar envolvidos nesse projeto. Não se trata de uma entrega por parte do professor à coordenação, mas sim, uma construção coletiva, internalizada na prática de acompanhamento.E quando ele segue dizendo “uma maneira de a coordenação acompanhar e principalmente compreender o professor e o seu trabalho, assim como um registro que sirva de reflexão ao próprio professor”, Quartzo reafirma a necessidade de uma postura dialógica, compreensível e democrática da coordenação pedagógica, de forma que, através do acompanhamento docente, seja vigente um diálogo que favoreça e inspire o desenvolvimento profissional e o aprimoramento das práticas por meio da reflexão.

Diante desses argumentos e considerações, validamos e reafirmamos que o Diário de Registros é um dos instrumentos de apoio à prática reflexiva. Por isso, pode ser utilizado pelo professor e pela coordenação pedagógica como um canal de diálogo e autoconhecimento, que evidencia a intencionalidade da escrita que, mesmo ancorada em características subjetivas, anuncia uma disposição investigativa e (trans)formadora de novas práticas na escola.

6.4 O QUE É SER REFLEXIVO? A PRÁTICA REFLEXIVA NA VISÃO DOS