1 Introduction: Lipids and lipidomics
1.3 Triacylglycerols
Terluin (2003) citado por Kageyama (2008) ao tratar de modelos de desenvolvimento associados aos estudos rurais faz distinção entre duas abordagens: modelo de desenvolvimento endógeno e o modelo de desenvolvimento misto. O primeiro consiste no desenvolvimento local produzido por impulsos locais e baseado em recursos locais com implicações nas políticas de suporte à diversificação rural, de apoio às iniciativas rurais e de incentivo e treinamento para empresas locais. O segundo caracteriza-se pela interação entre forças locais e externas nos processos de desenvolvimento e os atores encontram-se envolvidos em redes locais e externas.
Para aclarar a abordagem endógena Casarotto Filho e Pires (2001) definem o desenvolvimento local como uma região com planejamento territorial e forte interação público-privado, com a finalidade de assegurar a qualidade de
vida dos habitantes, englobando o ambiente social e cultural local para além do ambiente comercial ou de negócios.
Segundo Mior (2006) apud Kageyama (2008), existe uma crescente valorização das abordagens endógenas do desenvolvimento rural, entre as quais se destaca a abordagem do desenvolvimento local na qual as instituições e organizações locais e regionais passam a ter um papel crucial como força motriz do desenvolvimento. Entretanto, o autor chama a atenção para o perigo de uma idealização do local como portador isolado das qualidades necessárias para o desenvolvimento rural e para que isso não ocorra ele propõe a noção de redes de desenvolvimento rural, integrando elementos locais e não-locais necessários para alavancar o desenvolvimento.
Para realçar, Figueiredo (2003) aludindo Kayser (1990, p. 222) cita que
“o desenvolvimento local não pode funcionar sem intervenções exteriores, embora não possa progredir sem a vontade e as iniciativas locais [...] trata-se de um processo que torna possível, em meio rural, que a associação de iniciativas locais e de incentivos externos conduza a realização de projetos indutores de progresso”.
Assim, a promoção da localidade assume-se como essencial não só para compreender as transformações ocorridas nas áreas rurais contemporâneas, como também para intervir sobre elas, agindo sobre os seus problemas e fragilidades e promovendo as suas potencialidades. Esse pressuposto coloca desafios no nível social, político e econômico e exige a emergência de uma nova racionalidade que fundamente os processos de planejamento do desenvolvimento para as áreas rurais: a identificação clara dos problemas importantes das áreas rurais em termos socioeconômicos, políticos e ambientais; a identificação e o desenvolvimento de políticas e programas praticáveis para tentar resolver os problemas e a reorganização das instituições e dos mecanismos institucionais existentes ou a desenvolver para formular e implementar as políticas e os programas de forma legitima e eficaz (FIGUEIREDO, 2003).
De acordo com Brandão (2007) muitos enfoques fundamentados na abordagem endógena ou no desenvolvimento local, como os clusters, sistemas locais de inovação, incubadoras, distritos industriais, possuem uma concepção de que a escala local tem poder ilimitado, exaltando a capacidade do local de fundar e coordenar ações cooperativas e reflexões coletivas baseadas nas relações de reciprocidade entre os membros da comunidade local, proclamando o ressurgimento de um agrupamento comunitário solidário, baseado em relações de reciprocidade, em que as relações mercantis são subordinadas pelo consenso cívico e cidadão, em que parece não haver lugar para conflitos.
Nessa abordagem o Estado pouco teria o que fazer senão prover externalidades positivas, desobstruir entraves microeconômicos e institucionais, atuando sobre as falhas de mercado, passando tudo a depender da força comunitária de cooperação, da eficiência coletiva e das vontades e fatores endógenos ao entorno territorial que tenham construído uma atmosfera sinérgica. A concepção localista tem uma ideia de que se estaria vivendo em uma comunidade, não em sociedade e que esse conjunto social não é cindido em classes e interesses políticos complexos, discutindo apenas atores sociais. Nesse sentido os fatores exógenos como câmbios, juros, relação salarial, questões financeiras seriam questões sem peso significativo, restando a opção de políticas de desenvolvimento de natureza monoescalar, onde o local seria o ponto de partida, em ambiente de alta sinergia associativa do seu capital social para acionar a rede dos fluxos globalizados (BRANDÃO, 2007).
Essa concepção implicaria a possibilidade de consolidar um novo padrão de desenvolvimento, construído totalmente no âmbito local, dependente apenas da força de vontade dos agentes empreendedores que mobilizariam as potências endógenas de qualquer localidade. No entanto, Brandão (2007) refere que existiriam apenas soluções parciais para as regiões, com restritos focos de prosperidade, o Estado apresentar-se-ia como um meio de vontades de produzir vantagens comparativas e sinergias localizadas visto que a abordagem negligencia totalmente a questão fundamental da hegemonia e do poder político depositando na vontade dos atores sociais de um determinado
recorte territorial todos os requisitos de superação do subdesenvolvimento e aniquilar-se-iam as possibilidades de tratamento adequado das heterogeneidades estruturais dos países que vivem em situações de extrema assimetria entre suas porções territoriais correndo riscos de desembocar em processos de fratura.
Portanto, essa concepção apresenta insuficiências, desvios e consequências nefastas com aplicação mecânica das suas concepções que ressaltam os microprocessos e as microdecisões, defendendo uma agenda que nega cabalmente a política, os conflitos, as classes sociais, o papel da ação estatal, a nação e o espaço nacional, ou por outras, nega todas as questões estruturais e assim, todas as escalas existentes entre o local e o global, esquecendo-se da existência de fatores decisivos que são exógenos à localidade, para além dos endógenos.
Assim sendo, de acordo com Brandão (2007), a contraposição dessa visão passa pela discussão de propostas alternativas e pelo tratamento adequado da articulação de todas as escalas geográficas visto que nenhuma escala por si só é melhor ou pior, elas ganham nova significação em cada momento histórico particular e tem instrumentos e ações distintos que devem ser assim manejadas. É preciso discutir a espacialidade dos problemas e implementar políticas levando em consideração a escala especifica desses problemas, mas em um contexto em que esteja presente um projeto nacional de desenvolvimento. Há necessidade de tratar teórica, analítica e politicamente a questão das escalas, reafirmando a importância das escalas intermediárias (entre o local e o global), sobretudo do papel fundamental da escala nacional marcada por heterogeneidades estruturais com determinações, papéis e potencialidades na implementação de políticas de desenvolvimento.
Segundo Juncal (2002) citado por Brandão (2007) o grande desafio deve ser o fortalecimento do papel da liderança dos governos em todos seus níveis territoriais, um espaço onde o Estado recupere sua legitimidade e se afirme e a sociedade civil expresse sua identidade e se fortaleça, e para tal, a proposta multiescalar deve tratar de forma positiva as heterogeneidades estruturais (produtivas, sociais, culturais, espaciais) de um país e não como desequilíbrios,
assimetrias ou problemas. Portanto, buscar a realização do projeto de desenvolvimento, em qualquer escala, implica distorcer a correlação de forças, importunar as estruturas e coalizões tradicionais de dominação e reprodução do poder através de ações e políticas públicas em duplas frentes, aquela que constrói processos e aquela que desmonta processos, desviando-se da noção de que o desenvolvimento traz inerente o sentido de equilíbrio e tranquilidade, enquanto que por sua própria natureza, traz inerente um estado de tensão (BRANDÃO, 2007).