“Todo planejamento educacional, para qualquer sociedade, tem de responder às marcas e aos valores dessa sociedade. Só assim, é que pode funcionar o processo educativo, ora como força estabilizadora, ora como fator de mudança. Às vezes, preservando determinadas formas de cultura. Outras, interferindo no processo histórico instrumental”. (FREIRE, 1986, p. 23) Neste sentido, construímos as Unidades Didáticas em uma perspectiva freireana. No entanto, para tal, iniciamos um diálogo sobre a unidade didática, a fim de compreender mais sobre essa questão. Libâneo e Freitas (s/d) afirmam que, para a construção de uma unidade didática, o aspecto essencial do ensino é a mediação didática da mediação cognitiva. Ou seja, o ensino consiste na atuação do professor, na relação do aluno com o objeto de estudo, ajudando-o a formar e desenvolver capacidades intelectuais (conceitos) por meio dos conteúdos.
Assim, vemos que o professor, enquanto mediador do processo de ensino e aprendizagem, contribui para desenvolver a capacidade intelectual do estudante por meio dos conteúdos. Partindo dessa perspectiva, entendemos, tal como os autores afirmam, que
O Plano de Ensino se apresenta como meio primordial para o professor, que faz a antecipação mental das atividades a serem realizadas em uma disciplina, possibilitando, desse modo, a organização dos conteúdos, dos objetivos a serem trabalhados e uma melhor organização e implementação das aulas em seu cotidiano escolar. (LIBÂNEO; FREITAS, s/d, p. 1)15
O Plano de ensino pode abranger um ano ou um semestre letivo, podendo ser
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Texto utilizado na disciplina Didática e Ensino Desenvolvimental, no Programa de Pós-Graduação em Educação – Linha Teorias da Educação e Processos Pedagógicos, da Pontifícia Universidade Católica de Goiás. Visto em 2017.
operacionalizado em Plano de Unidade Didática (ou Plano de Aula16). Por “unidade didática”
entenda-se aqui um conjunto estruturado de atividades de ensino e aprendizagem, numa sequência lógica, visando à consecução de objetivos de aprendizagem.
Desse modo, compreendendo a importância deste processo de operacionalização das atividades da pesquisa, optamos por um Plano de Unidade Didática (ou Plano de aula) voltado para uma organização mais estruturada das atividades referentes ao ensino e à aprendizagem, para que possamos trabalhar a partir de uma sequência didática que é flexível, levando em conta os objetivos da aprendizagem.
Neste sentido, Libâneo e Freitas (s/d, p. 02), a partir da didática desenvolvimental e a lógica do plano de ensino, acreditam, que “[...] o caminho da aprendizagem é aquele que possibilita ao aluno a interiorização de ações mentais, ou seja, de formação de conceitos”. Os conceitos estão nos conhecimentos acumulados na experiência sócio-histórica da humanidade. O que nos leva ao que Freire define como “saberes da experiência feito”, os quais se constituem de saberes que os estudantes trazem para a aula, nos conhecimentos que carregam, adquiridos ao longo de sua história de vida, de seu contexto histórico-cultural.
Desse modo, faz-se necessário um momento para se mapear os saberes, a partir de um diagnóstico das experiências, dos saberes e conhecimentos que os próprios estudantes possuem sobre a disciplina e a sistematização desse conteúdo.
É interiorizando os processos lógicos e investigativos que formamos nossos conceitos e auxiliamos a formação dos alunos. Entendemos que é, de fato, fundamental uma organização das ações e atividades pretendidas no processo de ensino e aprendizagem utilizada pelo professor em seu cotidiano em sala de aula.
Nesse contexto, entendemos a significativa importância dos planejamentos, bem como da unidade de ensino, na organização e estruturação do trabalho docente. Percebemos que este processo vai exigir um esforço dos docentes em organizar conteúdos, metodologias e estratégias de trabalhos, entre outras questões, como objetivos, avaliação e metas a serem alcançadas.
16 Acreditamos que o tempo de uma aula (considerando “aula” com uma unidade de tempo de 50 min)
possivelmente seja curto para esgotar um assunto ou temática. Por essa razão, seria razoável entender que o Plano de ensino se divide em vários planos de unidades didáticas. No entanto, não há razão para não chamar o “Plano de unidade” de Planos de aulas. A expressão “unidade didática” foi difundida no Brasil por Irene Mello de Carvalho (1969), em seu livro O Ensino por Unidades Didáticas. Embora tivesse vínculo, inicialmente, com a didática de Herbart, o termo foi mantido em manuais de didática de distintas orientações teóricas.
Anastasiou e Alves (2009, p. 64) nos mostram que, para a organização de suas ações, os professores, em seus planos de ensino, “[...] tinham como centro do pensar docente o ato de ensinar; portanto, a ação docente era o foco do plano”, ações estas que levam a uma concepção de ensino e de aprendizagem que vigorava na época. Atualmente, entretanto, as proposições são construídas coletivamente em parceria com o estudante na sala de aula e, desse modo, o foco da ação docente, que era o ato de ensinar, passa a ser considerado conforme as teorias interacionistas e construtivistas da aprendizagem, que têm o estudante como protagonista no processo.
Fica claro, assim, a importância do plano de ensino ou da unidade didática para o desenvolvimento do trabalho em sala. Segundo Anastasiou e Alves (2009), Gandim (1994) e Gil (2012), muito embora não existindo um modelo fixo a ser seguido, e podendo, assim, variar de acordo com a realidade e necessidade, os planos de ensino devem seguir uma sequência lógica e coerente com os elementos elencados como necessários para o processo de ensino e de aprendizagem.
Desse modo, partindo de uma reflexão inicial, o plano de ensino freireano que ora apresentamos, apesar de poder variar de acordo com cada instituição de ensino, pode, em princípios, seguir a seguinte estrutura, não devendo, é claro, ser entendida como receita de bolo.
O planejamento pressupõe, de maneira geral, que se responda aos seguintes questionamentos: “o quê” devemos trabalhar com os estudantes; “para quê” utilizar este conteúdo; “quais” os objetivos a serem alcançados; “como” trabalhar este conteúdo; “quais” as metodologias a serem utilizadas; e “com o quê” iremos ministrar os conteúdos elencados para ensinar. Este processo reflexivo resulta nos objetivos, conteúdos, metodologias e formas de avaliação a serem utilizados, subsidiados nos pressupostos freireanos.
O plano de ensino deve conter orientações semestrais ou anuais. Já o plano de aula ou unidade didática se caracteriza como um roteiro segundo o qual o professor ministrará cada uma das aulas constantes plano de ensino.
Desse modo, o professor terá, na unidade didática, um instrumento com o qual fará a sistematização de todos os conhecimentos necessários ao aprendizado do estudante, bem como das atividades e procedimentos que utilizará na aula. No entanto, compreendendo que, dentro de uma perspectiva freireana, o conhecimento parte necessariamente do desejo de
aprender do estudante, da sua curiosidade, de uma pergunta que ele próprio se faça em relação a algo. Neste sentido, a unidade didática em Freire necessita primeiramente conhecer o que o estudante quer aprender, quais os seus interesses e, para tanto, faz-se necessário trabalhar a problematização, no sentido de despertar o interesse do estudante e, a partir disso, construir a unidade didática.
Apresentamos a seguir as possibilidades e concepções que nortearam a construção de uma Unidade Didática na Educação Física.
3.2 Em busca do entendimento para proposição de uma Unidade Didática na Práxis