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__________ este é um abrigo na orla do bosque – metade árvore, metade construção de ramos mortos;

nesta árvore de vida, o declive do telhado é firme, impenetrável à erosão da chuva;

Esse é o abrigo de Hölderlin, descrito em Hölder, de Hölderlin, de Maria Gabriela Llansol. Um abrigo metade árvore, metade construção de ramos mortos. Uma árvore de vida impenetrável à erosão da chuva. E esse abrigo, na orla do bosque, abriga Hölderlin. Ele chegou com sua árvore, quaercus, acompanhado de seus companheiros que também traziam consigo suas árvores: Joshua, com seu pinus lisitanus, e Giordano Bruno, com sua nogueira.

Sabemos, através da História, que Hölderlin desejava, profundamente, o retorno a uma época na qual homens e deuses conviviam intimamente. Desejava o retorno ao mundo cantado pela literatura grega – uma pré-História, digamos. Sabemos também que a loucura o abateu quando viu o amor escorrer pelos dedos, quando o amor lhe pareceu “distante como a palma da mão”.242 Sua razão de partir não seria o amor? Refiro-me a Charlotte, mulher por quem nutriu uma paixão e que teve uma morte precoce, ou Diotima, como ela aparece em seus poemas. Sabemos que Hölderlin vagou, por algum tempo, por paisagens, de certa forma, desconhecidas: “Strasbourg – Lyon – Colmar – Belfort – Besançon, o Val do Dougs, Dôle, Châlon, o Val do Saône, Maciço Central, Clermont-Ussel, Tulle, Périgueux, Isle e, por fim, Bordéus”.243

Passou boa parte de sua vida em um quarto, no alto de uma torre em Tübingen, sul da Alemanha, que dava para o rio Nechar. Um dos seus últimos trabalhos foi a tradução de

Antígona, de Sófocles, trabalho pelo qual sofreu críticas contundentes da parte de seus

contemporâneos. Essas críticas focavam-se, basicamente, no caráter literal de suas traduções, naquilo que seus contemporâneos denominaram de “monstruosas literalidades”.244 Por exemplo, ele traduz a frase do grego que, na versão universitária de

Antígona, publicada pelas edições les Belles lettres, aparece como “quelque propos te

tourmante”, ou seja, “algum propósito te atormenta”, por “tua fala se turva de vermelho”. O

242 LLANSOL. Hölder, de Hölderlin, s/p. 243 LLANSOL. Hölder, de Hölderlin, s/p.

salto enorme entre as duas traduções se revela, como nos conta Haroldo de Campos, em seu texto A palavra vermelha de Hölderlin, pela tradução do verbo “kulkháino”:

O verbo “kulkháino” significa em grego: “tem a cor escura da púrpura" e que, em sentido figurado […] quer dizer: “estar sombrio, estar mergulhado em reflexões, meditar profundamente sobre qualquer coisa”. Schadewaldt acrescenta: “A expressão grega soaria numa imitação literal: ‘tu purpurejas uma palavra’. purpurejar […] procede aqui da cor vemelho-escura que assume o mar quando está próxima uma tempestade”. Hölderlin escandalizou seus contemporâneos (inclusive os poetas...) porque, com intuição de poeta, preferiu à pálida convenção do sentido translato a força da metáfora original […].245

Hölderlin opta pelo vermelho do verbo. A metáfora do tormento parece não lhe interessar. Como se sua língua fizesse “parte com o céu da boca”.246 Como se sua língua nascesse, tal qual observamos em um beijo dado mais tarde, de Maria Gabriela Llansol, do balido e do sangue vertido de uma cabra. Sua língua não tem impostura. Sua palavra é vermelha. Talvez Hölderlin tenha escolhido o vermelho do verbo ‘kulkháino’ devido ao seu pouco conhecimento da língua grega, ou porque o sentiu como poeta. Com sua intuição de poeta e sua proximidade com os vagabundos, parece ter percebido esse verbo com o sexo

da paisagem e, com isso, parece ter saído da História para passar a viver num mundo de

seiscentos milhões de anos.

Afortunados os tempos para os quais o céu estrelado é o mapa dos caminhos transitáveis e a serem transitados, e cujos rumos a luz das estrelas ilumina. Tudo lhes é novo e no entanto familiar, aventuroso e no entanto próprio. O mundo é vasto, e no entanto é como a própria casa, pois o fogo que arde na alma é da mesma essência que as estrelas; distinguem-se eles nitidamente, o mundo e o eu, a luz e o fogo, porém jamais se tornarão para sempre alheios um ao outro, pois o fogo é a alma de toda luz e de luz veste-se todo fogo. Todo ato da alma torna-se, pois, significativo e integrado nessa dualidade: perfeito no sentido e perfeito para os sentidos; integrado, porque a alma repousa em si durante a ação; integrado, porque seu ato desprende-se dela e, tornado si mesmo, encontra um centro próprio e traça a seu redor uma circunferência fechada. “Filosofia é na verdade nostalgia”, diz Novalis, “o impulso de sentir-se em casa em toda parte”.247

Essa é uma das descrições de Lukács para o que ele chama de “a era da epopéia”, época a que Hölderlin parece querer remontar com sua experiência, e com seus escritos. Remontar a uma era em que “o mundo é vasto e no entanto é como a própria casa”. E sua casa, na textualidade Llansol, é “um abrigo metade árvore, metade construção de ramos

245 CAMPOS. A Arte no horizonte do provável. p. 99. 246 LLANSOL. um beijo dado mais tarde, p. 7. 247 LUKÁCS. A teoria do romance, p. 25.

mortos”. Onde os sexos que movimentam o vivo, o sexo do homem e o da paisagem, estão compartilhados. Porém essa era já havia passado.

“Agora pergunto-te, dizia a carta,

os deuses da Grécia morreram?”

era a forma de afirmar, perguntando, que os deuses da Grécia morreram. “Sim, morreram”, comprovou Hölderlin, sabendo o que lera. “E eu, suspirou, como viver sem essa diferença entre os deuses e os homens?”248

Como viver com tal comprovação? Talvez habitando um mundo de seiscentos milhões de anos. Talvez escrevendo, traduzindo. Talvez fulgorizando Hölderlin, com Hölderlin: “fiz com ele, para não acabar como ele”.249 Dando-lhe um abrigo. Pois, só dessa forma, pode-se sair da nostalgia de reviver uma época que já passou. Talvez, por isso, Hölderlin tenha traduzido sua “palavra vermelha”, pois não era na nostalgia que se elaborava seu trabalho, mas, sim, no rigor da literalidade da forma. Com sua “palavra vermelha”, ele trouxe a Grécia para o seio de sua língua. Para o seio de sua casa. No vermelho do verbo ‘kulkháino’, ele remontou às cores de um mundo de seiscentos milhões de anos.

E é também com sua “palavra vermelha” que Llansol parece criar um abrigo para

Hölderlin. Ela, que viu nascer uma língua com parte no céu da boca, vermelha, em meio ao

sangue e ao balido de uma cabra presa a um castanheiro. Ela dará a Hölderlin um abrigo na orla do bosque:

um bosque de pinheiros marítimos – um pinhal −, e a agitação do vento circula na base, impelindo as janelas a uma velocidade de grande rapidez;

aqui, as estrelas brilham por cima das cabeças, e os cheiros vindos do mar entram pelas narinas, e os orifícios das raízes;250

Nesse lugar, “Hölderlin (quaercus, do nome de carvalho) sentiu uma grande ausência: “a sua cabeça ia abandoná-lo, e ele levantou-se ainda para ir no seu encalço com os braços; tudo principiava pelo som – o som de fazer um último poema”.251 Nesse momento, “a mão já não está no braço, os olhos no rosto, o pé na perna, a cabeça no busto”.252 Nesse lugar, deparamo-nos com um novo abrigo: o abrigo para a loucura de

Hölderlin. Um abrigo sem nostalgia, nem ilusões: “nenhuma lama se transformara em

248 LLANSOL. Hölder, de Hölderlin, s/p. 249 LLANSOL. o senhor de Herbais, p. 51. 250 LLANSOL. Hölder, de Hölderlin, s/p. 251 LLANSOL. Hölder, de Hölderlin, s/p. 252 LLANSOL. Hölder, de Hölderlin, s/p.

pássaro”.253 Um abrigo para as imagens de Hölderlin que permanecem “hermeticamente fechadas. Até hoje”.254

253 LLANSOL. Hölder, de Hölderlin, s/p. 254 LLANSOL. Hölder, de Hölderlin, s/p.